As Praias de Agnès na China

Hélder Beja

 

 

 

 

 

Hélder Beja*

É fácil supor que, neste mundo repetido e chato que nos calhou em sorte, nada mas mesmo nada se possa comparar à experiência de visitar um lugar como a China em 1957. Até sobre a Coreia do Norte, esse grande aborrecimento para onde se organizam excursões medonhas, já sabemos demasiado. Hoje, se ainda há viagens excepcionais, elas são sobretudo interiores. O espaço ainda não conta.
Mas regressemos então a 1957 e imaginemos uma mulher fotógrafa, cineasta, artista, feminista, uma mulher a crescer num mundo de homens e que, de repente, se acha como retratista de uma delegação francesa que passa dois meses numa China absolutamente fechada e misteriosa. Essa mulher é Agnès Varda, nascida na Bélgica e adoptada por França, precursora, com o seu filme La Pointe Courte (1954), da Nouvelle Vague, olho feminino entre os de tantos realizadores consagrados como Godard, Truffaut, Rohmer ou o seu muito amado Jacques Demy.
Agnès Varda morreu há dias, com 90 anos, deixando para trás um rasto impressionante de criatividade e humanismo. Luminosa até ao fim, não partiu sem completar alguns notáveis exercícios artísticos e de memória, como são As Praias de Agnès (2008), Faces, Places (2017) e Varda by Agnès (2019). Neles, faz jus àquilo que diz no seu último filme: “Há três palavras importantes para mim: inspiração, criação, partilha”.

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Agnès Varda na China, 1957 (DR)

Uma das grandes surpresas que Agnès Varda guardou para partilhar nos derradeiros anos da sua carreira foi a série de fotografias que fizera mais de meio século antes, na China. Em 2012, entre Março e Abril, as imagens captadas pela lente da fotógrafa estiveram em exposição no museu da Academia Central de Belas Artes de Pequim, sob o título “As Praias de Agnès Varda na China” e combinadas com uma série de instalações de sua autoria.
Nas fotografias, algumas disponíveis online, vêem-se acima de tudo rostos e sorrisos – de crianças, mulheres, homens, mais crianças. Agnès esteve na Manchúria, em Yunnan e em Sichuan, de onde desceu de barco o rio Yangtze, partindo de Chongqing rumo a Xangai. “Era fácil conhecer pessoas nas ruas. Os sorrisos eram a linguagem. Estavam provavelmente surpreendidas por verem uma mulher estrangeira muito jovem cheia de câmaras e lentes. Por vezes o tradutor dizia-lhes porque é que eu estava ali e, quando ele não estava comigo, ou estava com outro viajante, eu ia sozinha para algumas aldeias. As pessoas ofereciam-me água quente e as crianças sorriam, apontando para o meu nariz”, contou a cineasta em entrevista à Time Out Pequim em 2012.

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À época, Agnès aceitou também escrever sobre aquele distante ano de 1957 para a revista Leap, num texto que revela toda a sua abertura perante o outro – “tenho olhos curiosos” – e até uma certa ingenuidade que parece ter conservado até ao fim. O texto tem por título “Tão bonitos como pequenos gatos” e começa por lembrar que a então jovem República Popular da China (fundada em 1949), sob o mando de Mao Zedong, não era ainda sequer reconhecida pelas Nações Unidas.
“Eu estava determinada a fazer o melhor trabalho possível enquanto fotógrafa. Havia tanto para descobrir – tudo.” A visita e a comitiva eram eminentemente políticas mas mesmo assim foi perguntado a Agnès o que gostaria de fotografar. Em França ela trabalhava como fotógrafa do Teatro Nacional Popular e por isso respondeu que queria debruçar-se sobre circos de rua, espectáculos de marionetas, óperas tradicionais chinesas e outras artes de palco. Ao escrever sobre aqueles dois meses muitos anos depois, a artista confessa ter ficado “impressionada com tudo: o comportamento colectivo, toda a gente vestida de azul – tanto homens como mulheres – completamente desprovida de qualquer conceito de moda. Havia milhares de bicicletas e pequenas crianças tão bonitas como pequenos gatos.”
De surpresa em surpresa, Agnès foi fotografando a viagem à China, munida de uma Rolleiflex, uma Leica M3, inúmeras lentes e rolos fotográficos. Nunca pensou em filmar durante aqueles dias e explica-o: “Dependendo do que me apetece fazer, escolho ser fotógrafa, cineasta ou artista plástica. É como usar três chapéus, trabalhar com três conjuntos de ferramentas ou cultivar três jardins”. Mais de meio século volvido, estas fotografias eram ainda desconhecidas em França. “Dois fotógrafos famosos – [Henri] Cartier-Bresson and [Marc] Riboud – também estiveram na China ao mesmo tempo que eu. Eles fizeram livros e tiveram fotos em capas de revistas. Eu não era conhecida nessa altura, portanto não tive. Estou muito entusiasmada por ter o público chinês a descobrir em 2012 as minhas imagens da China como ela era em 1957”, escreveu Agnès.
O texto acaba – como aliás a sua vida – com uma mensagem de esperança: “Neste nosso mundo caótico cheio de desastres, ódio e sofrimento, ajuda-me acreditar que os intercâmbios culturais são bons para todos. A arte é um vento que precisamos sentir soprar.” Uma mensagem que, não por acaso, está alinhada com o que Agnès diria anos depois, numa entrevista à Vice a propósito do belo documentário Faces, Places, que co-realizou com o artista plástico JR e no qual percorrem França numa carrinha, interagindo com as pessoas que vão encontrando. “Concordamos com o que fizemos. Mesmo que o que esteja a acontecer no mundo seja realmente uma porcaria, nós não queremos fazer parte daqueles que comentam as dificuldades e o caos do mundo – que está lá, sabemo-lo. Tentamos tomar um outro caminho, onde as pessoas se encontram e podem entender-se. É uma espécie de busca pela paz, porque uma ligação é um pedaço de paz.” Nessa mesma entrevista, há um momento comovente em que Agnès Varda comenta o Oscar honorário que lhe foi atribuído em 2017, chamando-lhe “Oscar dos pobres”. Incomodada sobre o que acabara de declarar, vira-se para JR e pergunta-lhe “Eu não devia ter dito isto, pois não?”. A resposta de JR é um resumo perfeito da vida desta mulher: “Tens sido livre desde o dia em que nasceste. Porque é que isso haveria de mudar hoje?”

*jornalista, editor e fundador da agência literária Capítulo Oriental

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