Um riso só no mar

 

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Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Os mares vastos e azuis riem
As vagas caudalosas, duas costas
Subindo e descendo, ao sabor da maré
Pensando apenas nesta manhã

Os céus azuis riem
Da sucessão das marés no mundo
Quem perde ou quem vence, quem quer saber?

Os rios e as terras riem
A bruma ao largo
Quantas coisas mundanas lavaram daqui as vagas

As brisas ligeiras riem
Mas trazem consigo a solidão
Das virtuosas ambições, resta no peito senão uma luz crepuscular

Todos quanto vivem riem
E finda a solidão
Das virtuosas ambições? Sobre elas se ria então

Para poder compreender o espírito da cultura cantonense contemporânea, desde Hong Kong a Macau, da província de Cantão até às regiões onde habitam pessoas oriundas desta região linguística da China, é indispensável conhecer o incontornável James Wong (1941-2004).
James Wong, ou Wong Jum-sum (nome original em cantonense), também afectivamente apelidado de “Jim Sok” (Tio Jim), embora permaneça relativamente desconhecido no Ocidente, era o que eu chamaria de versão moderna de um homem das letras da China clássica: músico, letrista, escritor e, de acordo com a designação comum em Hong Kong, um “artist”, ou seja, um cantor-actor. E finalmente, um patriota do livre pensar, que ousava dizer palavrões na televisão.
Uma das maiores razões da minha admiração enorme por James Wong (para lá de ter crescido na companhia das suas canções) é precisamente o facto de ele ter sido este verdadeiro homem de letras dessa China clássica que ele amava tão profundamente.
São inúmeras as músicas “cantopop” (pop cantonense) que se tornaram clássicos que, julgo eu, são comparáveis a grandes tesouros de outras culturas. O cantopop é uma espécie de prolongamento da música cantonense mais tradicional, assumindo uma participação activa tanto na identidade de Hong Kong como na da população cantonense em geral, para os quais desempenha um papel essencial.
Quando surgiu a ideia de escrever sobre as canções de James Wong ou de as traduzir numa ou em mais línguas europeias, escolhi imediatamente e sem qualquer hesitação começar por “A Single Laughter in the Sea” (sendo esta a tradução inglesa do título que se encontra num livro publicado pela Cinemateca de Hong Kong). A melodia simples, inspirada pela citação “A grande Música compartilha dos princípios harmonizadores do Universo”, do clássico “Livro dos Rituais” (1) (na tradução do poeta brasileiro Geir Campos), e as letras sábias, inspiradas, por sua vez, num poema de Mao, fazem desta obra uma peça inolvidável!
O grande sucesso do clássico do cinema “The Swordsman” (1990), realizado por King Hu (1932-1997), cineasta muitíssimo reputado neste seu genre, não foi no entanto suficiente para trazer “A Single Laughter in the Sea” para o estrelato no Ocidente, embora a canção tenha sido elaborada para o filme e possua mérito para tal.

James Wong1

Foto: James Wong 黃霑 no Facebook

Existe uma versão do filme com legendas em inglês, e traduções da música em língua inglesa também se encontram disponíveis online. Eu encontrei inclusive uma versão dobrada em alemão e outra em russo, mas nunca com a tradução da letra da canção. É realmente uma pena!
As letras de “A Single Laughter in the Sea” possuem a rara virtualidade de conseguirem ser cantadas de forma quase idêntica e sem quaisquer resquícios de artificialidade, tanto em cantonense como em mandarim. Isto deve-se sem dúvida ao facto de James Wong as ter escrito para a co-produção de Taiwan-Hong Kong, acima mencionada. Tanto quanto sei, esta é uma das poucas canções pensadas para ambas as línguas.
Composta por uma combinação de chinês moderno e chinês clássico, a letra possui vocabulário maioritariamente figurativo. Em conjunto com a Mathilde, procurei traduzi-la para francês, de modo a simultaneamente transmitir o seu significado e a salvaguardar a ambiência da canção. O resultado não será perfeito, mas, apesar de tudo, fico satisfeito por esta se encontrar agora traduzida numa língua românica.
Na banda sonora do filme, o intérprete é o próprio James Wong – tanto em cantonense como em mandarim – fazendo-se acompanhar de ícones do cantopop e do mandopop, como é o caso de Sam Hui e Lo Ta-yu. Na versão em mandarim, até o co-realizador Tsui Hark cantou. Que belo encontro de homens de letras de uma China clássica.
“A Single Laughter in the Sea” também foi reinterpretada numa adaptação para a comédia erótica “Stooges in Hong Kong”, que saiu imediatamente após “The Swordsman”, e para a qual o próprio James Wong recriou e cantou uma nova versão da canção. Como já foi referido acima, James Wong fazia parte desse grupo de pessoas capazes de dizer vulgaridades em público.
Para terminar este artigo, gostaria de citar a tradução espanhola de Juan Carlos Villavicencio de um poema de Cao Cao (155-220) – Chou Chou em cantonense, Tsao Tsao em Hakka, Tsao Djo em fuquinense, Tse Dje em xangainense – um “senhor da guerra”:

Soy muy afortunado
de poder cantar esta canción.

(幸甚至哉
歌以言志)

*Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

Tradução do francês de Rita Guimarães, que consultou o poema original em chinês

(1) A tradução brasileira desta citação do “Livro dos Rituais” foi feita a partir de uma interpretação em inglês por Lin Yutang (1895-1976). Existe igualmente uma tradução directa do chinês por Joaquim Guerra (1908-1993), mas na qual a tradução dessa citação concreta se me afigura ainda discutível.

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