Dragão do Mar em Rio Vermelho

fernanda ramone

 

 

 

 

 

 

 

Fernanda Ramone*

Foi Rio Vermelho, bairro conhecido pelo clima cultural e pelos acarajés (bolinhos fritos com recheio de feijão fradinho) em Salvador, Bahia, o lugar eleito para a entrevista com Sun Sun. Figura solar no auge dos seus setenta anos, natural de Guangzhou, dotado de um sorriso maroto, expressão faceira, o senhor Sun chega em dupla, acompanhado da filha baiana Yin Yee Carneiro, 41 anos. Juntos atuam e são conhecidos como os pioneiros da fotografia social por aqui (www.sunsun.com.br).
Rio Vermelho foi o território de naufrágio de Caramuru – alcunha dada ao jesuíta português Diogo Álvares no século XVI. Uma das traduções possíveis atreladas ao significado de Caramuru é “Dragão do mar”, e seu mérito está no fato de exercer o elo de comunicação à época entre os nativos tupinambás com os europeus. Sun Sun é Caramuru na versão sino-brasileira dos tempos modernos.

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©Studio Sun Sun

São 51 anos de Brasil, número associado ao slogan de ser uma boa ideia. Sun Sun narra uma trajetória não deixando dúvidas sobre sua escolha acertada de seguir com a garra almejada, o destino ao qual há tempos idealizava, o Brasil.
A intuição o trouxe à Bahia com a mesma naturalidade que minimiza os desafios enfrentados no início, quando a sua vinda estava ainda longe de se materializar na constituição de um núcleo familiar multicultural. Sun Sun tem três filhos e 5 netos brasileiros. Conta que é autodidata, aprendeu o português traduzindo a partir do inglês do dicionário. A fluência do inglês vem da época em que estudava em Hong Kong. A fala o conduziu ao lugar dos olhares e dos cliques. Certa vez, durante um evento com convidados internacionais foi Caramuru, ganhou destaque e a atenção de autoridades locais, consagrou-se como fotógrafo, essa espécie de tradutor. Serviu de intérprete para delegações chinesas, é diretor de comunicação da Câmara de Comércio Brasil-China, em Salvador.
Utilizou com maestria o clichê da imagem a valer mais que mil palavras. Registrou as transformações de gerações baianas no ritual de compromisso do amor, especializou-se em captar e fazer registros de matrimônios. Em alusão à sua própria trajetória que o conduziu a casar -se com a senhora Lucimar, uma cearense, loira, olhos verdes, que preconizava desde criança o desejo de se casar com um homem de olho puxado.
Casaram-se, unem culturas, multiplicam afetos, simbolizam o amor. Conheceram-se num restaurante, Sun Sun era o proprietário, à primeira vista concatenou para que o noivado na China fosse interrompido, terminado. Causou alvoroço com a decisão, abriu mão de propriedades, herança, a pensão e estabilidade do pai médico do exército chinês.
Permaneceu no Brasil e há 15 que não retorna à China. Existe saudades, me conta, mas entretanto a satisfação e sua brasilidade são maiores. Sun Sun une rios, do amarelo até estabelecer-se no vermelho. Em seu cartão de visitas elucida sua especialidade em “Não fazer somente imagem, como também lembranças, emoções…”
Há ternuras, como o sotaque carinhoso ao dizer “painho” (no Nordeste em geral esta é a alcunha para pai, mãe por sua vez se denomina mainha), com que Yin Yee se refere ao pai. Há também a sinceridade das vontades em tornar possível com tamanha naturalidade a multiculturalidade deste Caramuru, Dragão do mar.

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*curadora, produtora e jornalista cultural a viver no Rio de Janeiro

 

 

 

 

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