A Alma de Macau – recordar a história

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Han Lili*

A Alma de Macau ou A Alma do Mar de Espelho, texto dramático de autoria de Mok Ian Ian, escritor de Macau, apresenta-nos uma história de Macau que divide opiniões.
Sendo esta uma história sobre o assassinato de João Maria Ferreira do Amaral, que ocorreu em Macau, em 1849, a obra trata um tema que não é facilmente abordado. Ferreira do Amaral era, por um lado, visto como opressor pela população chinesa e, por outro lado, era considerado um herói na sua época em Portugal, pelos êxitos que alcançou nas colónias portuguesas. Perante este tema, os escritores portugueses (por exemplo, em Bambu Quebrado, de Maria Helena do Carmo) geralmente optam por descrever a morte de João Maria Ferreira Amaral ao serviço da Pátria, enquanto os académicos chineses (por exemplo, Huang Hongzhao) preferem qualificar Shen Zhiliang, que matou Ferreira Amaral, herói na luta contra a colonização.
Em Macau, na Praça de Ferreira de Amaral, a estátua equestre do governador foi erguida em 1940 [1], em honra desta figura. Também o arco das Portas do Cerco, inaugurado a 31 de Outubro de 1871, foi construído em memória do governador, e ainda lá está hoje. Coincidentemente, encontra-se, em Zhuhai, o túmulo comemorativo dos êxitos patrióticos de Shen Zhiliang.
Obviamente que as posições ideológicas e políticas constituem factores decisivos na abordagem da história. Como esta obra toca num assunto sensível, as comunicações oficiais do governo da RAEM divulgaram de forma cuidada a ópera A Alma de Macau.

Vejam-se os seguintes elementos de divulgação:

O enredo deste espectáculo de Ópera A Alma do Mar de Espelho trata de um acontecimento que se passou em Macau no ano de 1849 (Ano Daoguang 29 da Dinastia Qing). É uma história que nos fala de uma ocupação de terra planificada, de um conflito que comoveu o Céu e a Terra, de um povo patriota com muita coragem … Todas as cenas constituem uma realidade bem amarga e triste da História do Sul da China. O tema central versa sobre um Herói Nacional, o sacrifício que fez pela sua terra natal que se tornou um hino de louvor pela paz. Enfim, é uma das muitas lendas centenárias de Macau.

Comunicação de 11 de Janeiro, 2015, Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau.

“A expropriação de terras, uma história arrasadora; Um grupo de pessoas afáveis de Macau, uma pintura em rolo de episódios históricos passados no sul da China.
Macau e a Ópera de Pequim, Oriente e Ocidente; História e realidade, um romance desoladoramente belo sobre o amor pela terra natal, volta ao palco. Em A Alma de Macau! ”

Folheto de divulgação, em 2015, disponibilizado pelo Instituto Cultural de Macau.

Ambas as comunicações enchem-se de metáforas e abstracções, não disponibilizando informações concretas relativamente aos protagonistas nem ao enredo do conflito, mas dando asas ao grande espaço de imaginação. Para a autora desta obra, Mok Ian Ian, o desejo de criação é simples : escrever uma história que permita recordar Macau (“寫一個讓人記住澳門的故事”). Este ponto de partida revela-se também através do próprio nome da obra – A Alma de Macau. Segundo a autora, “a ‘alma’ simboliza, na verdade, o espírito da população de Macau, que inclui características como a generosidade e a lealdade heróica do protagonista, Shen Zhiliang, bem como o espírito de entreajuda e a procura da paz ainda presentes actualmente” (entrevista feita por Iris Lei, publicada no jornal Ponto Final a 11 de Agosto de 2014). Para que a obra se adaptasse melhor ao texto dramatúrgico de estilo Ópera de Pequim, a autora demorou três anos a concluí-la, fazendo dez revisões.

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Ópera “A Alma de Macau”; Foto: Instituto Cultutal de Macau

A 29 de Julho de 2014, a Ópera de Pequim estreou A Alma de Macau, na cidade de Nanquim, e teve uma recepção positiva por parte dos críticos e público. Cinco meses depois, a 14 de Janeiro de 2015, a ópera foi apresentada em Macau, como uma das iniciativas das celebração dos 15 anos da transferência de Macau para a China. Desta vez, os média locais, chineses e portugueses, revelaram uma atitude bem diferente do estilo usado nas comunicações oficiais, cheia de metáforas e abstracções.

Exemplo I:

《鏡海魂》擷取的是一段澳門歷史的真實事件,劇情講述一百六十五年前,葡萄牙第七十九任澳門總督亞馬勒為擴張己國勢力、佔據地盤,在龍田村毀田地、強拆房屋、踏平祖墳,激起龍田村村民衆憤。為保護家園,以沈志亮龍田七兄弟為首的村民在與葡兵的激烈衝突中,刺殺了亞馬勒。事件發生後,清政府不敵葡方壓力,將沈志亮問斬。

A Alma de Macau fala sobre um acontecimento histórico que se passou em Macau. Há 165 anos, o então 79.º governador português de Macau, Ferreira do Amaral, pretendia expandir a sua governação e ocupar mais território, destruindo, portanto, os campos da aldeia de Longtian, demolindo as casas e os túmulos ancestrais dos aldeões, o que despertou a indignação dos locais. Para proteger as suas casas, os aldeões, liderados por Shen Zhiliang, assassinaram Ferreira Amaral em violentos confrontos com os soldados portugueses. Após o incidente, sob pressões da parte de Portugal, o governo Qing acabou por executar Shen Zhiliang. (nossa tradução)

– “A primeira Ópera de Pequim com as matérias-primas históricas de Macau – A Alma de Macau, estreada ontem no Centro Cultural de Macau”, Macao Daily, de 14 de Janeiro, 2015

Exemplo II:

Ópera de Pequim de Jiangsu leva a palco o episódio do assassínio do antigo governador Ferreira do Amaral…O tema da peça coincide com um dos mais marcantes na História da cidade e das relações entre o que era então o território administrado por Portugal com a China…Jinghaihun ou A Alma de Macau, centra-se no assassínio do governador Ferreira do Amaral, que tomou posse em Abril de 1846 e tinha como missão estabelecer a absoluta independência de Macau, face ao Continente e às potências estrangeiras.

– “Ferreira do Amaral é tema de ópera”, Ponto Final, de 14 de Junho de 2014

O Macao Daily destaca o patriotismo do protagonista chinês Shen Zhiliang, apontando os motivos de conflito entre as duas partes envolvidas, nomeadamente entre os aldeões chineses e o então governador português, e destacando os feitos de Shen e o seu destino. Evitando mencionar o protagonista da ópera, o jornal português Ponto Final opta por apontar, logo no título, que “Ferreira do Amaral é tema de ópera” e identifica esta ópera como um episódio do assassínio do antigo governador Ferreira do Amaral. Logo se nota a divergência destes dois jornais, em termos dos valores históricos da obra. No entanto, os dois jornais, representativos de mentalidades chinesa e portuguesa, não entraram em “guerra” nem provocaram indignação mútua, passando, antes, a apreciar, unanimemente, os valores literários e humanos que esta obra revela.

No caso de Macao Daily, escreve-se:

《鏡海魂》充滿了本土味道、澳門元素,包括廣東話童謠“氹氹轉”出現在劇中與京劇音樂和諧嫁接;國家非物質文化遺產“澳門醉龍”融入劇中首尾呼應,和劇情、主人公命運緊緊相連。

A Alma de Macau é uma obra que incorpora abundantemente elementos locais de Macau: aparecem na peça cantigas infantis em cantonês, casadas harmoniosamente com a música da Ópera de Pequim; a dança do dragão embriagado de Macau, património cultural intangível nacional da China, também se insere no final da ópera, à qual tanto o enredo como o destino do herói estão intimamente ligados. (nossa tradução)

– “A primeira Ópera de Pequim com a matéria-prima dada pela História de Macau – A Alma de Macau, estreada ontem no Centro Cultural de Macau”, Macao Daily, de 14 de Janeiro, 2015

No Ponto Final, apresenta-se assim:

Apesar da história ter acontecido há mais de 160 anos, Mu [a autora] combina aspectos da Macau moderna. São incluídos elementos de Kung Fu e da típica dança do dragão embriagado. Mu acredita que o público poderá apreciar nesta peça alguns aspectos da “autêntica cultura de Macau”. “Há uma mistura fantástica de elementos da cultura chinesa e portuguesa”.

– “Ferreira do Amaral é tema de ópera”, Ponto Final, de 14 de Junho de 2014

Na realidade, ambas os trabalhos fazem uma apreciação dos valores literários e humanos que esta ópera incorpora e elogiam as diligências da autora. Esta confluência das duas mentalidades não acontece sem razão aparente, devendo-se em muito ao esforço da autora Mok Ian Ian na busca de “uma história que permite memorizar Macau”. A sua abordagem concentra-se, segundo a própria autora, na exploração contínua da humanidade e não em conflitos políticos. A fim de criar este efeito literário em palco, também foram apresentadas ao público diversas cenas típicas de Macau (Ruínas de São Paulo, terras agrícolas, belo horizonte litoral, Fortaleza do Monte e edifícios de estilo ocidental) e uma dança centenária, património intangível, também foi introduzida na actuação, dando relevo aos efeitos visuais dramatúrgicos. A autora acrescenta que a inclusão da Dança do Dragão Embriagado pretende ilustrar o destino do protagonista, que se vê forçado a escolher entre a fuga e a morte, em nome da harmonia social.

Constatamos que a solução literária e poética de Mok apresenta uma nova maneira de recordar a história: não a podemos esquecer, nem negligenciar, porque ela é o espelho da actualidade, mas podemos enfrentar os acontecimentos históricos com uma atitude aberta. Quando enfrentamos estes acontecimentos com naturalidade, a História passa a ser uma memória preciosa, que poderá ser reconstruída com novos valores literários e humanos. Hoje em dia, quando passam pela Praça de Ferreira do Amaral, quantas pessoas conhecem esta história? Quando a recordam, vão lembrar-se de uma estátua equestre em memória de Ferreira do Amaral, que morreu em nome da pátria, ou de um herói chinês chamado Shen Zhiliang, que morreu em defesa do seu patriotismo? Ou será que conseguem transformar esta recordação em energia positiva para valorizar a singularidade de Macau? Sem dúvida que A Alma de Macau actua como um modelo, permitindo despertar e reconstruir a memória que não deve ser esquecida nem se deve evaporar no ar.

Uma pequena nota sobre a autora Mok Ian Ian:

Escritora de Macau, membro da Associação dos Escritores da China, licenciou-se em jornalismo e concluiu o doutoramento em ópera pela Universidade de Nanquim. Mok tem-se dedicado ao intercâmbio cultural entre Macau e o Interior da China. As suas obras incluem colecções de ensaios e trabalhos académicos, e.g. Voltar ao sonho – Óperas de Macau (co-autoria com Song Baozhen). Em 2014 publicou o texto dramatúrgico A Alma de Macau, a primeira obra de ópera de Macau que apresenta acontecimentos históricos locais e que subiu aos palcos de Nanquim, Tianjing, Macau e Pequim. A autora tem participado nos diversos trabalhos editoriais da Colecção dos Livros de Arte, Colecção Seleccionada das Óperas Contemporâneas de Macau, Manuscritos da História de Óperas de Macau e Colecção da Literatura de Macau.

* Professora no Instituto Politécnico de Macau, Han Lili é autora da recensão desta obra e tradução para português das palavras da autora. A revisão é de Alda Mourão.

[1] Foi demolido em 1992.

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