Jidi Majia: ambição universalista de uma poesia ligada às raízes

A obra poética de Jidi Majia, um dos convidados do Festival Literário de Macau, procura conjugar tradição e identidade cultural – o poeta pertence à minoria étnica chinesa Yi – com uma ambição universalista. 

Catarina Domingues

Os Yi são animistas, acreditam que a alma habita “todo o ser”, vive nos mares, nos rios, pedras e montanhas. “Acreditamos que vive e está em todo o lado”, explica Jidi Majia. O autor, nome grande da poesia chinesa, nasceu no Sul de Sichuan, em Liangshan Yi, região habitada pelos Yi, uma das 56 minorias étnicas do país.
É precisamente dessa perspectiva que o poeta gosta de olhar o mundo. “Viajo entre o chinês e a minha língua nativa [nuosu], para mim faz todo o sentido as nossas ideias e olhares sobre o universo, a natureza, a condição humana, as estrelas”, refere Majia ao falar sobre a sua poesia no 8.º Festival Literário de Macau – Rota das Letras.
Mas se por um lado o trabalho poético de Majia “está muito ligado às suas raízes e identidade cultural”, tem também uma “ambição universalista”, defende José Luís Peixoto, tradutor de “Palavras de Fogo”, primeira obra do autor chinês publicada em Portugal. “Ao longo do livro, são referidos muitíssimos poetas de diversos pontos do mundo, existem poemas que se referem concretamente a África, América Latina, Europa e, por isso, existe essa dimensão local e universal que é, a meu ver, um dos eixos principais dessa poesia”, nota o escritor português.
Para Jidi Majia, esta dupla dimensão da poesia é um “desafio que todos os poetas têm de enfrentar”. “Não existe apenas a expressão pessoal. Se não tivermos esse elemento pessoal, não é fácil chegar ao centro da essência do universo e do mundo”, considera.
De acordo com o escritor José Luís Peixoto, a tradução de “Palavras de Fogo” foi feita a partir das versões inglesa, francesa, castelhana e galega. “Eu sinto que traduzir é como carregar uma taça cheia de água, desde um lugar ao outro. Ora, levar uma taça cheia de água desde a China até Portugal é muito difícil, é um trabalho muito delicado, seguramente que se vai entornar muita dessa água pelo caminho. Mas felizmente também vai chovendo alguma coisa, e então vai caindo nova água nessa taça. Por isso, eu sinto que esta versão em português dos poemas de Jidi Majia será necessariamente diferente da original”, refere.
Jidi Majia, com obra traduzida em mais de 30 línguas, já venceu vários prémios nacionais e internacionais, com destaque para o prestigiado Prémio Nacional da Poesia da China, em 1988. Fundador do Festival Internacional de Poesia do Lago de Qinghai e da Semana Internacional de Poesia de Chengdu, o poeta é, de acordo com uma pequena biografia disponível na versão portuguesa de “Palavras de Fogo”, vice-governador da província chinesa de Qinghai.

Jidi Majia

Jidi Majia em Macau (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

Protecção da identidade cultural das minorias étnicas 

Questionado pelo Extramuros sobre o trabalho do governo chinês na protecção da identidade cultural das minorias étnicas do país, o poeta responde que Pequim tem “promovido o seu desenvolvimento”: “Eu acredito que as políticas do governo chinês em relação às minorias têm as suas características e têm tido sucesso”, completou, realçando que na cidade onde nasceu, “a educação é bilingue” e “o património cultural” é respeitado.
Relatórios de organizações internacionais e várias notícias avançadas por meios de comunicação social nos últimos anos relatam, porém, um cenário diferente relativamente a determinadas minorias étnicas e regiões do país. Um relatório das Nações Unidas confirmou em 2018 a existência de campos de reeducação em Xinjiang, região no Nordeste chinês, onde habita grande parte da população uigur, minoria étnica muçulmana. Detenções forçadas – “entre dezenas de milhares e um milhão” – e a imposição de tradições em detrimento da cultura uigur são algumas das violações apontadas pelo documento.

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