Reflexão sobre a influência cultural árabe e persa na China

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Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Quando tento aprender novas línguas, apercebo-me de duas coisas. Ao fazê-lo na companhia de nativos, estes ficam frequentemente muito orgulhosos do seu idioma. Tão orgulhosos que isso às vezes acaba por me incomodar. Mas a verdade é que também dou conta que é justamente esse orgulho que forma a base da sua motivação para me ensinar a língua que falam com tanto entusiasmo. Em segundo lugar, quando aprendo as novas palavras e a sua etimologia, dou-me conta – e isso deixa-me satisfeito – de que o mundo está tão conectado. Mesmo assim, mantenho-me sempre consciente de que as línguas são o resultado de permanentes contactos, que implicam imposições, e os seus pontos comuns estão muitas vezes vinculados à violência ou colonização.

Deu-me muito prazer ler um capítulo de “How English Became English” de Henry Hitchings, na tradução taiwanesa de Oscar Lin. Este capítulo versa sobre as palavras que estão vinculadas a culturas relacionadas com o Islão e que entraram no vocabulário do inglês. Li por pura diversão, sem pensar em questões relacionadas com a sua tradução e, ao fazê-lo, recordei-me do meu antigo professor de árabe Otmane Lihiya, em Berlim. Um homem de postura séria e que ficou muito contente quando lhe falei da herança linguística do árabe no português.

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Mesquita Huaisheng em Guangzhou/ Felice Beato, 1860

Foram estes factos que me levaram também a reflectir sobre o lado islâmico da China que tinha ignorado completamente até ao momento que comecei a escrever este artigo.
As palavras em chinês são compostas por caracteres que têm em si um ou mais significados. No que diz respeito a palavras de idiomas estrangeiros, a língua chinesa tende a fazer a sua tradução escolhendo caracteres em função do seu significado, embora exista igualmente um segundo método de tradução puramente fonético – e neste caso, não se descuida o significado dos caracteres escolhidos para o seu som. Ou até existe um terceiro método que é a mistura dos dois primeiros. Esta tendência faz com que as pesquisas etimológicas de palavras chinesas sejam muito menos óbvias que as de palavras em línguas europeias.

Quando pensamos que a primeira mesquita na China data pelo menos do século VII, que uma parte considerável da população chinesa é muçulmana (23 milhões em 2010) ou que o seu território conta com duas regiões autónomas uigure e hui, a ideia de que o árabe ou o persa tenham tido uma influência sobre o chinês, ou pelo menos sobre as variantes faladas por estas gentes, não é assim tão surpreendente. O facto da minoria hui ser um grupo étnico – como definido pelo estado chinês – ou denominado de “chineses muçulmanos”, fica ainda por discutir. O seu estatuto não cessou de variar ao longo das dinastias, até à proclamação da República Popular, quando os hui passaram a ser designados como uma das cinquenta e cinco minorias oficiais deste país gigantesco.

Seja como for, os hui falam chinês ou, para ser mais preciso, mandarim com nuances de um vocabulário árabe e persa. Ao ler o texto original do romance “Le roi du Jade” (tradução francesa) ou “The Jade King” (tradução inglesa), publicado em 1988 pela escritora e antigo membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Hua Da (nome que soa religioso ou pelo menos parece um nome persa), de origem hui, cuja história relata o percurso de uma família muçulmana chinesa, reparo muito claramente no esforço da autora para utilizar palavras “exóticas”. Todas estas palavras “exóticas” que os hui do romance incorporam no seu pequinês estão ligadas à religião islâmica. Apercebo-me que entre estas palavras predominam precisamente aquelas com origem nas línguas árabe ou persa. No caso do árabe, as palavras fazem estritamente referência à religião, mas no caso do persa esta referência é menos directa.

Parece-me que na China se desenvolve voluntariamente uma certa exotização com vista ao turismo doméstico. Isso é evidente quando vamos, por exemplo, a um restaurante turístico de uma minoria oficial nas regiões da cultura dos han, por exemplo, em Pequim ou perto de Macau em Zhuhai. Ou então quando nos deslocamos às unidades administrativas destas minorias étnicas e as placas dos nomes das ruas ou das lojas são bilingues, ou seja, estão escritas em chinês e nos idiomas locais, ou até trilingues, acrescentando o nome em inglês e conferindo ao local um certo exotismo que é tanto excitante quanto intrigante.

Há três anos, o website da BBC em chinês publicou uma história bastante curiosa, que relatava a intenção da administração da Região Autónoma Hui de Ningxia de promover um ambiente linguístico árabe, onde se utilizasse ainda mais a língua nas placas públicas ou onde o idioma fosse, por exemplo, ensinado nalguns jardins-de-infância. Alguns internautas chineses criticaram o facto do artigo abordar o assunto de uma forma polémica. De referir um comentário anónimo, crítico à “parcialidade” da reportagem e que acabaria por ser posteriormente incluído na história. Também de referir que o artigo foi publicado já no Verão passado, quando a muito discutível política adoptada pela República Popular para lidar com os crentes desta religião ainda não era tão visível como hoje se pode ver nas redes sociais aqui na Europa.

A identidade dos hui tem sido objecto de uma interessante discussão. Os hui falam mandarim e aprendem árabe sobretudo para poder ler o Corão, ou seja com um fim religioso. O evento mencionado acima fez-me pensar em Macau, que é oficialmente uma região bilingue (com duas línguas oficiais). Mesmo estando Macau numa situação bastante diferente, faz parte de uma mesma República Popular que, inspirada pelo modelo da antiga União Soviética, estabeleceu várias unidades administrativas autónomas para as suas minorias étnicas.

Para concluir, não ousaria avançar que Macau esteja incluído nesta mesma lógica da exotização doméstica, mas muitos turistas chineses mantêm-se, de qualquer maneira, atraídos pela herança colonial portuguesa do território.

(traduzido do francês por Nélson Pereira Pinto e Cheong Kin Man)

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

 

 

 

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