Taxinomia de sobrevivência ou o sistema de crédito social chinês

fernanda ramone

 

 

 

 

 

 

 

Fernanda Ramone*

A taxinomia de sobrevivência dos chineses possui códigos sociais de ordem pragmática e de base confucionista para facilitar as miudezas inerentes da convivência harmônica milenar. Existe uma gama de variações de neutralidades aplicadas no trato social cotidiano que garantem o equilíbrio entre as interlocuções de modo cortês. Como é o caso da resposta dada à pergunta sobre o estado de ânimo de alguém no momento em que duas pessoas se encontram.
Na China as variações são, em geral, neutras. Estão sempre às voltas com o “hai keyi” (还可以), o vulgo assim-assim, que contém a medida do equilíbrio de respeito pelo outro. Pelo estado do outro que a mim é desconhecido e, portanto, para não influenciar negativamente ou positivamente o interlocutor ofereço-lhe a minha melhor inércia, a ação de reagir apenas após perceber em que lugar o outro se encontra.
Ao menos em países lusófonos, a praxe difere entre o sim, tudo a correr bem, narrados em detalhes eloquentes de entusiasmo. Na hipótese contrária, inicia-se uma lamuriosa descrição das dores, sofrimentos, mazelas e moléstias com pormenores maiores de detalhes. Há também a resposta pontual, a dizer que se está bem. E ainda a resposta pelo mais ou menos, que sempre se pode desenvolver para as variações de euforia ou melancolia.
Dá-se logo no mais básico encontro com a China o contato entre nossas diferenças sem que necessariamente se perceba bem onde. O mal não está em não perceber, está na tendência a fazer uso de parâmetros próprios que ao outro não se aplica. Identificamos um asiático pela característica dos olhos puxados, já um chinês considera o tamanho do nariz como fator determinante para diferenciar um ocidental.
Em tempos que antecedem a segunda fase da revolução tecnológica com o aprimoramento de realidades virtuais, inteligência artificial, robôs, bem como a maneira como nossos rastros digitais vêm sendo utilizados indiscriminadamente sem que tenhamos a consciência para qual propósito, por quem e as consequências deste acesso irrestrito ao universo Big Data, surge o “sistema de crédito social chinês”.
O sistema de crédito social pretende ser um ranking de pontuação para cada cidadão chinês, com base em avaliações binárias de acordo com a interpretação de suas ações. E a partir deste resultado ampliar ou limitar a presença e o acesso deste indivíduo a determinadas esferas e benefícios.
Em termos práticos, uma pessoa que se atrasa no pagamento de uma conta – independentemente dos motivos que a levaram ao não cumprimento em dia – terá uma avaliação negativa. Alguém que se atrasa para determinado compromisso também. O consumo frequente de um item específico na relação de compras mensais como o de fraldas ou cigarros indica que a pessoa possa ser progenitora ou fumante.
E assim toda e qualquer ação de cada indivíduo será classificado entre positivo ou negativo. Em função destas pontuações e preferências somam-se pontos e cria-se o perfil de cada cidadão de acordo com suas ações, escolhas, hábitos e comportamentos.
As recompensas são ofertadas tanto pela iniciativa pública como privada em formas de descontos, brindes, vantagens, acessos preferenciais, milhas e toda a sorte de premiação e benesses a que já estamos acostumados. Ou ao contrário, a restrição deste cidadão a círculos específicos.

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A China está a estudar a implementação de um sistema de créditos sociais que vai impor restrições àqueles que obtenham uma pontuação baixa.

O sistema de crédito social chinês é similar às práticas já utilizadas pelo facebook, por exemplo, com a diferença de ser um mecanismo explícito em relação ao uso dos dados. Não há subterfúgios apresentados em testes, jogos, curtidas, compartilhamentos e encenações para o acesso às informações dos usuários e a venda destas informações para quem quer que seja que se desconheça.
Há uma grande base de dados nacional de seus cidadãos e um ranking correspondente aos critérios próprios da taxinomia chinesa que já estão sendo testados de forma voluntária com previsão de ser implementada de forma irrestrita e mandatória até 2020.
Há quem seja favorável, há quem não seja. Entretanto é na realidade do existir e na forma como se apresenta que parece consistir a diferença da percepção do que já é prática entre ocidente e oriente.

*curadora, produtora e jornalista cultural a viver no Rio de Janeiro

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