Casa e quarto em chinês

cheong-kin-man_edited

 

 

 

 


Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Estudar a etimologia, embora de forma amadora, tornou-se na minha grande paixão. Aprendi recentemente, por acaso, a palavra uigure “ئۆي” (öy), que significa simultaneamente “casa” e “quarto”. Esta descoberta conduziu-me à associação com os kanjis (caracteres japoneses, emprestados directamente do chinês clássico) utilizados para a palavra “quarto” em japonês moderno: “部屋”. Essa palavra, cuja pronúncia autóctone é “heya”, significa literalmente a partir do chinês moderno: “parte-casa”.
Por outro lado, o carácter em chinês para quarto “房” (fang em mandarim ou na sua variante de Sichuan; fong em cantonense e em hakka com uma pronúncia um pouco diferente; pâng em fuquinense, wang em xangainense ou fang no falar de Suzhou) e “屋” para casa  (wu em mandarim ou sichuanês, ôk em cantonês ou fuquinense mas com diferentes tons, vôk em hakka, ok em xangaiense ou ôu em Suzhounese), constam entre os mais antigos sinogramas. Essas associações mencionadas acima levaram-me a dar uma vista de olhos na etimologia e na evolução das palavras “quarto” e “casa” nessa variadíssima língua chinesa.

Quando retornamos à origem da palavra uigure “öy” na escrita antiga dos povos turcos ou, como denominados nos documentos históricos chineses que datam do século VII, “突厥” (tu-jue em mandarim ou sichuanês; tak küt em cantonense; t’ût-kêt em hakka; tut-kuát em fuquinense), deparamo-nos com uma palavra cujo equivalente pode significar também “tenda”. Este facto parece ser um reflexo da sua história nómada e para mim faz sentido. Paralelamente, uma versão anotada do século II do clássico “O Cerimonial” (título da tradução portuguesa do Padre Joaquim Guerra, ou “Livro dos Rituais” na tradução brasileira de Geir Campos a partir do inglês), menciona curiosamente o facto do carácter chinês para “casa” “屋” poder significar também “tenda”.

O carácter “屋” também representa em chinês clássico o tecto de um veículo de cavalos ou ainda uma unidade para contar os campos. Neste artigo, contentar-me-ei com o significado do carácter equivalente ao português “casa”, como habitação construída pelo homem. Esse carácter é formado pelo radical “尸” e pelo caracter “至” abaixo dele. Ao procurar as origens na escrita oráculo em ossos encontramos “尸”, seja como carácter que significa uma pessoa de joelhos durante um ritual, ou, segundo outras teorias, a representação do tecto de uma casa; “至” significa, por sua vez, “chegada”. Este último carácter, uma vez decomposto em “一” e “矢” na sua forma mais primordial: “一” poderia ser também a imagem do alvo, enquanto “矢” é a flecha que vai em direção a este.

casa e quarto_1

Esta casa de dança e música em bronze, que data da época que antecedeu a dinastia Qin, integra a colecção do Museu Provincial de Zhejiang. (Foto: HDwiki, China)

Quanto a “房”, “quarto” no sistema chinês de escrita, é formado pelo radical “戶” e pelo fonograma “方” para marcar a pronúncia. O radical “戶” é, a princípio, uma porta com um único batente (em contraste com o carácter “門”, na escrita de Taiwan, Hong Kong e Macau, que representa uma porta com dois batentes. Em chinês moderno, a palavra composta mais tarde, “門戶” (men-hu em mandarim; mun-wu em cantonense, mun-fu em hakka; mng-hu ou bun-hu em fuquinense) significa o estatuto social de uma família ou ainda, porém em sentido figurado, uma entrada ou passagem para oportunidades, entre muitos outros significados. Ao longo da história, “戶” adquiriu o significado de “lar”.

No carácter “房” é interessante notar que o fonograma “方” estava na escrita oráculo em ossos, aparecendo na forma de um quadrado “□” e significava, entre outros, “quadrado”, significado que coincide com a etimologia da palavra em português “quarto”, em latim “quartus” que possui possivelmente uma relação com “quādrus” (quadrado).

O caracter “房” designava, na sua origem, um dos dois quartos laterais de uma casa, enquanto que o caracter “室” (shi em mandarim ou sichuanês; sat em cantonense; chit em hakka; siêk em fuquinense; s’êh em xangaiense) designava a sala ao meio. Esta disposição não é unicamente representativa do design das casas na época da dinastia Zhou do Oeste (1046 a 771 a.c.), mas também é simbólica da hierarquia. A sala ao centro da casa tinha uma importância superior, e é assim que estas duas palavras obtiveram novos significados: “室” e “房” podendo designar, quando combinados com outros caracteres, a primeira esposa ou as concubinas. Ao longo da história, essas hierarquias misturaram-se.

“室” e “屋” são duas composições similares, porém, o primeiro carácter é aparentemente mais antigo do que o último. Se bem que não é impossível que esses dois caracteres tenham representado, no início, construções mais básicas, ou seja, casa de somente uma divisão. Tanto o carácter “房” quanto o “屋” apareceram mais tardiamente do que “室”. Não seria surpreendente que as casas mais sofisticadas com mais divisões tenham aparecido igualmente mais tarde.

Retornemos agora à questão do motivo de um quarto ser uma “parte-casa” em japonês moderno. Poderíamos comparar a influência sobre o japonês do chinês clássico àquela que o inglês recebeu do latim ou do francês. Entretanto, uma grande quantidade do vocabulário indígena japonês não foi substituída pelo chinês clássico, mas foi somada a ele. Os japoneses também guardaram muitas palavras da vida quotidiana com suas pronúncias em japonês, às quais acrescentaram os caracteres chineses para as escrever. Se a pronúncia em japonês de “部屋” é puramente autóctone do Japão ou sofreu influência chinesa, seria uma questão interessante que exigiria uma pesquisa maior.
Ainda assim, tendo em conta a tradução literal de “heya” como “parte-casa” em chinês moderno, o significado etimológico em japonês seria mais o de uma “outra casa à parte”, separada, porém, e ligada à casa principal, o que no Japão antigo servia normalmente de armazém.

Entre as línguas que herdaram a estrutura do chinês clássico no seu uso quotidiano, ou seja, que utilizam ainda muitas palavras com um único carácter e utilizam ainda “房” e “屋” como tais, temos hoje o cantonense, minha língua materna, ou o hakka, estreitamente ligado a esta língua. Para exprimir a ideia moderna ocidental de habitação, o cantonense pede emprestado a palavra ao mandarim “房屋” (fang-wu), justamente composta por estes dois caracteres, ainda que ele a pronuncie à sua própria maneira (fong-ôk).

Tradução do francês de Talita Assumpção

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

Nota: O autor agradece a Zhang Xinye, Gao Jiamin e Xue Jierong pela sua amável ajuda na pronúncia dos falares de Sichuan, Xangai e Suzhou, respectivamente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s