É difícil aprender chinês?

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Cheong Kin Man*
(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

Antes de conhecer a minha mulher belga, nunca me tinha interessado pela questão da dificuldade de aprendizagem de uma língua. Se tivesse de fabricar uma teoria simplista da coisa, fundamentaria esta dificuldade com o ambiente, as condições de aprendizagem e, sobretudo, com a vontade de quem quer aprender. Mas o contacto permanente com amigos sinólogos europeus e, em especial, a vida com a minha mulher Mathilde, têm vindo a tornar esta questão num assunto muito intrigante para mim.

Para ser preciso: neste artigo vou falar – e em consonância com o discurso oficial da República Popular da China e da habitual forma de falar em Macau e Hong Kong – da língua chinesa. Esta inclui o “chinês moderno padrão” – o mandarim como “língua geral” ou “comum” da China (o pu-tong-hua) ou oficialmente a “língua nacional” em Taiwan – o cantonês e também todos os outros dialectos que “não se escrevem”. É claro que prefiro uma das teorias dos nossos antigos sinólogos intérpretes macaenses do velho tempo colonial: o cantonês era de facto o chinês, enquanto o mandarim um dialecto de Pequim.

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Foto: Cheong Kin Man

Ao contrário de todos os meus amigos sinólogos, a Mathilde está a aprender “chinês” (中文 chong-man) como quando eu era mais jovem. Começou por aprender a pronunciar palavras simples e essenciais em cantonês “padrão” – o de Hong Kong e, ainda para muitos, o de Cantão – porque tinha interesse na cultura e também por forma a poder comunicar com a minha mãe e, depois, com outras pessoas. O meu pai fala cantonês sem sotaque, embora pronuncie muitas palavras com algumas particularidades da sua língua materna: o subdialecto cantonense de Shekki (oficialmente Shiqi, pronunciado Xetchi em mandarim), que tem muita influência do fuqui(e)nense. A Mathilde também está a aprender a lógica e o vocabulário básico dos “falsos amigos” do Shekki, para que consiga compreender melhor o meu pai e a família dele, que vive em Zhongshan, cidade natal do Dr. Sun Yat-sen.

O falecido sinólogo jesuíta português Joaquim Guerra juntou num sistema fonético os caracteres chineses, combinando vários dos dialectos principais. O “chinês alfabético” que ele criou reagrupa a romanização fonética dos milhares de caracteres que ele misturava como se as enormes diferenças entre os “dialectos” chineses não existissem mais: o xangainense, o fuquinense, o hac-ka (hakka), o cantonês e, naturalmente, o mandarim. Para compreender um pouco melhor estas diferenças entre estes falares e também o mandarim, damos aqui alguns exemplos:

Há dez anos vi em Coimbra o filme Sedução, Conspiração de Ang Lee. Tive que ler as legendas em português para compreender o mexerico das damas de Xangai no filme.
É raríssimo o empréstimo linguístico do fuquinense para o cantonês em termos fonéticos. Pessoalmente só conheço a palavra kway-teow 粿條 gué-tiâo, que é um tipo de tagliatelle de arroz tipicamente fuquinense e de Chio Chao (Shiu-Chow ou Teochew). Em cantonês transcrevemos esta palavra foneticamente como 貴刁 kuai-tio, em vez de emprestar os caracteres, como é habitual. Ao contrário do fuquinense na Malásia ou Singapura, em Macau e Hong Kong esta é uma língua pouco conhecida entre os falantes do cantonês como língua materna, embora ela tenha uma estrutura gramatical muito próxima do cantonês arcaico.
Aprendo o hac-ka com imenso prazer porque em termos fonéticos e gramaticais é mais semelhante ao cantonês. Um pouco como o italiano em relação ao português.
A distância entre o mandarim e o cantonês é comparável àquela que existe entre o francês e o português. Até aos “anos dourados” 80 e 90 da cultura pop de Hong Kong, a importância internacional que o cantonês tinha na cultura pop não era inferior à do mandarim.
O sistema inventado pelo Padre Guerra, segundo o qual o chinês seria foneticamente unificado, evoca o facto de os caracteres de origem chinesa constituírem acima de tudo uma língua baseada no visual. O chinês, em princípio, não é um idioma fonético como a maioria das línguas no mundo e a sua escrita pode ser pronunciada de mil maneiras. Isso tem uma lógica totalmente diferente das línguas europeias que são baseadas no som, ou seja, são línguas fonéticas. As línguas do mundo confucionista e as europeias representam dois universos totalmente diferentes – oriental e ocidental – e cada um deles é válido à sua maneira. Aprender uma língua com uma lógica tão diferente e tão distante é difícil.

O chinês clássico escrito era uma língua muito elitista, quase exclusiva de governantes e eruditos, que unificava um mundo cultural tão vasto em termos linguísticos. Este apresentava-se assim separado dos falares das populações. O mandarim, embora tivesse o privilégio de ser a língua da capital imperial, não era ainda imposto a nível nacional, porque não era necessário, já que o chinês clássico escrito cumpria a função de unificação tanto política como cultural. No entanto, mesmo antes da implantação da república e até aos dias de hoje, o mandarim começou a ser – e ainda está a ser – oficializado como língua nacional chinesa. Com os movimentos de abolição do chinês clássico escrito, numa acção de modernização no início do século XX, o mandarim foi escolhido para unificar a expressão escrita do país, substituindo o chinês clássico escrito.

“Ler livros, em voz alta”, 讀書, tok-sü em cantonês ou du-shu (du-chu) em mandarim significa “estudar”. Agora uma questão: de que forma é que se pode estudar (ou melhor, recitar) os Analectos de Confúcio? Ao longo dos séculos, os mesmos textos eram recitados pelos chineses segundo a pronúncia dos seus próprios falares, que hoje designamos de dialectos – à semelhança de como os japoneses, coreanos e vietnamitas liam os clássicos chineses.

Ora, este é o caso do chinês escrito em Macau e Hong Kong. Quando andava na escola, em Macau, aprendia o mandarim escrito, mas pronunciado em cantonês. Foi assim pelo menos até à minha geração. Chamamos a este “chinês escrito” de “língua escrita” ou, menos comummente, de “escrita nacional”. Assim, o mandarim escrito substitui o cantonês porque o último é só um dialecto, segundo o discurso oficial chinês e também o discutível consenso académico.

Até aqui, tenho fugido à questão sobre a dificuldade de aprendizagem do “chinês”. Sinto-me de facto incapaz de dar uma resposta sem fazer generalizações. Para mim, comunicar em mandarim, que não está hoje apenas padronizado e homogeneizado, mas também largamente simplificado e ocidentalizado, não me parece demasiado difícil, mesmo a um nível profissional. O que é difícil é aprender toda aquela língua chinesa, múltipla e associada a uma história multimilenária. Múltipla com os seus registos variadíssimos em função das ocasiões ou das classes ou hierarquias sociais, múltipla uma vez que se encontra ainda – felizmente – mergulhada num mar a que chamamos “dialectos”.

Mas na minha modesta opinião, não é isso que parece o mais difícil. O falecido sinólogo belgo-australiano Pierre Ryckmans, mais conhecido sob o pseudónimo de Simon Leys, dizia que “a China é o outro absoluto”. O que era mais difícil, ou melhor dizendo, mais precioso, era justamente imergir-se num outro mundo e numa outra maneira de pensar inteiramente diferentes. Este mundo funcionava, pelo menos até à sua radical modernização no século passado, de uma outra forma totalmente independente e, utilizando as palavras de Ryckmans, “totalmente completa… tal como o ocidente [é independente e completo]”.

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual na Universidade Livre de Berlim e realizador de “Uma Ficção Inútil” (2015) . Mathilde Denison, artista de formação, estuda Sinologia na mesma universidade. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

Foto do autor: Sadaf Javdani

 

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