A longa espera de quem quer filmar (e salvar) animais em vias de extinção

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O pavão verde, o faisão-esplêndido ou o macaco de nariz arrebitado de Yunnan são algumas das espécies selvagens ameaçadas que Wong Kei Cheong e Carolina Rodrigues têm registado em filme. A trabalhar para a Wild China Film, no sudoeste do país, o fotógrafo de Macau e a realizadora portuguesa fazem também parte da campanha contra a construção de uma central hidroeléctrica na província de Yunnan, que está a ameaçar a biodiversidade da região.

Catarina Domingues

A construção de uma central hidroeléctrica no rio Jiasa, no curso superior do rio Vermelho, a sul da província de Yunnan, deverá elevar o nível da água daquela região montanhosa até aos 675 metros de altitude. Ambientalistas e organizações ligadas à conservação da vida selvagem defendem que a conclusão desta estrutura representa uma ameaça à biodiversidade da região e sobrevivência de espécies, como o pavão verde (pavo muticus), ave originária da China, que integra a Lista Vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla inglesa).
Refere um estudo do Instituto de Zoologia de Kunming da Academia de Ciências da China que em 1995 existiam na região entre 800 e 1100 pavões verdes. Entre 2013 e 2014, o número caiu para menos de 500. “Hoje cientistas falam em cerca de 200”, afirma Wong Kei Cheong, um dos responsáveis pela equipa de vídeo da Wild China Film, organização fundada em 2002 na cidade chinesa de Dali, com a missão de sensibilizar e alertar a população e as autoridades para a protecção da vida selvagem, através da fotografia e do vídeo.
No ano passado, a Wild China Film juntou-se a outras duas organizações – Friends of Nature e Shanshui Conservation Center – para dar voz a uma campanha contra a construção da central hidroeléctrica de Jiasa, a cargo de uma subsidiária do China Hydro Engineering Consultation Group. Wong Kei Cheong fez parte de uma expedição àquela região, situada no município de Xinping. “A proposta da empresa, que apontava para a quase não existência de espécies ameaçadas, estava incorrecta. Da primeira e segunda vez que nos deslocámos à região encontrámos fezes e penas do pavão verde, da terceira vez foram pegadas e mais tarde encontrámos mais de dez pavões verdes”, conta Kei ao EXTRAMUROS, revelando que as três organizações interpuseram entretanto uma acção judicial contra a construtora, que levou para já à paragem temporária das obras.

 

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Filmar a vida selvagem

Foi em Pequim, onde viveu cinco anos, que Wong Kei Cheong começou a trabalhar em projectos ligados à vida animal. Na capital chinesa, o fotógrafo, natural de Macau, e a realizadora portuguesa Carolina Rodrigues, colaboraram com a organização ambiental Greenpeace. “Fiz ainda filmagem e edição de quatro vídeos com uma produtora chinesa e o último desses vídeos foi sobre o macaco de nariz arrebitado de Yunnan (rhinopithecus bieti), conta Carolina, referindo-se a outra espécie sinalizada pela IUCN.
Encontramo-nos em Macau, na ilha da Taipa. Do terraço do café onde fazemos a entrevista, olhamos a cidade em altura, a pequena e antiga vila sitiada. “Em Pequim, trabalhávamos mais com histórias sobre pessoas, e queríamos estar mais ligados à vida animal, à natureza”, lembra Kei, explicando por que razão aceitaram o convite de Xi Zhinong, fundador da Wild China Film, para trabalhar em Dali.
Xi Zhinong foi o primeiro fotógrafo a recolher uma imagem do macaco de nariz arrebitado de Yunnan, espécie em vias de extinção, que habita as montanhas daquela província chinesa. O trabalho valeu-lhe o prémio Gerard Durrell Award for Endangered Wildlife, em 2001. “Quando ele tirou essa fotografia, a desflorestação já era uma realidade e havia muitos locais, onde a população de macacos era maior, em que se caçavam macacos para comer. Com as fotografias e um documentário filmado ao longo de dez anos, ele e a mulher conseguiram convencer o governo local a criar uma área protegida para os macacos”, explica Carolina.
Em Dali, os dois profissionais estão envolvidos sobretudo em projectos associados a espécies em vias de extinção, ameaçadas pela caça ilegal ou pela destruição do habitat, como o faisão-esplêndido, (lophophorus lhuysii) ou o pavão verde. Um trabalho exigente, nota Kei: “Uma parte substancial deste trabalho é encontrar os animais. Às vezes tens de esperar uma semana, porque eles estão em constante movimento, e isso foi difícil no início, porque precisas de perceber o que é que comem, que tipo de árvore tem esse alimento”. “Ou precisas de encontrar o ninho, no caso de ser um pássaro”, completa Carolina. “Sim”, diz Kei em concordância, “ou vamos para a beira de um rio, porque os animais precisam de beber água e então nessa altura podemos filmar”.
O jovem relembra ainda que no caso da pesquisa realizada ao pavão verde foi necessário fazer rafting até alcançar o vale povoado pela ave, onde não existem sinais de presença humana.
À noite, dorme-se em tendas camufladas, a manhã é de espera, silêncio. “Quando tens de fazer as tuas necessidades, deves cavar um buraco e voltar sempre a fechá-lo, porque o animal consegue aperceber-se através do cheiro da presença de estranhos”, conclui Kei.


Desflorestação: “Apanhas um avião, olhas para baixo e é desolador”

A China planeia aumentar a extensão de floresta para 23% da área total do país até 2020, segundo medidas anunciadas no ano passado pela Administração Estatal das Florestas e Prados. Dados oficiais revelam que no final de 2016, a área florestal era de 21.93%. A plantação de mais árvores deverá apoiar o combate contra a poluição atmosférica, uma das piores do mundo.
Carolina Rodrigues alerta para a dificuldade que o país tem tido em encontrar um equilíbrio entre o desenvolvimento, a produção alimentar e a protecção ambiental. “Apanhas um avião, olhas para baixo e é desolador. Não só pela construção de edifícios, mas também pelas áreas desflorestadas, criadas para a agricultura, e onde depois se utilizam pesticidas e químicos, e que faz com que os solos se tornem inférteis rapidamente. Toda a vida selvagem, todos os animais e plantas que ali existiam desapareceram para o cultivo, que ao fim de poucas décadas deu também cabo do solo”.
Kei relembra ainda a construção nas últimas décadas de várias barragens no norte da província de Yunnan, que veio devastar florestas, “comprimindo a presença dos pavões verdes numa área muito pequena”.
Ainda no que diz respeito à protecção da vida selvagem, apesar de admitir que a população em geral ainda “não tem consciência” deste problema, Carolina admite que hoje os governos locais estão mais atentos: “Pelo menos em Yunnan e em Sichuan há muitas reservas naturais e, comparando com a Europa, a China tem uma área incrível de reservas naturais, de áreas protegidas onde não há sinais de actividade humana. Ainda existem muitas espécies que noutros países já desapareceram ou que estão quase extintos”.
Questionada sobre o activismo ambiental na China, a realizadora realça que “em geral estes projectos não são bem vistos” e que devem ser levados a cabo “de forma inteligente”: “O nosso chefe Xi Zhinong tem boas relações com o governo de Yunnan, porque é uma pessoa conhecida, as pessoas ouvem-no. Agora se for apenas eu e o Kei, aí podemos ter problemas”.

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Carolina Rodrigues e Wong Kei Cheong estiveram recentemente a filmar em Hong Kong

“Os animais não têm nacionalidade”

“Preocupa-me tanto um pavão verde em vias de extinção, como um porco de uma quinta, na China ou noutro país qualquer. Os animais não têm nacionalidade”, afirma ainda a realizadora, que há já vários anos se dedica também ao voluntariado em abrigos para animais abandonados. No futuro “quero fazer um trabalho ainda mais significativo, na China ou onde for necessário”.
Na alimentação ou na vida, Carolina e Kei fazem opções baseadas no respeito pelo meio ambiente e vida animal. Não olham para o veganismo como um conceito estático e inflexível, mas como um caminho, no qual se “tenta o máximo possível reduzir o sofrimento do animal ou o impacto que as coisas que se compram tiveram anteriormente no animal”.
Kei admite que só mais recentemente começou a excluir da dieta o consumo de alimentos ou produtos de origem animal. “A Carolina sempre tentou entender que impacto é que o consumo de carne, por exemplo, tem no mundo. Eu nunca pensei em deixar de comer carne, até ter ido filmar porcos numa zona industrial e ter achado aquilo terrível. Depois disso tomei a decisão”.

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