Mortinho por sobreviver

vítor quintã    Vítor Quintã*

Com o ano quase a terminar, o ranking de bilheteira do cinema chinês é liderado naturalmente por “Operação Mar Vermelho”, uma mega-produção da indústria cinematográfica de Hong Kong com um orçamento de 70 milhões de dólares (61,4 milhões de euros) e cuja mensagem patriótica levou a que fosse fortemente promovida pelo Partido Comunista Chinês. A surpresa surge com o terceiro lugar de “Mortinho por Sobreviver”  – 我不是藥神 (título chinês) e Dying to survive (inglês) – uma comédia dramática que custou sete vezes menos e, em vez de explosões e tiroteios, aposta num tema sensível: o contrabando de medicamentos para a China, alimentado por doentes crónicos abandonados pelo sistema público de saúde.
O sucesso estrondoso que filmes de acção norte-americanos como a saga “Transformers” tem tido na China criou entre os observadores ocidentais uma imagem de um público chinês pouco sofisticado. Havia no entanto já sinais crescentes de uma mudança, a começar em 2015 com “22”, sobre as mulheres chinesas forçadas à prostituição ou escravatura sexual em bordéis militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Um documentário que só saiu do papel graças a uma campanha de financiamento colectivo para a qual contribuíram 32 mil pessoas, mas acabou por conseguir sobreviver dois anos a rodar nos cinemas chineses. Seguiu-se “The Last Stickman of Chongqing”, um documentário autobiográfico sobre um grupo de trabalhadores que carrega mercadoria pelas íngremes escadas da cidade de Chongqing, cujo sucesso na Internet o levou até aos cinemas.
Mas o ponto de viragem para a indústria cinematográfica chinesa aconteceu no Verão passado, quando “Dangal”, um filme sobre a discriminação de género no desporto, se tornou a mais popular produção indiana de sempre na China. A resposta foi “Angels Wear White”, um drama sobre o abuso sexual de menores, talvez a primeira película feita por um dos principais estúdios chineses com tons de realismo social.
Para muitos críticos chineses de cinema, a maior surpresa foi ainda assim o facto de um guião sobre um tema social tão sensível ter sido autorizado pela censura. “Mortinho por Sobreviver” baseia-se, de forma muito pouco fiel, no caso de Lu Yong, um paciente com leucemia que, sem capacidade financeira para pagar o tratamento, decidiu trazer ilegalmente um medicamento chamado Gleevec da Índia e tornou-se mesmo o distribuidor para cerca de mil doentes. Em 2013, quando Lu foi preso, muitos cibernautas declararam-no um herói e criticaram o preço dos medicamentos na China.
Na verdade “Mortinho por Sobreviver” faz parte de uma prática corrente do governo chinês: só falar de um problema quando já é possível apresentá-lo como resolvido. Na altura em que Lu foi condenado, a imprensa estatal sublinhava que as autoridades planeavam incluir uma versão do Gleevec – produzido na China e, como tal, mais barata – na lista de medicamentos coberta pelo sistema nacional de seguro médico. Quatro anos depois, o filme termina com uma descrição das medidas tomadas pelo governo para resolver o problema.

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FOTO: Vítor Quintã

Um risco calculado

Também ajuda poder apontar um bode expiatório tão conveniente como, neste caso, as farmacêuticas ocidentais, que de facto tendem a cobrar na China preços mais elevados do que em outros países em desenvolvimento. Até o primeiro-ministro Li Keqiang emitiu um comunicado em que, dando o filme como exemplo, pediu aos reguladores da indústria farmacêutica para “acelerar a redução dos preços para medicamentos contra o cancro” de forma a “reduzir a pressão sobre as famílias”.
Ainda assim, a decisão de permitir que “Mortinho por Sobreviver” chegasse aos cinemas representa um risco calculado para o Partido Comunista chinês. Afinal, resolver o problema do acesso a um medicamento em particular, por mais vital que ele seja, não esconde o estado atroz dos serviços de saúde na China continental. A extraordinária desconfiança que os chineses têm do sistema de saúde em geral, por um lado, tem gerado actos de violência contra médicos com uma regularidade assombrosa, e por outro lado, tem incentivado muitas famílias com posses a viajar para o estrangeiro para algo tão simples como uma vacina contra a gripe.

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Em “Dying to survive”, um homem vende ilegalmente medicamentos para o cancro comprados na Índia

Ao contrário de países como Portugal, onde o sistema público de saúde é tendencialmente gratuito, a maioria da população chinesa é coberta por um programa universal de seguro médico, cuja cobertura é fraca e concentra-se sobretudo nos cuidados médicos primários. Por um lado, pagar as prestações do seguro médico é um luxo para muitos dos milhões de trabalhadores informais chineses. Por outro lado, contrair uma doença crónica pode na prática empurrar famílias inteiras para a bancarrota, uma vez que o seguro médico não paga o custo total dos tratamentos.
Não admira que um dia uma aluna minha de inglês, uma dentista com um filho pequeno, me tenha dito, sem qualquer sinal de culpa: “Nos últimos anos de vida do meu sogro, só conseguia pensar em como arranjar dinheiro para pagar os tratamentos dele. Fiquei contente quando ele morreu”.

* jornalista

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