Congresso Mundial traz à luz filosofia chinesa

vítor quintã    Vítor Quintã*

À 24ª edição, o Congresso Mundial de Filosofia viaja pela primeira vez até à China, este Verão. Entre 13 e 20 de Agosto, Pequim vai tornar-se a capital mundial da filosofia, graças a um evento que só se realiza de cinco em cinco anos, e que desta vez vai abordar o tema “Aprender a ser humano”.
Para a presidente da Fundação Sinológica de Hong Kong, a conquista por parte da China da organização do maior evento filosófico do mundo é “muito significativa”. Elizabeth Li Woo acredita que a realização do congresso em Pequim é um marco no reconhecimento da importância do pensamento chinês a nível mundial.
E a fundação quer aproveitar a ocasião para plantar sementes, através da realização do Programa de Verão em Estudos Chineses, que começa a 20 de Julho, passa também por Macau e termina a 17 de Agosto, em pleno Congresso Mundial de Filosofia. Durante 30 dias, os participantes – cujo número poderá chegar aos 30 – vão mergulhar em diferentes aspectos do pensamento chinês, desde o “I Ching” até à filosofia contemporânea.
“Vamos deixar as pessoas experimentar um pouco de tudo: budismo, legalismo, daoísmo,” explica Elizabeth Li. Afinal, sublinha a académica, ao contrário do estereótipo vigente no Ocidente, “não existe apenas um único pensamento chinês”. “A mente chinesa é complicada, composta de diferentes partes,” sublinha. “Confuciana por fora, daoista por dentro, legalista no trabalho, etc.”, resume ainda sem resistir a uma gargalhada.
Enquanto o Confucionismo gira em torno do ideal de um líder benevolente, o Daoísmo coloca a harmonia como o conceito vital, e o Legalismo apoia-se no poder das leis e da justiça. O Programa de Verão reflecte esta diversidade.
Por exemplo, a passagem por Macau, no dia 2 de Agosto, vai focar-se na filosofia da linguagem, uma vez que a linguística é algo em que a cidade é “muito boa,” diz a investigadora. De seguida, e até 11 de Agosto, os participantes seguem para Ling Jiou, uma montanha em Taiwan considerada sagrada, onde “vão experimentar o verdadeiro budismo”, promete Li, do vegetarianismo à meditação. Já em Pequim, será a vez da filosofia da ciência e contemporânea.

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Elisabeth Li Woo (à esquerda)

É sem surpresa que o programa do Congresso Mundial de Filosofia está repleto de referências ao pensamento chinês, a começar por análises comparativas entre “Ren”, a virtude altruísta do Confucionismo, e a filosofia africana do Ubuntu ou humanidade, passando ainda por palestras sobre pensadores chineses como Wang Yangming, um idealista que defendia que o ser humano sabe à nascença a diferença entre o bem e o mal.
A presidente da Fundação Sinológica confessa abertamente ter esperança que o Programa de Verão e o Congresso permitam “criar mais sinólogos, que podem vir de qualquer lado”. Tendo em conta a experiência de edições passadas deste programa, a investigadora espera por exemplo a inscrição de alguns brasileiros. No final de 30 dias intensivos a estudar a filosofia chinesa, os participantes terão de escolher um tema para explorarem em mais pormenor. Elizabeth Li acredita que muitos dos receios e preconceitos existentes em relação à China partem do desconhecimento da história intelectual do país. “Quem não entende de onde é que a China veio não pode entender porque é que a mente chinesa é tão impenetrável,” sublinha a investigadora.
Afinal, lembra a académica, “ainda hoje estamos a interpretar Confúcio”. Tal como a Bíblia, continua Li, “o I Ching é um livro clássico, que funciona como um espelho da pessoa que o lê e do período em que é interpretado”. “É isso que a China está a fazer agora com [o Presidente] Xi Jinping, a voltar aos clássicos,” defende.
Após a conquista do poder por parte do Partido Comunista Chinês, o Confucionismo foi visto como um símbolo do feudalismo e enfrentou uma verdadeira travessia do deserto. Só nos últimos anos, a começar pelo anterior presidente Hu Jintao, é que esta linha de pensamento tem gradualmente regressado à ribalta.
A crescente estatura internacional da China tem também permitido aos intelectuais combater visões menos informadas da filosofia chinesa e também do que foi a troca milenar de conhecimentos entre Oriente e Ocidente através da Rota da Seda. “Em que direcção é que circulou a ciência e tecnologia?” pergunta Elizabeth Li. Para a responsável, a imagem de uma Europa a deslumbrar a corte imperial chinesa com inovações científicas é errónea: “tudo foi criado através da interacção entre diferentes comunidades”. A investigadora questiona-se por exemplo se terão sido as cartas do missionário jesuíta Matteo Ricci a levar para o Ocidente a ideia do início do universo, que mais tarde se consolidou na teoria do Big Bang. “Agora já temos um estatuto que nos permite fazer esse tipo de perguntas,” conclui.

 * jornalista

Evento:
24.ª edição do Congresso Mundial de Filosofia
Local:
Universidade de Pequim
Data:
13-20/08/2018
Tema:
“Aprender a ser Humano”
Mais informações
Federação Internacional das Sociedades de Filosofia

 

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