A História na Bagagem: Crónicas dos velhos hotéis de Macau.

joa%cc%83o-guedes_perfil

 

 

 


João Guedes*

A bibliografia de Macau tem muitos títulos imerecidamente ignorados. É certo que principalmente na década que antecedeu a transferência de soberania muito se escreveu sobre Macau. Muito se disse de interesse, mas pouco de verdadeiramente novo. Parece ter havido uma espécie de frenesim destinado a preencher lacunas que a história deixou. Mas esse frenesim não colmatou as omissões “deixadas pela história” como sói dizer-se actualmente e deixou pouca coisa de verdadeiro interesse. Naturalmente que entre o que se escreveu há obras de grande mérito.
Falo-lhe hoje de uma delas. Trata-se de “A História na Bagagem” de Luís Andrade de Sá. Se há livros imperdíveis um deles é este. A começar pelo título, esta história na bagagem é um retrato vivo de Macau desde finais do século XIX até ao segundo conflito mundial (1939 – 1945).
Luís Sá fala-nos aqui da história dos hotéis que foram um ex-líbris de Macau durante muitas décadas, marcando indelevelmente a fisionomia da cidade. O Hotel Bela Vista, que começou por ser destinado a albergar os oficiais convalescentes do exército de campanha francês em comissão de serviço na Indochina é hoje a residência do cônsul-geral de Portugal em Macau.
O Hotel Riviera. Era um nome lendário em Macau, onde estiveram hospedados algumas das grandes figuras da política, da arte e da literatura mundiais. Ficava, onde hoje está situada a dependência da Av. Almeida Ribeiro do Banco da China, na esquina com a rua da Praia Grande, que foi deitado abaixo precisamente para dar lugar a este banco, que na altura tinha o nome de “Nam Tung”. Ali esteve também hospedado o poeta Camilo Pessanha quando chegou a Macau e a vida no seu interior reflectia o cosmopolitismo da cidade onde gente oriunda dos cinco continentes se cruzava no restaurante do rés-do-chão. A inteligência local e estrangeira reuniu-se ali durante mais de 60 anos, deixando histórias interessantíssimas de um quotidiano que mudaria radicalmente a partir dos anos 70 com a inauguração do Hotel Lisboa concebido numa arquitectura inconfundível que viria a produzir sui generis impressão indelével no recorte da paisagem e a alterar também usos e costumes.
Outro dos hotéis lendários é o Central. Durante muitas décadas foi o edifício mais alto de Macau, com os seus imponentes dez andares de pé alto. O apogeu deste hotel ocorreu durante a “Guerra do Pacífico” quando nos seus quartos, salões, bares restaurantes e clubes nocturnos se encontravam e desencontravam os militares japoneses do exército ocupante do Sul da China, os refugiados franceses, ingleses, americanos e de não sei quantas outras nacionalidades. Mais aventureiros, mercenários, deserdados de todo o género e, claro, polícias funcionários e paisanos locais que ali gastavam noites.
As histórias do Hotel Central poderiam muito bem ter servido de fonte de inspiração para Ian Fleming na criação do seu James Bond, se o acaso quisesse que o escritor inglês ali se tivesse hospedado também. Não se sabe se lá teria estado ou não.
Algumas desses enredos que fizeram o imaginário ocidental sobre Macau do século XX conta-nos Luís Sá neste livro, numa escrita viva alegre e particularmente impressiva. Aliás neste livro a sugestão é maior do que a realidade, diz o autor, que acrescenta que os protagonistas da sua “biografia” pareceram sempre mais do que foram. O problema portanto, acrescenta, é o do nosso referente cinematográfico e literário que sugere Bogart no Bela Vista, Scott Fitzgerald no Riviera, Spielberg no Central e uma bravata filmada durante a revolução cultural no Kuok Chai.
“Nada disso. Houve paixão, crime, ódio e romance nos hotéis, embora nas proporções de Macau”.
Ler a História na Bagagem é ficar a saber através das pequenas histórias um pouco do que Macau foi, desde os finais do século XIX. Isto mesmo afirma Luís Sá que sublinha que os hotéis foram apenas pretexto para contar outras coisas, “porque os hotéis, afinal, têm muito pouco que contar.
Luís Sá foi jornalista e editor na agência portuguesa de notícias Lusa. Durante alguns anos trabalhou em televisão na Teledifusão de Macau (TDM) e colaborou em vários jornais. Antes de ter vivido em Macau Luís Sá teve também uma breve experiência como editor livreiro em Portugal em finais da década de 1970.
Outro livro que vale a pena ler deste autor chama-se “The Boys from Macau, Os Portugueses em Hong Kong”. Trata-se de um livro algo semelhante à “História na Bagagem”, que tal como este se lê um pouco como uma novela e também de um fôlego.

CAPA* jornalista e historiador

 

 

 

Sobre a obra:

Título: A história na bagagem: Crónicas dos Velhos Hotéis de Macau.
Autor: Luís Andrade de Sá
Capa: António Andrade
Edição: Instituto Cultural de Macau /Maio 1989

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s