Recordar Márcia Schmaltz

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Catarina Domingues*

Acabada de acordar, manhã de sábado, luz, o mundo a dar-me espaço. Ainda deitada pego no telemóvel, procuro a vida que se fez enquanto eu dormia, as últimas dos jornais, e é então que me chega através do facebook a triste notícia da morte de Márcia Schmaltz, mulher, professora, investigadora, mãe, tradutora-intérprete, colaboradora deste blogue, vencedora. Tinha 45 anos.

Ao fim da manhã no escritório, Stardust de John Coltrane a tocar no computador.
Conheci a Márcia por volta de 2010, quando eu trabalhava na Teledifusão de Macau e a entrevistei sobre as obras que lançou e traduziu em conjunto com Sérgio Capparelli – “Contos Sobrenaturais Chineses”, que reúne 25 textos de diferentes épocas da história do país, e “50 fábulas da China Fabulosa”, numa edição bilingue e ilustrada com a técnica chinesa do papel recortado. Lembro-me de ter ficado impressionada quando me leu alguns dos contos em mandarim. Esse encontro seria decisivo para um ano mais tarde também eu partir para Pequim para aprender chinês. Acho que nunca lhe agradeci por isso.

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Depois do almoço, ainda o saxofone, e desta janela tudo é finito, torres altas, pouco mais.
Em 2016, quando decidimos criar este blogue, que tem como missão levar a China a todos aqueles que falam português, Márcia Schmaltz foi uma das primeiras pessoas contactadas para colaborar. “Adorei a ideia de escrever sobre escritores e livros chineses. Quero participar, sim”, respondeu-me.
Brasileira, natural de Porto Alegre, Márcia mudou-se ainda criança para Taiwan, onde viveu durante seis anos. Completou o doutoramento na área de Linguística pela Universidade de Macau e o pós-doutoramento em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Minas Gerais. Para português, a investigadora traduziu “O Garoto do Riquixá” de Lao She, “Contos Completos” de Lu Xun, “Viver” de Yu Hua, “Chengdu, Deixe-me em Paz” de Murong Xuecun, entre outros.

Hoje toda esta comunidade que se tem dedicado ao estudo da China e trabalhado no sentido de quebrar barreiras entre este gigante asiático e o mundo que fala português ficou profundamente mais pobre. Presto aqui a minha homenagem a Márcia Schmaltz que, além de ter deixado um significativo trabalho feito nesta área, é uma das responsáveis por eu ter feito este desvio tão importante na minha vida.

Que descanses em paz.

* jornalista

Aqui pode ler o blogue de Márcia Schmaltz sobre tradução e cultura chinesa

Textos de Márcia Schmaltz para o Extramuros

 

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