Do alto de Xining

foto_perfil

 

 

 

 

Catarina Domingues*

sábado, 2 de Junho de 2018

No avião, já perto de Xining. A cidade a poucos metros, pontos néon, ornatos vermelhos, de outras cores, e as estradas iluminadas, os carros ainda minúsculos, ainda na rua, e uma torre a aproximar-se da noite. Apanho um táxi para o hotel, ponho-me a caminho de casa.
Prefiro aterrar à noite. Quando se chega a uma cidade pela primeira vez, a noite é uma espécie de lugar intermédio, por onde se passa antes de começar tudo de novo.
No hotel, vejo o que está a passar na televisão, vou dormir.

china_qinghai

domingo, 3 de Junho de 201

Só de manhã olho a montanha, que tantas vezes localizei no mapa. A cidade está a mais de dois mil metros de altitude, escultura cor ocre assente num vale. E depois o rio Huangshui, afluente do rio Amarelo.
Xining é a capital de Qinghai, província chinesa no Noroeste do país. Maior do que qualquer país da União Europeia, esta região ocupa uma vasta área do planalto tibetano, tem apenas 5,6 milhões de habitantes – 2,2 milhões vivem na capital – e faz fronteira com o Tibete, Xinjiang e as províncias de Sichuan e Gansu. No passado, era por aqui que passava a zona Norte da antiga Rota da Seda. Qinghai fez em tempos parte do Tibete, tal como esteve incorporada no império mongol e foi liderada por um clã muçulmano. Na rua, as pessoas são todas essas geografias.

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segunda-feira, 4 de Junho de 2018

Às oito e meia da manhã chego à Qinghai Nationalities University, o único estabelecimento de ensino superior de Xining que aceitou receber-me por apenas duas semanas. Arranjamos uma turma para si, diz-me o senhor Mao ao telefone um mês antes de partir. Sem qualquer outra referência, apareço no dia combinado, o nome Mao na cabeça, o passaporte, e um caderno, um certificado de língua, que afinal não é necessário. Pago mil yuan.
A Qinghai Nationalities University 青海民族大学, nome que em português pode ser traduzido por Universidade das Minorias Étnicas de Qinghai, foi fundada no mesmo ano que a república popular, 1949. Salgueiros-chorões pelo caminho, intervalo que se faz no campo de jogos, futebol, basquetebol, estruturas antigas e em decadência, e um novo edifício de estudos tibetanos a erguer-se do outro lado. O departamento para estrangeiros a aprender mandarim tem cerca de 200 alunos, à volta de 20 professores. Na minha turma, sobretudo norte-americanos, também alunos do Tajiquistão, Iémen, Cazaquistão.
O sol atravessa pela manhã as longas janelas da sala de aula, cortinas azul-inverno, jogos de sombras, silêncio. No ar, só a voz de Lamao Cairen, professora de mandarim, cabelo negro, origem tibetana.
Uma nota sobre Lamao Cairen: nasceu numa aldeia de Qinghai, chegou a Xining quando era pequena, num programa comparticipado pelo governo. Viemos sozinhos, éramos quatro e estávamos sempre juntos, conta.

***

lírios: vinte e nove –
as vezes que o homem das barbas
evocou hoje a oração.

Um haiku por Tiananmen neste 4 de Junho. Passaram-se vinte e nove anos desde o massacre. Nunca esquecer esse fim de Primavera, o primeiro que passo fora de Macau desde que deixei Pequim, em 2014.
Decido visitar a Grande Mesquita de Dongguan, uma das maiores da China. Em Xining, cerca de um terço da população é muçulmana, existem mais de 80 mesquitas.
Homens de idade, gorro branco bordado a croché, descalços, sentados no átrio debaixo da arcada, e encostam-se a antigos tapetes, que enrolam uns sob os outros. E por trás do edifício, o mercado: pão, carne fresca, um motel qualquer, escuro, frutos secos, um barbeiro, dois, mulheres de lenço na cabeça, vestidos longos, floridos, meias de vidro, sapatos fechados, pele morena, olhos em forma de amêndoa, e pedintes, muitas crianças. Todos olham enquanto passo.

quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Há sempre um Parque do Povo.

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quinta-feira, 7 de Junho de 2018

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Na foto, a estação de comboio de Xining, a primeira paragem da rede Qinghai-Tibete.
No edifício ao lado tento comprar uma passagem de autocarro para amanhã ir ao lago de Qinghai. Na fila, pressionam-me, pessoas impacientes com a minha demora.
Chove, procuro um café, escrevo: A professora Lamao nasceu em 1970, o dia e o mês não sabe. É comum entre aqueles que cresceram nas regiões mais remotas do planalto tibetano. A mãe acabou por escolher uma data para a burocracia: dia 8 do 8.º mês. Um número auspicioso na cultura chinesa, comento. Sim, mas para os tibetanos o número sagrado é o 13, responde. Não é toda a gente que pode viver no 13.º andar, acrescenta.
A origem tibetana – e como isso a diferencia dos chineses han – é um facto que Lamao Cairen vai sublinhar várias vezes durante as aulas. A cor da pele é mais escura que os chineses han, diz. E exemplifica: Aqui na universidade há quem me chame de “menina carvão”. Um jogo de palavras: em vez de me chamarem měinǚ 美女, que significa “mulher bonita” e é uma forma comum de se dirigir a uma mulher na China, chamam-me de méinǚ 煤女, “menina carvão”, por causa da cor da minha pele.
Lamao escreve no quadro branco os quatro caracteres. Nós copiamos.
Ao fundo, no café, ouve-se música tibetana. Numa mesa, colada à janela, um grupo de cinco homens bebe chá, joga as cartas, fala uma língua que não conheço. Um monge entra e fica a olhar para o mesmo bolo de banana que eu escolhi. Pede depois uma sopa quente para este dia fresco de Primavera.

sexta-feira, 8 de Junho de 2018

Três horas de viagem até ao maior lago de água salgada da China. O Lago de Qinghai (em tibetano é conhecido como Kokonor) é seis vezes maior do que Singapura, está a 3.600 metros de altitude.
O autocarro pára várias vezes pelo caminho, pessoas entram e saem no meio da estrada, fazem-se entregas: pão, ovos, cimento. O condutor torna-se responsável pelo destino das mercadorias.
Uma imagem de Mao Zedong presa ao retrovisor, chuva miúda, iaques a atravessar a estrada, ovelhas, cavalos, montanhas ao fundo cobertas de neve, edifícios vidrados que aparecem do nada, no meio do nada.
Finalmente a estrada que me leva à água, azul, verde, marinho, periquito, cores novas, e só isso tem a capacidade de me fazer ausentar deste parque montado para turistas, com carrinhos que nos levam por aí.
Tenho três horas para este corpo, receptor de vários rios. Afasto-me, sinto pressão nos ouvidos, dor de cabeça, frio. Patriotismo: Make trips to every spot with the deep love in heart to the country, the family and the nature, diz uma placa pelo caminho.

***

A menina é chinesa ou estrangeira, pergunta-me um senhor no regresso a Xining. Aqui nunca estou sozinha, todos querem saber quem sou eu. Sou estrangeira, respondo.
Não se encontram muitos por Qinghai.

lago de qinghai

sábado, 9 de Junho de 2018

Xining, templo budista de Nanchan, no topo da Montanha de Fenghuang, a cerca de 2.700 metros de altitude. Foi construído durante a dinastia Song do Norte (960-1127).
Um homem persiste na roda da oração:

a rádio no ar
e um mantra
maior do que o espaço.

nanchan

segunda-feira, 11 Junho de 2018 

Ensinamentos da professora Lamao (I):

Não se dizia simplesmente amo-te. Antigamente, uma mulher não o podia fazer, então recolhia um ramo de salgueiro (柳树 liú shù) para oferecer à pessoa que amava. A leitura da palavra “liú 柳 (salgueiro) é próxima de “liǔ 留 (ficar, permanecer), ou seja, era o mesmo que dizer: não te vás embora, fica, eu amo-te.
Mais sobre o salgueiro: representa tristeza. É utilizado, por exemplo, em funerais. Para os chineses representa também a cicatrização de uma ferida, especialmente do coração.
Li que segundo as regras do feng shui não se deve plantar salgueiros no próprio jardim, porque a árvore deita abaixo a energia do local. Daí vermos salgueiros sobretudo em jardins públicos ou templos.

terça-feira, 12 de Junho de 2018

Ensinamentos da professora Lamao (II):

衷 zhōng, que se pode traduzir em português como “sentimentos (íntimos)”, é uma palavra composta pelo carácter  (), que quer dizer “roupa” e (zhōng) que significa “centro” ou “meio”. Note-se que este último carácter se encontra entre a parte superior () e inferior (𧘇) do primeiro carácter (). Portanto, “sentimentos íntimos” é o que existe no centro, meio, no coração do que trazemos vestido.

professora_xining

quinta-feira, 14 de Junho de 2018

A senhora de sempre, mala à cintura, chapéu palha, percorre esta rua a esta hora múltiplas vezes. Passam poucos minutos das onze da manhã, é o meu penúltimo dia em Xining. Numa das extremidades do campus universitário, onde estão os dormitórios, um grupo de alunos espera pelo almoço. Chega a senhora, atrás outros empregados, com caixas de esferovite, dabao. Passam o almoço aos estudantes através das grades. Todos os dias o ciclo se repete, e eu volto a sentar-me num café, um expresso, peço.

***

Como é que alguém chega aqui, ao interior do país? E por que razão, com que objectivo? Sou uma mulher independente, não estou presa a nada, diz-me uma colega de turma. Uma família desestruturada, dependente, que agora ficou para trás, conta. Depois há aquele casal norte-americano do Utah, ele de origem mexicana, que quer abrir, quem sabe, um restaurante mexicano em Xining. Conheciam alguém antes de vir. E ainda outra norte-americana, Virgínia do Norte, professora de inglês, família religiosa, estudos feitos em casa, Teologia na universidade, três irmãos biológicos, quatro adoptados fora do país.
Todos fugimos de qualquer coisa.

sexta-feira, 15 de Junho de 2018

Oito da manhã, último dia do Ramadão. A avenida que percorri ao longo de duas semanas de autocarro está hoje fechada ao trânsito. Pelas ruas da cidade, avançam homens de tapete nas mãos, movimento rápido, gorros brancos na mesma direcção. Quando o autocarro vira e regressa à via principal, bombeiros, um cerco policial a controlar o momento, tapetes pousados no alcatrão, milhares de fiéis ajoelhados a rezar.

***

Despeço-me de Xining numa mesa tibetana e já com o Carlos. De comboio são 17 horas até Urumqi, capital de Xinjiang. Três polícias aparecem na carruagem, para onde vamos, por que razão, qual o nosso roteiro, questionam, enquanto revistam mochila, telemóvel. Um homem segue no nosso compartimento. Isto não é contra vocês, mas pela vossa segurança, diz.
Essa é outra viagem.

*jornalista

 

One thought on “Do alto de Xining

  1. António Graça de Abreu diz:

    Muito bem, Catarina! Tem de publicar esses textos em livro. Vou-lhe enviar os meus escritos sobre Xining e o lago Qinghai, quando da minha estadia em 2013. Não esqueça que o actual Dalai Lama nasceu a 70 quilómetros de Xining e estudou no fabuloso mosteiro de Ta’er, ou Kumbum, em tibetano, mesmo aí ao lado.

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