Diários de Guo Yuan: Entre duas casas

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Guo Yuan

Sem dar por isso, já vivo em Portugal há quase cinco anos. Dois anos de estudo mais três de trabalho permitiram-me conhecer melhor o país e parece-me um bom momento para reflectir sobre os principais aspectos que me fizeram vir e fazer deste país a minha segunda casa.

Ambiente
Quando falo em ambiente, não me refiro apenas ao meio ambiente, mas também ao ambiente social, cultural e político. Mas comecemos pelo meio ambiente. Antes de vir para Portugal, trabalhei quase dois anos em Pequim, entre 2012 e 2014. Em 2013, a qualidade do ar piorou substancialmente na capital chinesa e aumentaram os dias cinzentos, com nevoeiros de poluição (雾霾 wu mai), ou ‘smog’, e comecei a ter mais problemas de garganta, mesmo com o uso frequente de máscaras para filtrar as partículas de poluição. Devo confessar que este é um dos motivos principais pelos quais deixei Pequim e vim para Portugal. Nos primeiros dias em Portugal, sentia-me tão feliz por poder respirar ar puro e olhar para o céu tão limpo e azul como a cor do mar (estava em Aveiro, que é menos poluída que Lisboa). Costumava tirar muitas fotos ao céu e mandar para a minha família, amigos na China, ex-colegas em Pequim e que despertaram bastante inveja.

poluição atmosférica

“Em 2013, a qualidade do ar piorou substancialmente na capital chinesa e aumentaram os dias cinzentos, com nevoeiros de poluição”

Contudo, e como disse, o ambiente de que gosto aqui não é só o “meio ambiente”, mas também o ambiente mais livre ao nível social, cultural e político. Por exemplo, estou a namorar com um português. Aqui em Portugal, quase não tivemos problema algum em estar juntos em ocasiões públicas. Ninguém nos olha de forma estranha. Se fosse na China, tenho quase a certeza que se andássemos juntos na rua, chamaríamos a atenção e seríamos alvo de olhares, não só de curiosidade, mas também de especulações maliciosas, especialmente por parte dos mais velhos (naturalmente mais conservadores) e dos homens chineses. Os homens chineses têm em geral um ódio inexplicável por mulheres chinesas que namoram com estrangeiros (老外 lê-se laowai). Esta diferença deve-se provavelmente a um período de abertura mais longo em Portugal do que na China. Portugal recebe turismo em massa e novos residentes de todo o mundo há algum tempo. Além disso, o povo português é relativamente tolerante com estrangeiros de outras raças, línguas, culturas e religiões, incluindo-os na sua própria sociedade, mantendo e respeitando as suas próprias características. A China esteve relativamente fechada por muito tempo. Começou a abertura no final dos anos 70 do século XX, e ainda assim tem sido sobretudo ao nível económico. No que diz respeito à abertura da China em termos sociais, e para com estrangeiros, é relativamente recente e, portanto, hoje em dia muitos chineses ainda olham para os estrangeiros com curiosidade. Isso já não acontece muito em cidades cosmopolitas, como Pequim e Xangai. No entanto, se visitar cidades mais pequenas ou zonas rurais, prepare-se para ser olhado de cima a baixo e até a ser-lhe pedida uma foto. Contudo, não leve a mal, porque quem faz isso age por curiosidade. Quem já visitou ou viveu na China sabe que, habitualmente, o povo chinês trata muito bem quem vem de fora.
A tolerância de diferentes estilos de vida também é maior em Portugal. Quando cheguei a Portugal, fiquei um pouco confusa ao ver tantas mulheres a fumar. Na China, as mulheres que fumam regularmente são consideradas indecentes. Outro exemplo: as tatuagens podem ser símbolos ou representar momentos da vida com algum significado. Na China, quem faz tatuagens é muitas vezes considerado indecente e normalmente associado a gangues (黑社会 hei she hui). Um outro estereótipo comum é que as mulheres têm de estar casadas antes dos 25 anos de idade, senão são consideradas como “sobras” (剩女 sheng nu). Se uma mulher chinesa com esta idade não estiver casada, a família, e até amigos, colegas ou vizinhos e conhecidos, vão tentar arranjar-lhe um marido. Isto ao ponto de a tentar persuadir a baixar as expectativas para se poder casar o mais rápido possível. O caso mais ridículo de que ouvi falar é o de uma rapariga obrigada pelos pais a casar-se antes de um prazo. Os pais disseram-lhe que não interessava quem era o homem e que até se podia divorciar depois de se casar…
Outra coisa que gosto do ambiente cá é da liberdade relativa para falar, comentar e criticar os problemas da sociedade, do estado e do governo, assim como algumas questões políticas sensíveis. Uma pessoa pode expressar as suas opiniões de maneira relativamente livre em privado e em público, seja nas redes sociais ou nos jornais, sem precisar de se preocupar com a censura. No meu país, como todos sabem, redes sociais, como o facebook, google, whatsapp e twitter, foram bloqueadas. Em substituição, temos o baidu (百度, para substituir o google), o wechat (微信 wei xin, um tipo de uma combinação de whatsapp e o facebook) e o weibo (微博, uma espécie de twitter) e todos são alvo de censura através da detecção de determinadas palavras-chave. Por exemplo, ao pesquisar-se um termo que inclua certas palavras censuradas no Baidu, os resultados serão limitados. No weibo, existe um sistema que filtra palavras sensíveis. Se alguém quiser escrever um texto que inclua alguma palavra sensível, após alguns segundos da publicação, aparece um aviso a dizer que não é possível fazê-lo por conter conteúdo inadequado. Se nas redes sociais já é assim, imagine-se a censura na imprensa e na televisão. Aqui, a imprensa não parece ter este tipo de preocupação. Por vezes até goza com políticos importantes. No final do ano passado, quando o presidente chinês Xi veio cá em visita oficial, numa cerimónia de boas-vindas, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa deixou cair um pouco de saliva da boca ao sorrir e agarrar as mãos do presidente Xi. Este momento foi apanhado e publicado em alguns jornais online e o vídeo tornou-se viral na internet. Sei que isto é comum no mundo ocidental, especialmente nos EUA. Na China, contudo, nunca vi casos desses na imprensa chinesa ou nas redes sociais.

Clima
O clima agradável é um factor que atrai as pessoas para viajar ou viver em Portugal. A temperatura é moderada durante todo o ano e, mesmo que possa atingir os 40 graus no Verão, o vento do Atlântico sempre traz alguma sensação de frescura. Aqui só falarei de três sítios onde estive por algum tempo na China, porque o país é grande e o clima varia muito de norte para sul.
A cidade onde nasci e cresci ao longo de 18 anos – Nantong, que fica ao pé de Xangai, no leste da China, à entrada do Rio Yangtze – é húmida o ano inteiro, o que torna o Verão insuportável, com um calor abafado. Especialmente quando a temperatura sobe acima de 35 graus (às vezes chega perto dos 40), a cidade transforma-se num forno, e bastam cinco minutos ao ar livre sem fazer nada para se ficar encharcado. Quando cheguei a Portugal, fiquei surpreendida ao descobrir que muitas casas não estão equipadas com ar-condicionado. Isto porque em Nantong, sem ar condicionado, não se sobreviveria no Verão nem no Inverno. No Inverno, as temperaturas podem descer abaixo dos zero graus, e com a humidade, parece estar mais frio do que realmente está, não existindo sistemas de aquecimento central na nossa região… Lembro-me dos muitos invernos que passei aí, ar-condicionado ligado, e eu, vestida com um casaco de penas e duas calças grossas, tinha as mãos e os pés gelados…

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Nantong no Inverno

Já em Pequim, onde trabalhei durante dois anos, faz um pouco mais calor do que em Nantong. Os termómetros podem chegar aos 40 e pouco graus, mas como é mais seco, não é tão abafado. No Inverno, os números podem alcançar menos 20 graus, mas como não existe tanta humidade, não se sente tanto o frio. Além disso, quase todas as casas têm aquecimento central no Inverno. No entanto, a energia vem da queima do carvão e o custo disso é a poluição do ar…
Em Macau, onde frequentei ao longo de quatro anos a licenciatura em Estudos Portugueses, o clima é mais parecido com Portugal, embora chova mais e exista sempre a possibilidade da passagem de tufões. As aulas foram por várias vezes canceladas por causa de tufões que deixam tudo num caos.

Alimentação
A dieta mediterrânica em geral, na qual a portuguesa se inclui, é considerada a mais saudável e equilibrada do mundo. Gosto da comida portuguesa, que além de saudável é variada. Diz-se que existem mil maneiras de fazer bacalhau em Portugal – já provei bacalhau com natas, com broa, à brás, espiritual e com coentros. Gosto destes pratos típicos, mas o que me impressiona verdadeiramente é o mais simples dos pratos, ou melhor, é que nem conta como um prato principal, muitas vezes é considerada uma entrada – a sopa, que combina uma diversidade de ingredientes, nutrição, sabor e preparação fácil. Uma sopa à base de batata é suficiente para saciar a fome. Quando estás em dieta, uma sopa de legumes, sem batata, substitui uma refeição normal. Pode mesmo combinar-se qualquer coisa que reste lá em casa para a base e acrescentar posteriormente outros ingredientes. O modo de preparação também é super fácil e não exige qualquer técnica, desde que uma pessoa saiba cortar coisas em pedaços, pôr a cozer em água e usar uma varinha. Para mim, é um prato tão prático que faço quase todas as semanas.
Também temos sopa na China. No entanto, em geral, é um dos pratos principais. A sopa de peixe, por exemplo, inclui um peixe inteiro, cozido em meio litro de água, temperado com vinho amarelo (黄酒 lê-se huang jiu e é um tipo de vinho que se usa na cozinha), cebolinhos e gengibre, às vezes acompanhado por cogumelos secos, algas, e “orelhas de madeira” (木耳 muer, uma espécie de fungo que cresce nos troncos das árvores e que tem uma textura parecida com algas e um sabor muito subtil). Habitualmente, antes do peixe, comemos a sopa com alguns acompanhamentos lá dentro e, durante a refeição também vamos comendo e “bebendo” o caldo. No final, quando acabamos a refeição, bebemos o que resta, porque consideramos que ajuda à digestão. O modo de preparação é muito mais complicado do que a sopa à maneira portuguesa. São mais passos, mais tempo de preparação e é preciso ter cuidado com os tempos. Também temos sopa de galinha, de pato e de porco, em que a base são as carnes com ossos cortadas em pedaços, com ou sem os acompanhamentos acima mencionados. O meu namorado, que é português, e que até gosta da maior parte da comida chinesa, não aprecia este tipo de sopa, que chama de “água de lavar a louça”…

sopa de peixe

Sopa de peixe (鱼汤 yu tang)

Outra base que usamos muito na sopa são ovos, e as mais típicas são a sopa de ovos com tomates e a sopa de ovos com algas. A preparação é fácil, basta deixar a água a ferver num tacho, juntar os ovos batidos na água e mexer com uma colher. Colocam-se tomates (ou algas) cortados em pedaços, e deixa-se cozer à volta de dez minutos. Acrescentam-se temperos como sal e óleo de sésamo (麻油 lê-se: ma you, um tempero que se usa muito na culinária chinesa) e ao sair do fogão juntam-se cebolinhos e/ou coentros em pedaços.

Nestas primeiras páginas do meu diário, apontei alguma das razões que me fazem sentir em casa em Portugal. Mas ao longo destes cinco anos, também descobri alguns aspectos não tão agradáveis no país. Se me derem oportunidade, irei falar deles no próximo capítulo.

 

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