Emancipação feminina adiada

vítor quintã

Vítor Quintã*

Na semana passada, a Polícia de Segurança Pública de Macau deteve um casal por suspeitar que a residente de 49 anos e um homem da China continental de 21 anos contraíram um casamento por conveniência. Mas o mais curioso é que a imprensa de língua chinesa aproveitou imediatamente para apelidar o jovem de 新鲜肉 (xīnxian ròu), que literalmente significa “carne fresca”.
Esta expressão é usada para descrever homens com aspecto jovem e muitas vezes andrógino. O exemplo mais óbvio são os grupos de música pop sul-coreanos, cujos membros aproveitaram a sua fama – entretanto restringida pelo Governo Central – para ganhar dinheiro fazendo publicidade a um pouco de tudo, de hambúrgueres a telemóveis. Esta onda levou mesmo à integração de vários chineses em bandas da chamada K-pop, que lançaram depois músicas em mandarim.
A popularidade da ‘carne fresca’ em parte reflecte a evolução cíclica do que é considerado belo. Quando eu cheguei a Macau há 10 anos, ainda se dizia que as mulheres chinesas preferiam os gordos, porque quem era rechonchudo era porque tinha dinheiro para comer bem. Hoje em dia as preferências estéticas impostas pela sociedade chinesa tornaram-se menos rígidas.
Mas quando li as notícias sobre este caso, a primeira ideia que me veio à cabeça é que este jovem poderia ter uma outra alcunha, 小奶狗 (xiǎo nǎi gǒu), que literalmente significa “um cachorro ainda a amamentar”. Uma expressão utilizada para relações em que uma mulher mais velha se dedica a moldar um homem mais novo, normalmente visto como ingénuo e inexperiente, de acordo com os seus caprichos.

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Dentro de três anos, o número de homens chineses em idade de casar será superior a 30 milhões ao número de mulheres da mesma faixa etária, segundo estudo. / Foto: Catarina Domingues

A rapidez com que estas designações se tornaram virais demonstra que na China também as mulheres urbanas modernas – e não apenas os homens – sentem liberdade suficiente para encarar o sexo oposto como um objecto de desejo sexual. Um sinal claro de emancipação de uma nova geração de chinesas, o que tem levado à proliferação de aplicações para telemóveis como o Tantan ou o Momo, destinadas não à busca da alma gémea, mas sim de sexo sem compromissos.
Por outro lado, esta emancipação sexual apenas foi possível como um efeito secundário inesperado da polémica política do filho único, implementada pelo Partido Comunista Chinês em 1979 para travar o rápido crescimento populacional. As restrições ao nascimento de segundo filho foram sendo gradualmente diluídas a partir de 2015, mas nessa altura o mal já estava feito.
Em 2020 o número de homens chineses em idade de casar será superior em 30 milhões ao número de mulheres da mesma faixa etária, prevê um estudo da Universidade Nacional da Austrália. O resultado bizarro de décadas de abortos selectivos feitos por casais desesperados por ter um filho – e não uma filha – que pudesse continuar o nome da família e ajudá-los na sua velhice, num país onde, mesmo hoje, o sistema de segurança social permanece embrionário.
Este desequilíbrio sente-se de forma mais acentuada nas zonas rurais, onde a falta de mulheres tem mesmo levado ao surgimento de redes de tráfico de noivas vindas de países como a Coreia do Norte, o Vietname, o Laos e o Camboja. Mas mesmo nas cidades as famílias têm-se visto obrigadas a poupar durante décadas, ou a contrair empréstimos, para garantir que os seus filhos têm bens materiais suficiente – uma casa e um carro – que lhes permitam atrair uma esposa. No espaço de uma geração, as filhas deixaram de ser indesejadas para se tornarem um bem valioso na estrutura social.
Mas nem este volte-face fez com que a China deixasse de ser uma sociedade machista. O país onde, como disse Mao Zedong em 1968, “as mulheres sustentam metade dos céus”, nunca passou das palavras no que toca à igualdade de género. A pressão continua para que elas aceitem o papel antiquado de doméstica subserviente aos desejos dos homens.
Recentemente, no dia 14 de Janeiro, houve um sinal de esperança, quando o movimento #MeToo chegou à China e levou à demissão de um professor da Universidade de Beihang, acusado de assédio sexual. Uma semana mais tarde, mais de 50 académicos assinaram uma petição a pedir novas regras para combater o assédio sexual nos campos universitários. No entanto, uma marcha planeada para o mesmo dia entre a Universidade de Beihang e a Universidade de Comércio e Economia Internacional – uma outra instituição de Pequim que tem também um professor acusado de assédio – foi cancelada pelos organizadores. As universidades avisaram os alunos para não participarem na marcha e esquecerem o assunto. Também na Internet a máquina de censura do Partido Comunista começou a apagar os artigos de apoio ao movimento #MeToo. Em 2016 a Associação Chinesa de Planeamento Familiar revelou que uma em cada três estudantes universitárias tinha sofrido assédio ou mesmo abuso sexual. Mas o Governo Central rapidamente decidiu que esta epidemia moral não era suficiente para tolerar qualquer sinal de discórdia. Sobretudo vindo de mulheres.

 

 

* Jornalista

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