Rashomon

 

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Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Num dos grandes clássicos da literatura moderna japonesa, “Discurso sobre Decadência” de Ango Sakaguchi (1906-1955), – ou Sakaguchi Ango, seguindo a ordem original, com o sobrenome primeiro, como prefiro escrever – encontra-se um ensaio sobre a terra natal da literatura, isto é, a literatura na sua forma mais primitiva, mais curta e mais directa.
Neste ensaio, Sakaguchi faz referência a uma história escrita por Akutagawa Ryunosuke (o sobrenome igualmente em primeiro, 1892-1927), na qual um agricultor visita o autor para lhe contar que acabou de matar o seu filho recém-nascido por recear não poder alimentá-lo e conduzir a sua família à miséria. A história termina então abruptamente. Por limitação de espaço, não me vou alongar, mas esta narrativa sempre me impressionou pela realidade crua que aborda, pela forma como esta deverá ter afectado Akutagawa.
A primeira pessoa que me recomendou a leitura das obras de Akutagawa “Kappa” (1927) e “Rashomon” (1915) foi o meu pai, que trabalhava como “office boy” num casino em Macau. A principal razão pela qual ele me aconselhou a leitura foi precisamente por também considerar marcante a dura realidade retratada. No mundo ocidental, “Rashomon” é amplamente conhecido graças a um filme com o mesmo título de Akira Kurosawa – ou Kurosawa Akira – que faz uma combinação dos dois trabalhos de Akutagawa.
Estas obras chegaram à China 30 anos antes de estrearem no cinema, na década de 1920, e devemos a primeira tradução de “Rashomon” para chinês a Lu Xun (ou Lu Hsün de acordo com Wade-Giles, e Lu Chün em xangainês). A língua chinesa, cuja nova escrita surge naquele tempo, faz a transição do chinês clássico para o mandarim escrito, enquanto a China vivia um período de turbulência após a sua radical modernização. Uma modernização semelhante àquela que o Japão já havia conhecido.
A minha primeira leitura de “Rashomon” foi a partir da tradução alemã do japonólogo Jürgen Berndt, numa publicação da Alemanha Oriental. Eu sempre preferi ler os clássicos da Ásia Oriental e do Vietname em chinês, quando não é possível fazê-lo nas suas versões originais. No entanto, apesar de toda a obscuridade que uma tradução para uma língua europeia pode dar a um texto japonês, a história já aí me pareceu muito marcante. Eu imagino, no entanto, que esta peça deva ter sido ainda mais marcante para todos os estudantes chineses enviados para o Japão, que foram capazes de ler o texto original em japonês quando foi publicado pela primeira vez.
Foi apenas alguns anos depois que Lu Xun, então no auge da sua carreira literária, e revoltado com uma China que ele considerava retrógrada, publicou a primeira tradução chinesa de “Rashomon” no importante jornal elitista da época “The Morning Post”. A sua tradução surgiu em 1921, no mesmo ano da publicação de um de seus maiores livros, intitulado “A Verdadeira História de Ah Q” (título português da tradução de José Manuel Calafate), e o próprio Akutagawa ficou muito satisfeito com a precisão da tradução feita por Lu Xun.

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Um suplemento do “HK01” publicou uma crítica de Page Fung Bak Kui ao conto “Rashomon”

A tradução de Lu Xun ressurgiu dois anos depois, em 1923, numa antologia da literatura moderna japonesa, para a qual Lu Xun colaborou com o irmão Chou Tso-jen (ou Zhou Zuoren, conforme o pinyin) publicada pela Commercial Press, uma editora de grande relevo no mundo da língua chinesa. Hoje, quando se vai à livraria Wan Tat, em Macau, ou à livraria Wenhua, na China, perto da fronteira, constata-se que a literatura japonesa ainda exerce um impacto muito grande sobre os actuais leitores chineses. Desde a modernização do Japão à época da publicação da tradução chinesa e até agora, mesmo mantendo a China e o Japão relações complicadas, a literatura japonesa continuou sempre a atrair leitores chineses.
Embora isso seja um dos lados menos conhecidos do autor, Akutagawa fazia parte da última geração de escritores japoneses que ainda escreviam poemas clássicos chineses. Na época de Akutagawa havia uma lacuna muito grande entre a imagem de uma China idealista que os japoneses conheciam através dos clássicos chineses e a China real que Akutagawa descobriu durante a sua primeira visita ao território, na época, a convite do jornal japonês “Mainichi Shimbun”. Esta lacuna é típica desse tempo. Por ocasião da sua visita, Akutagawa publicou “Viagem na Shi-na (⽀那)”, onde compila histórias das suas viagens para as quais usou os dois ideogramas para designar a China. O uso desses caracteres para representar o país é considerado hoje, e desde a guerra, muito humilhante, de acordo com o discurso chinês. Mas na verdade esses ideogramas são resultado de uma tradução fonética, que, com exceção de algumas línguas eslavas, também estará na origem actual da designação de China em idiomas europeus (embora este continue a ser um assunto controverso e seja necessário conhecer as várias nuances destes caracteres).

filme

No mundo ocidental, “Rashomon” é amplamente conhecido graças a um filme com o mesmo título de Akira Kurosawa

Este livro descreve, entre outros, os maus hábitos dos chineses, o que também foi veementemente criticado pela China da época. É desta China, descrita através das histórias, que o Japão tão ansiosamente se desejava demarcar. E queria ir mais além para se tornar numa potência mundial, então capaz de a agredir.
Os ideogramas que formam a palavra Rashomon (羅生門) ainda hoje são usados, na sua pronúncia em mandarim, pelos meios de comunicação social de Taiwan para designar algo que não é claro e que não pode ser esclarecido. Essa complexidade reflecte-se, a meu ver, nas confusas relações culturais entre a China e o Japão desde a sua modernização até hoje. É precisamente quando leio os textos escritos na época de “Rashomon” que percebo que a China antiga influenciou o Japão e o Japão na época da sua modernização, por sua vez, influenciou grandemente a China.
Quase um século depois da sua publicação, “Rashomon” continua a ser uma obra muito marcante. Outra obra literária que inspirou este artigo foi “No matagal” (de acordo com a tradução de uma versão brasileira). Esta peça, também ela impressionante, está entre os manuais escolares de Taiwan para aprender chinês.

Há mais duas notas que gostaria de acrescentar a este artigo. Esta é, antes de tudo, uma nota em relação à tradução para português do Brasil do título Discurso sobre Decadência, que encontrei apenas numa explicação online de um livro de manga. Tanto quanto sei, não foi traduzido para o português.
A segunda nota diz respeito aos dois grandes nomes mencionados neste artigo, Akutagawa Ryunosuke (芥川龍之介) e Akira Kurosawa (黒澤明), cada um contendo um ideograma que escapou à padronização da simplificação de caracteres (em vez deeem vez de ), o que para mim é um símbolo de grande respeito para com essas duas grandes pessoas.

(traduzido do francês por Sofia Xavier)

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

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