Ainda sobre as palavras de origem árabe no chinês

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Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Após uma reflexão em que nos debruçámos sobre os aspectos históricos da influência islâmica na China, gostaria de me focar agora em alguns exemplos vocabulares que reflectem a influência da língua árabe na língua chinesa.
Em chinês, as palavras provenientes do árabe são raras – mas existem. Palavras como “química” ou “café”, por exemplo, entraram no chinês no século XIX, aquando do final do domínio manchu, por meio das línguas ocidentais. A palavra “química” traduz-se, como todos os outros nomes de disciplinas, recorrendo a caracteres do chinês clássico (forma que abordámos no último artigo): “estudos de transformação” ou “de mudança”: 化學(学) (hua xue em mandarim, fa hok em cantonense, fa hok em hac-ka, embora com tons diferentes, hua hâk em fuquinense, hu ie em xangainês). “Café’’ é, por sua vez, traduzido de forma puramente fonética, independente do significado dos caracteres utilizados : 咖啡 (ka fei em mandarim, ka fe em cantonese, ka pi em hac-ka, ko pi em fuquinense e xangainês, embora com tons diferentes).

Uma nota: Em vietnamita, a palavra cà phê deriva também do chinês ou, de uma perspectiva europeia, da escrita clássica chinesa, uma vez que, ao contrário de outros estrangeirismos mais recentes, encontram-se caracteres no seu antigo sistema de escrita. Ou seja, esta não foi uma palavra directamente emprestada do francês, como confirmou uma autora alemã que li.
Já no caso do japonês, em que se recorre aos caracteres kanji em ocasiões especiais, verifica-se que na palavra café (珈琲), o radical utilizado é “jade” (玉) no lugar de “boca” (口). À semelhança do que acontece com o cantonense, este radical serve muitas vezes só para atribuír um som a palavras estrangeiras (nas ruas macaenses vêem-se mil exemplos destes). É o 珈琲 (em vez de 咖啡) na língua nipónica. Diria que é uma palavra que é mais para ser vista (visual) do que pronunciada (sonora), mas se for absolutamente necessário fazer a sua leitura: “kōhī”, uma beleza que também corresponde à realidade europeia – o café é uma jóia que precisamos aqui todos os dias.

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Tuyoq, Região Autónoma Uigur de Xinjiang, Noroeste da China, onde vive uma grande parte da população muçulmana do país / FOTO: Catarina Domingues

Dois outros exemplos de uma conversão para chinês puramente fonética são “檸(柠)檬” (limão, ning meng em mandarim, neng mong em cantonense, lê-bóng em fuquinense, nhing mâng em xangainês) e a tradução cantonense de gasosa/soda “梳打” (so da) do inglês soda. Nos dois caracteres chineses de “limão” encontra-se o radical de madeira (木). No dicionário encomendado pelo imperador manchu Elhe Taifin (bastante mais conhecido por Kangxi, o nome do seu reinado em mandarim), há um encontro destes dois caracteres sem que, no entanto, denominem limão, o que indica que este seu novo emprego é, no mínimo, posterior ao século XVIII. Se existe uma relação entre as duas etimologias da palavra limão em português e chinês, isso ainda está por discutir. A palavra chinesa usada para nomear limão encontra-se igualmente em japonês e coreano arcaicos. Em vietnamita, o limão é designado por chanh tây (橙西 na sua grafia antiga, a laranja ocidental) ou chanh vàng (橙黃, laranja amarela). Por sua vez, é muito possível que a palavra gasosa tenha entrado na língua chinesa pela mão do cantonense, tomada do próprio inglês. No sul da China, a soda (bicarbonato de sódio) era, inclusive, um meio de limpeza muito popular, antes de toda a gama de outros produtos tomarem o seu lugar. Macau chegou até a ser apelidada de “Cidade da Soda” (梳打埠) pelos viajantes de Hong Kong que visitavam a cidade para jogar em casinos, perdendo grandes somas de dinheiro (a palavra sai para lavar em cantonense é homónima do verbo sai, que, por sua vez, significa “gastar”).

Em chinês também se encontram palavras estrangeiras resultantes de combinações de uma adaptação fonética e uma tradução baseada no significado dos caracteres: atum, em chinês “吞拿魚” (tun na yu em mandarim, tan na yü em cantonense, tãn na enh em xangainês). “Peixe tuna” é uma palavra que vem do inglês e que é adicionada à palavra “鮪” (wei em mandarim, fui em cantonense) no vocabulário do chinês, enquanto “鮪” (pronunciado maguro em japonês) possui muito menos uso, remetendo-se maioritariamente para os menus dos restaurantes japoneses. No antigo cantonense de Macau, podia-se até mesmo ouvir “亞冬魚” (a-tong iü, peixe atum) directamente emprestado do português. Outro exemplo, muito mais antigo, será “mirra”, em chinês “沒藥” (mo-yao em mandarim, mut ieok em cantonense, ma ie em xangainês). O primeiro carácter desta tradução, “沒” (que se pronuncia “mo” ou “mei”), significa “desaparecer”, “morrer”, “submergir”, “confiscado” em chinês antigo, e é utilizado como uma forma de negação em mandarim moderno, não sendo aqui claramente convocado pelo seu significado, mas antes pela sua fonética. O segundo carácter significa “remédio”. Esta palavra está inscrita numa das vinte e quatro histórias oficiais da China clássica: a história da Era do Norte, que abrange o período entre o século IV e o século VII. Entre as traduções dessas palavras estão, portanto, interpretações destes caracteres, tanto derivadas dos seus sons como derivadas dos seus significados.

Como exemplo de palavras cuja tradução é baseada unicamente no significado dos caracteres utilizados, encontramos as seguintes três palavras: “乳香” (olíbano), “清真” (Islão) e “真主” (Allah). O olíbano era uma resina muito procurada na China, durante a dinastia Song (entre os séculos X e XIII), e ainda hoje é usada na medicina chinesa. Actualmente, o nome mais conhecido em chinês para essa resina aromática agrupa os caracteres 乳 (leite, ru em mandarim, yü em cantonense, i em hac-ka, ju em fuquinense, lu em xangainês) e 香 (incenso, xiang em mandarim, heong em cantonense, hiông em hac-ka, hiún em fuquinense, siang em xangainês). Também “Islão” e “Allah” são aqui palavras incontornáveis, não podendo este artigo ser considerado completo sem lhes fazer menção.
“清真” (Islão, qing zhen em mandarim, cheng chan em cantonense, tchin djin em hac-ka, tchiêng djin em fuquinense, tching djân em xangainês) provém do chinês clássico, e significa literalmente “puro” e “verdadeiro”. Estudiosos da China clássica utilizavam estes dois caracteres para se auto-identificarem. Eles foram, do mesmo modo, empregues ​​por budistas e taoistas para falar sobre sua religião. Quando os han recuperaram a China das mãos dos mongóis no século XIV, os muçulmanos perderam o seu estatuto privilegiado sobre os han ao mesmo tempo que o seu direito ao islamismo lhes foi assegurado pela nova dinastia. Foi a partir deste momento que as mesquitas receberam o nome de “清真寺”, literalmente “Templos de Pureza e Verdade”. A corte imperial também deu oficialmente o nome de “Pureza-Verdade” à religião muçulmana.
A tradução de “Allah”, “真主” (zhen zhu, mandarim, chan chu em cantonense, djin dju em hac-ka e fuquinense, embora com diferentes tons, djân dji em xangainês), assemelha-se à tradução chinesa de “Deus”, na medida em que faz referência ao imperador, então visto como ser divino. Esta tradução “真主” significa literalmente o “Verdadeiro Mestre”. Esta era ainda a forma usada para fazer referência ao imperador nos grandes romances clássicos chineses escritos durante a Dinastia Ming, quando se atribuiu o nome “Pureza-Verdade” à religião. Não sei dizer, no entanto, a partir de quando se começou a utilizar a tradução “Verdadeiro Mestre” para designar Allah, mas hoje entendemos imediatamente que é a este que se refere.

Que num mundo tão diverso em termos linguísticos, na China, haja tantas conexões ao olhar para a etimologia das palavras é algo que não deixa de me fascinar. Um grande erudito chinês escreveu que, no mundo, existem quatro civilizações que nunca deixam de existir e que continuam a desenvolver-se: o mundo confucionista, o mundo islâmico, o mundo ocidental e a Índia. Entre as línguas dessas civilizações e, apesar das poucas palavras que podemos encontrar, e que já citei acima, a língua árabe é, no entanto, uma das que menos influência exerceu sobre o chinês.

(traduzido do francês por Rita Guimarães)

Gostaria de agradecer à nossa amiga berlinense oriunda de Xangai, a artista e tradutora Ziyi Huang (Wang Dji Ié) pelas notas em xangainês e também às nossas amigas taiwanesas Chen Yi Zhu (Tân Yi Tek) e Shinyi Lin pelas notas em fuquinense.

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

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