PORTUGAL NO TECTO DO MUNDO

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João Guedes*

Por estranho que hoje possa parecer, a verdade é que antigamente era bem mais fácil desbravar mundo por mar do que por terra. Portugal é disso exemplo. Isto porque ainda na primeira década do século XX era bem mais fácil – senão mesmo mais rápido – viajar a bordo do vapor que fazia a carreira entre Lisboa e Porto do que pôr o pé no estribo da diligência que, desde não muito antes, tinha começado a perfazer, aos solavancos e por etapas, os trezentos e tal quilómetros que separam a capital de Portugal da sua segunda cidade. Um trajecto no qual os viandantes, para além de terem de enfrentar o incómodo dos buracos no macadame, se arriscavam aos frequentes maus encontros com as quadrilhas de ladrões que assolavam a então “estrada real número 1”. Se o panorama de insegurança terrestre e maus caminhos era assim como acabei de dizer no limiar do século XX, pode imaginar-se o que era o mundo viageiro em tempos mais remotos.
Pode dizer-se que, apesar de todos os perigos – e não eram poucos – a verdade é que ir por mar até à Índia, empresa a que Portugal se propôs no “tempo das descobertas”, era projecto exequível. Chegar lá por terra era assunto resolvido à partida, ou seja impossível.
Só tendo em conta tudo o que disse é possível avaliar o grau de temeridade que levou o padre jesuíta António de Andrade a atrever-se a ir a pé ao “Tecto do Mundo” e descobrir o Tibete, país que a Europa então nem sequer sabia que existia. A proeza foi tanto mais extraordinária quanto o padre não levava consigo nem armas nem guardas que o protegessem dos perigos. De facto consigo levava apenas e literalmente a fé que tinha em Deus.
O relato desta história, apesar de ser a todos os títulos extraordinário, acabaria por desaparecer no pó dos arquivos da Companhia de Jesus, em Roma, sem que ninguém lhe desse atenção alguma. Assim o assunto ficou no olvido, bem como o protagonista da aventura. Isto até que, séculos depois, outro jesuíta foi vasculhar nas gavetas do Vaticano e encontrou o fabuloso manuscrito da descoberta do Tibete da autoria do seu confrade do século XVII.
Quem meteu ombros à tarefa de dar à estampa as cartas de Andrade foi o Padre Videira Pires. Missionário jesuíta natural de Freixo de Espada à Cinta, Videira Pires veio para Macau pouco depois de terminada a Guerra do Pacífico na segunda metade da década de 40 do século XX. Aqui dedicou-se ao ensino e deixou marca na poesia local com vários livros publicados, mas levou a cabo também importantes estudos históricos sobre o território, que foram publicados no “Boletim da Diocese de Macau”.
No que toca ao Tibete, o seu estudo seria publicado em livro pelo Instituto Cultural de Macau em 1988 sob o título “Portugal no Tecto do Mundo”. Este livro que Videira Pires complementa com um pouco da história das missões jesuítas no Tibete – que acabariam por desaparecer ingloriamente – é de leitura obrigatória para quem queira saber alguma coisa sobre a expansão de Portugal por terras do fim do mundo. Uma odisseia desconhecida em que os “adamastores” eram outros e que passou ao lado da pena do grande vate que nunca ouviu falar dela.
Sem poeta para cantar da terra o que Camões cantou do mar, esta saga, que não era menor do que a outra, perdeu-se por completo da memória dos homens bem como o duplo feito de António de Andrade que, partindo da cidade de Srinagar, no Norte da Índia, descobriu a nascente do sagrado rio Ganges ao mesmo tempo que encontrava o mítico Tibete, reino do “budismo tantra”. Foi uma marcha excruciante a do padre, entre as neves eternas dos Himalaias. Uma ascensão até aos cinco mil metros de altitude através de desfiladeiros gelados, dormindo ao relento sobre a neve apenas com uma manta e nada mais. O resultado foi a hipotermia, a perda da sensibilidade e até a queda de um dedo que gelou e se separou da mão sem o padre dar conta a não ser quando notou que o sangue jorrava e tingia de vermelho a neve branca. A juntar a tudo isso, o frio acabaria por fazer com que perdesse a visão. Chegou assim ao Tibete sem ver a terra prometida.
Neste ponto do livro, o autor fala também de outro herói que veio a seguir a Andrade e conclui relatando o fim da aventura por aquelas extraordinárias terras com a morte de outro não menos famoso jesuíta, dizendo ter terminado assim, apagada e triste, uma das odisseias mais extraordinárias da história de Portugal, a de Bento de Góis, descobridor do Grão Cataio.
O Grão Cataio era o nome pelo qual era conhecida a China na Europa antes dos portugueses lá terem chegado.
Na senda da transposição para o cinema das aventuras dos jesuítas pelo mundo, com filmes como “A Missão” de Roland Joffé ou o “Silêncio” de Martin Scorcese, a saga do padre António Andrade no “Tecto do Mundo” dava sem dúvida outro belíssimo argumento.

* jornalista e historiadorportugal no tecto do mundo_blog

 

 

Sobre a obra:

Título: Portugal no tecto do mundo
Autor: Pe. Benjamim Videira Pires
Editora: Instituto Cultural, 1988
Capa: Mio Pang Fei

3 thoughts on “PORTUGAL NO TECTO DO MUNDO

  1. António Graça de Abreu diz:

    Meu caro João Guedes

    Saudação amiga neste Novo Ano 2018.

    Desculpa-me duas leves adendas.
    Benjamim Vieira Pires, que ainda tive o gosto de conhecer (apresentou a minha tradução dos Poemas de Bai Juyi, em 1991, aí em Macau) era natural de Torre Dona Chama, Mirandela e não foi o descobridor do texto fabuloso do António de Andrade. Vê Esteves-Pereira, Francisco. 1924. O descobrimento do Tibete pelo P. António de Andrade. Coimbra: Imprensa da Universidade.e Aquilino Ribeiro, nos Portugueses das Sete Partidas.

    Abraço,

    António Graça de Abreu

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