Os novos “chineses”

vítor quintã    Vítor Quintã*

“Não”. Com uma palavra apenas a minha esposa deixou bem clara a opinião dela sobre uma controversa afirmação minha: em breve a China terá de abrir as portas à imigração. Isto porque a população vai começar a encolher de forma “imparável” a partir de 2029, após atingir um pico de 1,44 mil milhões, confirma um relatório divulgado no início de Janeiro. Nele a Academia Chinesa de Ciências Sociais avisa que vai haver “consequências sociais e económicas muito negativas” e recomenda ao Governo que elabore políticas para reverter a tendência.
O relatório, no entanto, não sugere qualquer medida concreta para enfrentar este desafio. Os países desenvolvidos que atravessaram semelhantes transições populacionais depararam-se com duas alternativas: encorajar a imigração ou oferecer incentivos à natalidade. Portugal, por exemplo, implementou recentemente uma política que combina estas duas abordagens para lidar com o envelhecimento da população.

Zhongdian, one child poster

A política do filho único foi implementada na China em 1979 / © Arian Zwegers

O Partido Comunista tem de forma discreta encorajado os casais chineses a terem mais rebentos, desde o fim da política do filho único ao tempo de antena que os meios de comunicação estatais têm recentemente dado a artigos a elogiar as famílias numerosas. Os cibernautas chineses encontraram mesmo provas desta “conspiração” no selo emitido pelos correios para comemorar o Ano do Porco, segundo o zodíaco chinês, cujo design inclui um casal de porcos com três leitões.
Os esforços das autoridades têm sido alvo de desdém e, tal como em outros países, estão condenados ao fracasso. A política do filho único gerou uma mudança radical no pensamento dos chineses, que passaram a encarar a paternidade como um investimento de recursos financeiros e não só, que não vale a pena dividir por mais do que um descendente. O crescimento de uma classe média que dá prioridade ao consumo e o fraco apoio dado aos pais, em coisas como a licença de paternidade ou o acesso a jardins-de-infância, também não ajuda.
Os poucos países que conseguiram reverter o envelhecimento populacional, como por exemplo na Escandinávia, apostaram em medidas generosas no âmbito do Estado social. Mas a China, cujo crescimento económico tem em parte sido fomentado através de uma baixa carga fiscal, não tem margem nos cofres públicos para fazer o mesmo. Ironicamente, o país do “socialismo com características chinesas” não tem dinheiro para implementar o socialismo.

A linha de sangue

Resta a imigração, uma alternativa encarada de forma tão relutante pela população han – a etnia maioritária – como pelo próprio Governo. Por um lado, as autoridades têm vindo a relaxar as regras para a contratação de pessoal estrangeiro qualificado. Por outro lado, continua a ser muito difícil para qualquer estrangeiro tornar-se residente permanente na China. Um obstáculo, por exemplo, para a comunidade africana há muito residente na cidade de Guangzhou, alguns dos quais casados com chinesas e com filhos chineses.
Ainda assim, inevitavelmente haverá um aumento do número de estrangeiros a viver na China, e consequentemente mais filhos de casais em que um dos pais é chinês e o outro estrangeiro e ainda mais pessoas nascidas na China mas sem nacionalidade chinesa. Ao contrário do que acontece na maioria dos países ocidentais, incluindo em Portugal, onde a nacionalidade pode ser adquirida devido ao local de nascimento, por casamento ou por residência prolongada, Pequim apenas reconhece como cidadãos os filhos de chineses.
É verdade que a China tem dezenas de minorias étnicas, mas normalmente são tratadas ou como algo exótico para colorir os telejornais da televisão estatal e as monótonas reuniões dos órgãos políticos, ou como grupos perigosos cuja singularidade é essencial controlar, como no caso dos tibetanos e dos uigures. A identidade chinesa está extraordinariamente enraizada num ideal de linhagem e genealogia da etnia Han, a exemplo da homogeneidade dominante no Japão. Algo que permite, por exemplo, que ninguém tenha dúvidas em reconhecer como chinês alguém que tenha sido adoptado por um casal estrangeiro, tenha vivido toda a vida fora da China e nem sequer fale qualquer dialecto chinês.

Branco mais branco

Como é que uma tal sociedade vai reagir quando houver um número significativo de estrangeiros – tais como Pearl Buck, Prémio Nobel da Literatura em 1938 – nascidos ou criados na China e que tenham o mandarim como língua materna? Ou então quando houver mais filhos de casais mistos com relevância na arena mediática?
Por enquanto a reacção a estes novos “chineses” tem sido contraditória. No mundo do desporto, o Beijing Guoan não teve qualquer pejo em contratar e naturalizar o futebolista Nico Yennaris (filho de uma chinesa e de um cipriota, nascido em Inglaterra) e em 2009 a selecção chinesa de voleibol convocou Ding Hui (filho de uma chinesa e de um sul-africano, nascido e criado em Hangzhou). Mas as diferenças entre estes dois casos reflectem um outro obstáculo para a integração: a discriminação com base na cor da pele.
Enquanto Yennaris e outros filhos de chineses com ocidentais, de pele clara, são vistos de forma globalmente positiva, o cenário é bem mais negro para os descendentes de africanos. A convocatória de Ding Hui, por exemplo, foi na altura questionada, com os média e os cibernautas a colocar dúvidas sobre se o jovem era mesmo um cidadão chinês.
Pior sorte teve Lou Jing, filha de uma chinesa e de um afro-americano, que também em 2009 enfrentou comentários racistas após participar num programa televisivo de talentos. “Sou uma chinesa, nascida e criada em Xangai”, disse a jovem numa entrevista em resposta à controvérsia. Uma obrigatória declaração de pureza identitária que mostra que, face aos novos “chineses”, a desconfiança é ainda o ponto de partida.

*jornalista

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