“Não havia lugar para a poesia vermelha”

chen dong dong

Chen Dongdong (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

“A minha educação poética era sobretudo aquilo a que chamávamos de poesia vermelha durante a Revolução Cultural”, recordou o poeta Chen Dongdong em Macau, onde participou no festival literário Rota das Letras. Durante a sessão “A poesia no quotidiano: o poeta e a existência”, que decorreu no fim-de-semana, Chen revelou que foi a falta de acesso à “verdadeira poesia” que o levou à escrita.

Catarina Domingues

Quando Chen Dongdong começou a escrever poesia no início dos anos 1980, viu-se obrigado a questionar tudo o que tinha aprendido até aí. “A minha educação poética era sobretudo aquilo a que chamávamos de poesia vermelha durante a Revolução Cultural”, lembrou o autor durante o 8.º Festival Literário de Macau – Rota das Letras, que se realizou este ano entre 15 e 24 de Março.
Licenciado em Língua e Literatura Chinesas pela Universidade Normal de Xangai, Chen estreou-se na poesia enquanto estudante do ensino superior. A Revolução Cultural (1966-1976), violenta campanha política lançada por Mao Zedong para neutralizar a oposição, tinha terminado há poucos anos. “Nessa altura, a poesia e a literatura, em geral, era algo remanescente da Revolução Cultural, incluindo o estilo de escrita pós-1949 [quando Mao sobe ao poder]. Não tínhamos acesso a muita poesia traduzida ou a poesia de Hong Kong, Macau ou Taiwan, mas só a propaganda. É o que chamamos de poesia vermelha e era repugnante, para ser sincero”, contou Chen Dongdong durante a sessão “A poesia no quotidiano: o poeta e a existência”, que decorreu no fim-de-semana nas Oficinas Navais.
“Na minha ideia de poesia, não havia lugar para a poesia vermelha, e quando entrei na universidade, comecei a ler a verdadeira poesia, embora não muita”, recordou.
Oriundo de Xangai, onde nasceu em 1961, Chen Dongdong disse ainda que da cidade natal herdou a vontade de escrever (e de resistir). Sem acesso a livros, e “sem poder ler os poemas que queria ler”, começou a escrevê-los.
“Durante a Revolução Cultural, as nossas vidas estavam muito condicionadas, havia pobreza, não havia comida suficiente, tudo era racionado, havia senhas para comprar tecidos, senhas para a comida. As pessoas em Xangai não tinham forma de comprar roupa e então faziam-na a partir de fotografias antigas, tentando recriar as tendências. Nesse sentido, a minha criação poética está em linha com Xangai, herdei isso do meu sangue xangainês, foi por isso que comecei a escrever”, acrescentou Chen, editor de várias revistas literárias e autor de obras poéticas, como “Summer Book – Unblocked book”, “Flowing Water”, “Black Mirror”, entre outros.
Numa sessão que juntou ainda um outro poeta do Interior da China, Lu Weiping, o EXTRAMUROS perguntou aos dois autores que importância teve a poesia durante o movimento estudantil pró-democracia de 1989, e que lugar tem hoje, trinta anos após esses protestos que culminaram com o massacre de Tiananmen.
Sem responder directamente à pergunta, Chen falou na relação entre a escrita e a vida real. “O que escrevemos também está relacionado com a nossa vida e vamos buscar material e inspiração à realidade. A escrita tem o seu próprio ritmo e passa por diversos estágios e mudanças, especialmente durante os anos 1980 e 1990. Na poesia chinesa houve grandes mudanças”, afirmou.
A sessão continuou com a leitura de um poema, sem que Lu Weiping tivesse oportunidade de responder à questão colocada pelo EXTRAMUROS.

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Lu Weiping, Yam Gon e Chen Dongdong (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

Poesia: “ter a capacidade de ver e não de descobrir”

Lu Weiping, oriundo da província de Hubei, é autor da colectânea “A Mouse of Other Place”, “A Branch Growing Downwards” e tem poesia traduzida em várias línguas, incluindo português, inglês, sueco e russo. Um dos grandes desafios na escrita poética, defendeu o autor durante a sessão, está na “utilização da linguagem oral para retratar coisas que se vêem” e “não na ambiguidade da retórica”.
“A poesia nasce dos objectos do dia-a-dia”, acrescentou Lu ao falar sobre o seu percurso como poeta.
“Dizemos que é na China que a lua tem a forma mais perfeita, principalmente aquela que foi retratada em inúmeros poemas escritos durante as dinastias Song e Tang. Como chinês, eu olho a lua e sinto-me deprimido, porque já não consigo ver uma nova lua. Essa lua já foi vista por Li Bai e outros poetas. Olho para a lua e estou a repetir as experiências e memórias que tiveram. Encontrar poesia nos objectos do nosso dia-a-dia pode ser muito difícil”, disse ainda o também editor da publicação Chinese and Western Poetry Journal, referindo que no acto da escrita poética, o importante é “ter a capacidade de ‘ver’ e não de ‘​descobrir'” – ideia também defendida pelo moderador da sessão, o poeta e subdirector do festival literário, Yao Jingming. “Isto faz-me lembrar os descobrimentos portugueses, em que se fala em ‘descobrir’. Mas está errado, porque já tudo lá estava. À semelhança do novo continente, a América é tão antiga quando o velho continente. É importante reter isto, não é uma descoberta, mas um encontro”, concluiu.

Poema de Chen Dongdong

谢灵运

永嘉山水里一册谢康乐
尽篇章难吐胸臆之艰涩

他鬱闷便秘般晦黯的抒情
贯彻了太守唯一的政策

他用那欲界仙都微妙的词色
将削他头颅的刽子手抵斥

他比他假装的还要深刻
还要幽僻渺远地跋涉

好赢得还要隆重的
转折

夕阳为孤屿勾勒金边
凸显於暮色天地间浑噩

Xie Lingyun
(tradução do Festival Literário de Macau)

In the Yangxia mountain and river verse collected the works of Xie Kangle
A pentasyllabic writing that allures to the most indigestible feelings

His lyrical expressions are as depressing as constipation
To complement the sole policy imposed by the exiled governor

He used majestic words to describe sweeping forests and flowering meadows
And to reprimand the headsman who was to cut off his head

More profound than the claims he had laid
He even made long journeys to secluded treks

With an earnest desire for exertion and to strive in poetic
Transitions

The setting sun gilded the solemn island
A twilight woven of soft lights

(2011)


Poema de Lu Weiping:

石頭和水

那年我七歲,在池塘里打水漂
石頭為了自己走得更遠
不停地劃傷水,石頭嚯嚯的聲響裡

有水的疼痛。石頭沉沒了
水面上只留下一圈圈嘆息
我性格中的柔軟從這嘆息裡開始

上學路上,要經過一條小河
枯水季節,河裡的石頭比水多
我光著腳,走在這些石頭上

光滑,圓潤,沒有劃傷的危險
從山上流下來的水在暗中費了多少心血
才把石頭教育得這麼溫順

我一直懷疑我的世故跟這些石頭有關
上地理課後,這條叫倒水河的小河
流到了長江。我也跟著它到了省城

在長江邊上,我一次次試著將一塊塊石頭
從北岸投擲到南岸。我扔出的石頭在中途落水
我人生的許多失敗都是這些石頭落水濺起的迴聲

此刻,我放下魚竿,坐在海邊
看見大海開出的花朵在瞬間凋謝
看見即將分離的人說著海枯石爛

我微微一笑,像夕陽消逝前在海面閃爍
再過一會兒,大海就會退潮
我會在海灘上拾撿到大海給我的貝殼

但我起身走了,多少年過去了
我已不再糾纏於水落石出
時間堆積的淤泥下無數失去棱角的石頭無疾而終

Stone and Water
(tradução do Festival Literário de Macau)

I was seven years old that year, playing in the pond.
The stone went further for itself,
Scratching the water, in the sound of the stone.

There remained pain in the water. The stone sank,
And only a circle of sighs left on the water.
The softness in my character began with this sigh.

On my way to school, I had to go through a small river.
In the dry season, the stones in the river were more than water
I walked barefoot on these stones

Smooth, round, no risk of scratching
How much effort did the water flowing down the mountain cost behind?
Only to educate the stone so docilely,

I was always suspicious of these stones related to my world
After the geography class, this river that was called the inversed river
Flowed to the Yangtze River. I followed it to the provincial capital.

By the Yangtze River, I tried to throw stones one by one,
To the south from its north. The stones I threw out fell into the water on their way.
Many of the failures in my life were the echoes of these stones falling into the water.

At the moment, I put down the fishing rod and sit on the beach,
Seeing the flowers from the sea fade in an Instant,
Seeing the people who will separate say that friendship would be everlasting.

I smile faintly, like the sunset flashing over the sea before disappearing.
A little while, the sea will fall.
I will pick up the sea shells on the beach.

But I will leave, in many years,
I will no longer be entangled in the truth to be revealed.
Countless stones have lost their corner angles
under the time-heaped mud naturally disappear

 

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