“China Races” de Austin Coates

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João Guedes*

Todos temos na memória aquelas encenações medievais que se fazem em Itália, recreando as corridas de cavalos do renascimento. Uma parafernália de cores e sons, junto das catedrais das cidades estado com os jockeys vestidos a rigor, ostentando os brasões das famílias a que pertenciam, enquanto escravos criados e estribeiros fardados a rigor seguram os equídeos ataviados luxuosamente.
Dado o brado de largada, cavalos e cavaleiros largam a toda a brida por uma pista improvisada, feita de areia solta, ladeada por uma fileira de tábuas mal pregadas que lhe definem o percurso. Percurso que logo desaparece da vista, encoberto pela poeira que as patas ferradas levantam e que esconde também os palanques adornados de sedas e cetins onde se sentam os principais senhores do burgo e suas damas.
Bom! Isto é na Itália dos dias de hoje, nas festas anuais que por lá se fazem e que as televisões mostram em cadeia por todo o mundo. Agora coloque esta cena que lhe acabo de descrever, não numa das repúblicas do renascimento italiano, mas no largo fronteiro à Igreja de S. Domingos em Macau, bem no centro da cidade.
É verdade, é difícil de conceber, mas foi assim nos primórdios de Macau que, em pista improvisada, que se estendia da igreja ao primitivo edifício do Leal Senado, se disputaram as primeiras corridas de cavalos da China.
Quem o conta é Austin Coates no seu livro intitulado “China Races”. É talvez uma das obras menos conhecidas deste escritor que dedicou grande parte da sua vida literária a Macau e Hong Kong, divulgando de forma ímpar a presença britânica nos séculos XVIII e XIX de Macau.
Sabendo-se que as corridas de cavalos não têm qualquer tradição em Portugal, mas sim na Grã-Bretanha, muita gente pensa, por isso, que as competições deste género teriam começado com a chegada a Macau dos primeiros ingleses já lá para finais do século XVIII. Mas não. Como diz Coates isso aconteceu muito antes e não teve nada a ver com o Império Britânico. Eram iniciativas portuguesas, ou espanholas, já que esses espectáculos se desenrolavam também durante a dominação filipina (1580 – 1640).
Claro que depois as coisas mudaram de figura e as corridas de cavalos só se mantiveram devido ao verdadeiro culto que os ingleses sempre nutriram por este tipo de desporto.
Difícil foi, no entanto, satisfazer os seus desejos de terem cavalos, corridas e apostas ao fim-de-semana, como é habitual na tradicional Inglaterra. É que os chineses não viam com bons olhos nem as corridas nem os cavalos.
Não tardaram a proibir tais eventos que passariam pouco depois a realizar-se da forma mais clandestina possível, sem chamar a atenção das autoridades chinesas. Assim, as corridas só puderam ter continuidade depois dos ingleses terem conseguido permissão do governador de Macau para construírem um hipódromo, encostado às antigas falésias da Praia da Areia Preta, onde hoje se ergue o emaranhado de edifícios industriais da Zona Norte da Cidade.
Pois é! Antigamente existia aí uma praia bem protegida de olhares indiscretos, onde cavalos e jockeys durante décadas e décadas competiram para gáudio da comunidade do Reino Unido e de alguns aficionados chineses e portugueses, que os havia também.
Depois, com a fundação de Hong Kong, as corridas deixaram a antiga Praia da Areia Preta e lá foram para Happy Valley, já num ambiente menos clandestino e mais pujante, sem os mandarins chineses a condicionarem os tão entusiastas, como fleumáticos britânicos com a sua propensão atávica para as apostas.
Refira-se todavia que a história das corridas em Hong Kong também teve os seus momentos trágicos, como foi o incêndio do hipódromo de Happy Valley a 26 de Fevereiro de 1918. O fogo atingiu a bancada principal, onde se encontravam mais de 3 mil espectadores. Julga-se que várias centenas de pessoas tenham ali perdido a vida, entre as quais muitos macaenses que viviam em Hong Kong.
O tema do livro não será dos mais aliciantes, mas a escrita fluente e cheia de humor de Coats é sempre agradável de visitar, ou revisitar. Isto para além de conter numerosas curiosidades, quando descreve este peculiar desporto britânico nas diversas colónias ocidentais da China, Xangai, etc.
O livro surgiu de uma encomenda feita a Austin Coates pelo “Royal Hong Kong Jockey Club” para marcar o centenário da instituição, que decorreu em 1984. china races_capaFicamos a saber por ele que afinal na época dos descobrimentos, sabe-se lá porquê, os portugueses gostavam de corridas de cavalos.

jornalista e historiador

 

Mais sobre a obra:

Título: China Races
Autor: Austin Coates
Língua: Inglês
Edição: Oxford University Press, 1983

 

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