Rota das Letras: Ásia em língua inglesa

O Festival Literário de Macau – Rota das Letras aposta este ano na presença de autores de língua inglesa que escrevem sobre a Ásia. “Queríamos trazer a Macau autores que representassem olhares exteriores em relação a estas realidades”, diz Hélder Beja, director de programação do festival.

Catarina Domingues

A ligação de Peter Hessler à China data dos anos 1990 e está contada em quatro obras. O escritor norte-americano, também conhecido pelo nome chinês de Hé Wéi (何伟), viveu ao longo de dois anos em Fuling, à beira do rio Yangtzé. Esta pequena cidade, situada no município de Chongqing, foi afectada pela construção da Barragem das Três Gargantas e inspirou a primeira obra do autor, River Town: Two Years on the Yangtze.
A Fuling seguiu-se Pequim, onde Hessler trabalhou como correspondente da revista The New Yorker. Ao longo dos 11 anos que viveu no país, publicou ainda Oracle Bones, onde cabe a história do arqueologista Chen Mengjia, que se suicidou durante a Revolução Cultural; Country Driving, testemunho das viagens de Hessler pela China rural e industrial num carro alugado; e Strange Stones: Dispatches from East and West, uma colecção de histórias de pessoas e vidas comuns.
Testemunhos que em breve poderão ser partilhados em Macau, onde o autor vai participar no Festival Literário de Macau – Rota das Letras, que decorre este ano entre os dias 10 e 25 de Março.
“O Peter é em termos dos autores em língua inglesa uma das vozes mais interessantes no contexto actual, viveu muitos anos na China, domina a cultura e a língua e interessa-se por questões que são muitos caras ao festival, que são questões sociais”, nota Hélder Beja, director de programação do festival literário, dando o exemplo das “questões ecológicas” desenvolvidas na obra de Hessler sobre o rio Yangtzé.
Ao EXTRAMUROS, Hélder Beja revela ainda que um dos momentos da sétima edição do evento literário será também a presença do jornalista e autor britânico Victor Mallet, profundo conhecedor da realidade asiática e autor de Ganges River of Life, River of Death: The Ganges and Future. “Um dos momentos do festival é olhar esses dois países, a Índia e a China, através desses grandes dois fluxos de água [Yangtzé e Ganges]”, salienta Beja, referindo ainda que, este ano, o festival destaca a presença de autores de língua inglesa que escrevem sobre a Ásia. “Queríamos trazer a Macau autores que representassem olhares exteriores em relação a estas realidades”.
Um desses olhares pertence à jornalista sino-americana Leslie T. Chang, casada com Peter Hessler e que tem passado para o papel temas como a “questão feminina e a relação das mulheres no trabalho”. Chang nasceu nos Estados Unidos e viveu ao longo de uma década na China, onde foi correspondente do The Wall Street Journal. Em Factory Girls: From Village to City in a Changing China, a autora acompanha a vida de duas jovens oriundas de uma zona rural chinesa, que trabalham numa fábrica no sul do país. O livro, traduzido em dez línguas, foi distinguido com o The New York Times Notable Book.

Peter Hessler-Profile Photo (1)

Peter Hessler

Olhares interiores

“Também teremos na mesa olhares interiores”, realça ainda Hélder Beja ao EXTRAMUROS, destacando a presença em Macau do romancista, poeta e realizador Han Dong. Natural de Nanjing, o escritor chinês já assinou mais de 40 romances, colectâneas de contos, de poesia e de ensaios, bem como séries para televisão. Entre os trabalhos mais recentes de Han, encontra-se o romance Love and Life (Happy and Secret), o livro de poesia They e a peça de teatro Aspersions. Banished, publicado em 2003, foi nomeado para o Prémio Literário Man Asian em 2008.
A Yi é outro dos nomes chineses que se vai juntar ao Rota das Letras 2018. Antigo agente policial, criou uma série de colectâneas de contos – Grey Stories, The Bird Saw Me e Where is the spring – e escreveu o romance A Perfect Crime.
Já Chan Ho Kei, oriundo da vizinha Hong Kong, estreou-se na literatura em 2008 com o conto The Murder Case of Jack and the Beanstalk, nomeado para o Prémio de Escritores de Policiais de Taiwan. Autor conceituado de thrillers, publicou em 2011 o romance The Man Who Sold the World e em 2014 The Borrowed, obra que vai ser adaptada ao cinema pelo realizador Wong Kar-wai.

Coreia do Norte em destaque

Não é a primeira vez que a Coreia do Norte (ou a literatura sobre o país) é tema de um painel do Rota das Letras. Em 2016, Adam Johnson, prémio Pulitzer e autor de The Orphan Master’s Son (2012), que apresenta um retrato da Coreia do Norte, esteve em Macau. Hélder Beja considera que raros têm sido os eventos literários a juntar “tantos autores” ligados ao tema e que o Festival Literário de Macau quer fazê-lo.HyeonseoLee
“Achamos que é uma das questões centrais do mundo contemporâneo e estando nós tao próximos da península coreana achamos que fazia sentido puxar esse tema para o centro da conversa e discussão”, defende.
Entre os convidados, está a norte-coreana Hyeonseo Lee, activista dos direitos humanos e dissidente que caminhou com a família através da China e do Laos em direcção à liberdade. Jovem líder no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, a autora é licenciada em inglês e chinês pela Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, em Seul, e faz campanha pelos refugiados e pelos direitos humanos dos norte-coreanos. 
Já Suki Kim, que escreveu The Interpreter, nasceu em Seul e vive nos Estados Unidos desde os 13 anos. Em 2011, mudou-se para a Coreia do Norte para ensinar inglês a crianças das elites, transformando estas experiências num livro: Without You, There Is No Us. “A Coreia do Norte é conhecida pela sua reclusão e a história de Suki dá-nos um raro vislumbre para uma nação silenciada. As suas conversas partilham detalhes das suas experiências – que são, em igual medida, arrepiantes, surreais e cativantes – sob o olhar atento do regime”, refere num comunicado a organização do Festival Literário de Macau.
O norte-americano James Church, autor da série Inspector O, foi durante anos agente dos serviços secretos e está há várias décadas ligado à península coreana. Já o britânico Michael Breen vive na Coreia do Sul há 30 anos. Foi correspondente em Seul para o The Guardian e o Washington Times durante vários anos. Assinou as seguintes obras: The Koreans: Who They Are, What They Want, Where Their Future Lie; Kim Jong-il: North Korea’s Dear Leader e The New Koreans: The Story of a Nation.
Este ano, o Rota das Letras vai trazer a Macau mais de 50 autores. A lista completa de convidados e o programa da sétima edição do festival vai ser apresentado no início de Fevereiro. Pode ir acompanhando as novidades na página de facebook ou no website do Rota das Letras.

Sobre o Festival:
O Festival Literário de Macau – Rota das Letras foi fundado em 2012 pelo jornal
local Ponto Final e junta todos os anos dezenas de escritores, editores,
tradutores, jornalistas, músicos, cineastas e artistas plásticos de diversas geografias
e nacionalidades. Trata-se do “maior encontro de literatos da China e dos Países de Língua Portuguesa alguma vez organizado no mundo”, pode ler-se num comunicado da organização.

Relacionados:

Pode ler aqui o que escrevemos sobre a edição do Festival Literário de Macau do ano passado.

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