Acorda-me às nove da manhã

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Han Lili*

“Acorda-me às nove da manhã” é o primeiro e talvez o último romance de A Yi. Isto porque o autor já manifestou publicamente que não ia escrever mais daqui em diante. Na realidade, o nome do romance tem origem numa entrevista que o escritor leu com Jorge Luís Borges. Borges referiu que ia escrever um conto intitulado “Acorda-me às nove da manhã”. No entanto, na lista de trabalhos do argentino, A Yi não encontrou esta obra, motivo pelo qual resolveu tomar de empréstimo o nome para o romance.

O livro traça uma imagem colectiva das aldeias e dos aldeões que estão a desaparecer, focando o relato na morte do protagonista – Ai Hong Yang. Tal como o escritor A Yi apura: “ao escrever este romance, gostava de repetir, na realidade, as minhas experiências rurais numa vez só. Quero apresentar dois temas: um é o desaparecimento das aldeias que existem na minha memória, o outro é o desaparecimento dos aldeões com características rurais. Quero escrever sobre uma figura festiva e lendária, cujas palavras tenham tido peso quando viveu e perdido autoridade quando morreu.”

Este romance, tal como as outras obras de A Yi, faz lembrar a crise do existencialismo, pois conseguimos sentir a intensidade da sua escrita, que apresenta a vida com representações e símbolos penetrando em dores reais. É uma escrita fria, de ritmo forte, que transmite sentimentos de hesitação, de desassossego e incerteza, simultaneamente profundos e realistas, com as cenas rurais vivas. Vejamos o comentário de A Yi ao recordar este processo de escrita:

Quando comecei a escrever tinha 32 anos. Senti-me como se estivesse a voltar para a infância. Confesso, sem a vida anterior, que foi bastante ambulante por décadas, sem medo de me assustar no fundo do coração, sem a menor luta e sem o desespero que tem vindo de vez em quando, talvez não possa escrever nada agora. (tradução da autora)

Em termos de narração, o romance começa com a morte do protagonista, Ai Hong Yang. Todas as descrições sobre o protagonista vêm dos relatos de outras pessoas. E as características do protagonista são igualmente salientadas através de outras personagens à sua volta. Com o desenrolar dos enredos, descobrimos que o protagonista é um analfabeto a quem falta amor, fé, lealdade e carinho. Recorrendo à violência e ao engano, ele estabelece o seu estatuto na aldeia – “reinado” sob o seu controlo.

De seguida, gostava de apresentar alguns parágrafos que descrevem as mulheres que rodeiam o protagonista, que ajudam a conhecer melhor esta figura rural. O autor não descreve a aparência destas mulheres. Ninguém sabe a altura, o peso, o tamanho dos olhos, o comprimento do cabelo, entre outros aspectos externos que lhes dão uma distinção física. No entanto, os seus comportamentos tornam-nas diferentes, chamando a atenção dos leitores. O autor valoriza o interior destas mulheres, que, por sua vez, apresentam sentimentos genuínos. Embora não ocupem um lugar significativo no romance, elas desempenham papeis dinâmicos em relação ao desenvolvimento das narrações, desvendando, igualmente, a brutalidade do protagonista em distorcer as suas personalidades.

Exemplo I – Jin Yan, amante do protagonista

Ele [Ai Hong Yang] está obviamente morto”, dizia Shi Ren [sobrinho do protagonista], que a [Jin Yan] estava sorrindo com más intenções nos últimos anos e agora deu-lhe uma bofetada no rosto. Da sua boca jorrou sangue com cheiro a sal, e ela [Jin Yan] riu-se de forma ridícula. Foi, por isso, pontapeada novamente e caiu no chão. Ela sentiu uma dor, ao cair no chão, como se uma porta lhe atingisse o rosto. “Se não fosse o facto de ser da casa de Hong Yang, matava-a já”, disse Shi Ren, esfregando as mãos. Ela ficou aliviada, com a meditação silenciosa da frase “se não/fosse o facto de/ ser da casa”, cheia, surpreendentemente, de gratidão. Deve dizer-se que que foi ela quem implorou essa pancada. Somente ao ser espancada daquela maneira, ela podia sentir-se amplamente alivada. Na sequência do castigo, sentiu que era perdoada, sentiu que se livrara da culpa do fundo do coração e que ninguém devia nada a ninguém. (tradução da autora)

O alívio que Jin Yan sentiu em relação à morte do protagonista veio de uma bofetada. A sua dependência da violência é como a dependência que sentia do protagonista, apesar deste estar já morto. Esta tortura física serve, em certo grau, como recompensa para a tortura mental que ela impõe à si própria, pois sentiu “culpa no fundo do coração”. A violência é um meio de libertar ressentimentos, deixa a violência fazer-se. Esta mentalidade distorcida prova-se pela expressão “cheia, surpreendentemente, de gratidão”.

Exemplo II – Jin Yan

Jin Yan está a passar o momento mais difícil da sua vida. (Cada um de nós tem algum tempo difícil para enfrentar. Perante esse medo, solidão, dificuldades, momento em que apenas o suicídio parece ser um alívio, rezamos repetitivamente ao grande tempo por acelerar a sua própria engrenagem para nos retirar do presente. Às vezes, como por exemplo agora, imaginamos que estamos no futuro, recordando, relaxados ou mesmo com um sorriso de prazer, o que se passou hoje: eu quase urinei, quase morri batendo com a cabeça contra a parede). De vez em quando, ela olhava para o profundo céu azul, surpreendida pela sua postura calma e indiferente. O chão enchia-se de fedor do álcool residual e este cheiro nauseante lembrou-lhe a véspera do carnaval de toda a aldeia. (tradução da autora)

Para Jin Yan, a morte do protagonista é como se tivesse caído do céu, porque acabara a sua dependência. Todavia, em vez de triste, ela tem mais medo da solidão, das dificuldades que acompanham o seu desespero. Tentou pensar no futuro, procurando um momento de alívio mental no mundo imaginário. Mas a realidade obriga-a a voltar à situação nauseante. Esta luta interna, vivida, foi um resultado triste, na sequência da morte de Ai Hong Yang.

Exemplo III – Shui Zhi, esposa do protagonista

Ela ia ficar sozinha para o resto da sua vida, para lidar com a miséria que a morte trouxera. Não buscava conforto de ninguém nem tinha intenção de consolar quem quer que fosse. Somente quando outros se juntavam, ela tocava as mãos deles como se fosse dar uma esmola. Foi expulsa de Yue Hua, onde casou há décadas, e foi para Ai Wan, onde ficava a casa dos seus pais. Nesta expulsão, ela só gastou o tempo de cozinhar uma refeição. Na qualidade de ex-esposa de Ai Hong Yang (ou sua esposa), Shui Zhi viveu, ao longo dos últimos dez anos sozinha nos subúrbios da aldeia de Ai Wan. Cuidava da sua própria casa e campos de arroz, cozinhava para si e vivia sozinha. Ia simplesmente ao pequeno supermercado da aldeia de Ai Wan ocasionalmente durante a noite, por necessidade de sobrevivência, para comprar sal, fósforos e sabão. Ao saber da morte de Hong Yang, sentiu repentinamente as inexplicáveis palpitações do coração, como se tivesse um coelho no peito que saltava loucamente de raiva. Pouco depois, o coelho desapareceu e voltou a sentir o vazio, em pânico. Por causa dessa explosão de palpitações do coração, ela fechou a porta, deitando-se na cama, chorando com autopiedade. (tradução da autora)

Trata-se de um parágrafo longo que descreve a esposa do protagonista – Shui Zhi, depois de ser informada da morte do marido. Shui Zhi, em vez de viver como esposa do protagonista, não tinha qualquer estatuto em casa nem prestígio, quando este ainda era vivo. Foi expulsa pelo marido e temia até comparecer na aldeia em que vivia o marido. A notícia da morte de Hong Yang despertou os seus nervos e sentimentos, que se apresentam fisicamente como as “inexplicáveis palpitações”. Mas, dentro de minutos, estas “palpitações” desapareceram e ela sentiu o “vazio em pânico”, pois todas as suas vergonhas nasceram com a morte do seu marido. Nada adianta celebrar estas vergonhas, nem pensar em vingança, possivelmente, pois a autopiedade voltou a ser uma nova tortura.

A partir dos exemplos acima referidos, já podemos vislumbrar que o autor molda sucessivamente as representações mentais destas mulheres, antecipando, portanto, as atitudes dos leitores relativamente a estas mulheres e ao protagonista Ai Hong Yang.

Termino com os comentários de Bei Dao e de Ge Fei em relação à escrita de A Yi.

No que diz respeito à minha leitura, A Yi é um dos melhores romancistas chineses nos últimos anos. Ele tem a mesma lealdade e entusiasmo na escrita que tem para a vida, o que deixa muitos escritores já famosos envergonhados – Bei Dao

Obviamente, existe uma incomparável densidade nos romances de A Yi que consegue, ao mesmo tempo, manter a clareza, fluência e natureza na sua escrita. As suas constantes tentativas de explorar novos territórios na narração são surpreendentes – Ge Fei

*Professora no Instituto Politécnico de Macau

(Revisão: Alda Mourão)

Sobre o autor:

A Yi, pseudónimo de Ai Guozhu, nasceu em 1976 e licenciou-se pela Escola de Polícia. Trabalhou como polícia, editor desportivo e editor literário de diversas revistas.romance de A Yi Foi galardoado pela revista “Literatura do Povo” (categoria: ficção) com oPrémio Pu Songling para Contos, bem como com o Prémio Lin Jinlan. As suas obras incluem contos (“Pássaro, já me viu “, “Histórias cinzas”, “Onde está a primavera?”), ficção (“Depois, o que devo fazer?”, “Jovens-Modelo”), ensaios (“O sol é feroz e tudo é fenomenal”), bem como romance (“Acorda-me às nove horas da manhã”). Com boa recepção no mercado de publicação, as suas obras começam a ser conhecidas e louvadas pelos média e pelos autores chineses.

 

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