As impagáveis estrelas da Internet

vítor quintã

Vítor Quintã*

A última edição do Macau Shopping Festival teve mais uma vez um rosto bem conhecido para promover o evento. Mas desta vez a organização não convidou uma estrela do Cantopop de Hong Kong ou do cinema chinês. A embaixadora desta edição do festival foi Becky Li, uma das mais influentes bloggers de moda da China continental, que tem mais de cinco milhões de seguidores, com mais de 300 mil pessoas a lerem os seus artigos, em média, por dia.
Becky Li começou por partilhar pechinchas nas redes sociais chinesas, mas precisou apenas de alguns anos para chegar ao ponto de lançar no passado dia 19 de Dezembro a sua própria colecção de moda, que esgotou em somente três horas. Para quem vive fora da China, é difícil imaginar o poder que as redes sociais como o WeChat ou a Sina Weibo têm no continente, onde o Facebook, o Twitter, e recentemente o WhatsApp, estão bloqueados. Afinal, mesmo uma celebridade mundial como o futebolista português Cristiano Ronaldo tem 155 milhões de fãs no Facebook, mas apenas 1,4 milhões de Chineses a segui-lo na plataforma Sina Weibo.
Ainda assim, o impacto que as redes sociais têm na China é amplificado pela timidez dos inimigos tradicionais, a televisão e o cinema. As autoridades têm um receio desmedido do pequeno e do grande ecrãs e, por isso, impõem o conceito de “entretenimento saudável”.

macau shopping festival

Becky Li / Foto: Turismo de Macau

O governo de Xi Jinping tem ciclicamente banido novas vagas de programas considerados pouco saudáveis, como concursos que permitiam aos telespectadores votar no seu cantor favorito ou ‘reality shows’ que prometem mudar a vida a solteiros solitários.
O pico do conservadorismo social aconteceu em 2015, quando uma popular série de televisão sobre a única imperatriz na longa história da China, Wu Zetian, foi retirada do ar durante várias semanas para que os produtores pudessem tapar os generosos decotes das actrizes.
Também o cinema tem sofrido, com o filme “Juventude” do célebre realizador Feng Xiaogang – conhecido como o Spielberg chinês – a ser retirado das salas de teatro em Setembro, poucos dias antes da estreia.
O filme, que lida com períodos sensíveis da história chinês como a Revolução Cultural e a Guerra Sino-Vietnamita, estreou finalmente no mês passado, após ter assentado o pó da mais importante reunião do Partido Comunista Chinês nos últimos cinco anos.
Com os média esterilizados a tal ponto, as redes sociais tornaram-se a principal válvula de escape dos chineses e um espaço de maior liberdade, onde até a literatura moderadamente crítica tem conseguido florescer e dar lucro.
Mais de 350 milhões de Chineses regularmente lêem livros electrónicos e a maior empresa do sector, China Literature Ltd, foi avaliada em 1,1 mil milhões de dólares norte-americanos quando entrou na bolsa de valores de Hong Kong em Novembro passado.
A popularidade desta literatura obrigou mesmo a televisão e o cinema a gastar milhões a comprar as mais histórias mais lidas. Aliás, “The Journey of Flower,” a primeira série de televisão a ser vista mais de 20 mil milhões de vezes, nasceu de um romance electrónico de fantasia e artes marciais.
A ascensão das celebridades na Internet cria um desafio ao Partido Comunista, que se habitou a ser a voz dominante no espaço público e a escolher quem tinha direito ao estrelato, por exemplo excluindo actores de Hong Kong e Taiwan críticos do regime de Pequim.
O governo tem facilmente mantido os média livres de qualquer crítica social ou política menos oportuna, graças à subserviência das empresas de telecomunicações. Aliás, no caso das redes sociais, os algoritmos impedem logo à partida a publicação de certo conteúdo.
E ao contrário de outros regimes autoritários, os censores chineses têm acompanhado a evolução da sátira. Por exemplo, em Julho passado Winnie the Pooh foi banida das redes sociais após bloggers terem começado a comparar a personagem de animação ao rotundo Presidente Xi Jinping.
Mas como censurar uma celebridade que apenas vende malas de luxo? Neste ambiente austero, aliás, o consumismo deu à classe média uma nova voz. E ela está cada vez mais disposta a queixar-se quando vêm a sua liberdade de compra limitada, mesmo que seja pelo governo.
O Partido Comunista tem-se visto forçado a um estranho malabarismo. Por um lado, é essencial manter a fachada ideológica de “socialismo com características chinesas” para justificar o paradoxo entre a teoria marxista e a gritante desigualdade sobretudo visível nas grandes cidades.
Por outro lado, a realidade obriga a que o governo encoraje a população chinesa, moldada por décadas de pobreza e instabilidade a poupar ao extremo, a comprar mais, algo essencial para tornar a economia do país sustentável a longo prazo.
Dois objectivos cuja convivência é sempre pouco confortável, como denota a campanha anti-ostentação lançada por Xi Jinping em 2013, que mais tarde seria um dos factores da queda prolongada das receitas dos casinos de Macau.
Resta agora saber como o Partido Comunista, cujo colapso foi tantas vezes anunciado e nunca concretizado, vai conseguir manobrar entre a ascensão do consumidor e a moralidade quase ascética imposta na vida pública.

* jornalista

 

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