Caber no excesso da leveza, ou a anorexia feminina chinesa

fernanda ramone

 

 

 

 

 

 

 

Fernanda Ramone*

O desenho dos traços que designa o feminino na China,  (yīn), também é significante para a lua, para a sombra, sensibilidade, intuição, técnica. Nublada, enigmática, misteriosa, obscura. Mulher.
Uma mulher chinesa precisa de caber numa mentalidade coletivista, que enfatiza a obrigação para com a família, a subordinação aos homens e precisa de reconhecer a importância de manter a harmonia social, porque são estes os valores confucionistas segundo os quais a sua sociedade está organizada.
Uma mulher que também pode ser lua e sombra se faz muitas vezes eclipse, fenômeno de desaparecer temporariamente. A China moderna, de rápido crescimento econômico, viu surgir um fenômeno tratado como recente no país, a anorexia 厌食症 (yànshí zhèng), “doença dos entediados em comer”, na sua tradução literal. 食 shí pode ser comer, comida, alimento e também pode ser eclipse.
A sombra em relação ao reconhecimento da “doença dos entediados em comer” como um distúrbio está inserida num contexto cuja tradição tem como cultura a dos banquetes, manifesta o entendimento das relações afetivas através da ingestão de iguarias e percebe com ressalva os desajustes, as perturbações, o mau funcionamento.
Neste contexto, distúrbio intimida por ser considerado obscuro. E como tal, as informações e estatísticas a respeito não são robustas e incluem também os homens.
Na China a anorexia é percebida muitas vezes como um desarranjo do estômago, uma indisposição alimentar ou variações entre estas e uma falta de apetite. Esta leitura está associada a uma parte da memória dos que se recordam das consequências do período da grande fome. E portanto, em tempos de considerada fartura, a leitura das consequências do impacto do processo que o crescimento econômico concatenou na população do país também é novo.

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“Uma mulher que também pode ser lua e sombra se faz muitas vezes eclipse”/ Foto: Catarina Domingues

O fato de nos padrões estéticos de beleza chinesa – assim como no ocidente – também se apreciarem as formas esguias é outro fator que influencia. Isto tanto nas cobranças inerentes aos desafios e expectativas, mas sobretudo em relação aos resultados que precisam de ser comprovados e cumpridos na mesma velocidade incessante com que o país se habituou a crescer, transformar, consumir e lidar agora com a cultura do sucesso pessoal.
A falta de percepção sobre a gravidade que a anorexia pode causar decorre do tabu em relação ao peso que os distúrbios – em especial os mentais – ainda causam na China.
Para caber no excesso da leveza, as mulheres chinesas já tiveram que equilibrar o peso nos pés amarrados, já foram opulentas, vestiram-se para a revolução, despiram-se para o único filho e desafiam sendo refugo.
O espaço e a atenção destinados ao assunto vão gradualmente aparecendo em fóruns de discussão e websites que se dedicam ao tema. Centros médicos para o tratamento e acompanhamento dos que já sofrem do distúrbio também.
De outro lado, adolescentes chinesas incentivando competições virtuais através de postagens e vídeos, que vão desde disputar o menor tamanho da cintura até a prática de filmar-se vomitando, ganham espaço nas redes.
Por trás de ambas as ocorrências há a existência feminina, o perceber-se e o existir entre sensibilidade, intuição, técnica e o mistério enigmático do ser e se fazer caber mulher.

 

*curadora, produtora e jornalista cultural a viver no Rio de Janeiro

 

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