Qingdao e a identidade de uma cidade

vítor quintã

Vítor Quintã *

Enquanto olhava do alto do Parque Xiaoyushan para a cidade que se espraiava ao redor da colina, a minha mulher apontou para uma série de moradias cujo bege pintalgava uma encosta. “São falsas”. Após cinco dias a vaguear pela arquitectura de traço alemão de Qingdao, já sabia o que ela queria dizer. Estas eram construções recentes, ao contrário das mansões imponentes que tínhamos visitado no bairro de Badaguan, esquivando-nos entre casais já cansados de vestir e despir roupa para tirar fotos de casamento.
Ainda assim, estas casas discretas não destoavam da traça de Qingdao e mantinham uma estética própria da cidade, que não vi em mais lado nenhum.
Enquanto aproveitava o sol de fim de tarde, lembrei-me da nossa paragem anterior, a terra natal da minha esposa. Xuzhou, um movimentado centro logístico na província de Jiangsu. Quem só olhasse pela janela do comboio de alta velocidade, não a conseguiria distinguir de qualquer outra grande cidade chinesa.
Com a abertura da economia do país ao mundo, trabalhadores migrantes rumaram ao litoral para alimentar a expansão vertiginosa das fábricas e novas metrópoles como Shenzhen e Zhuhai surgiram do nada. Para muitas destas cidades, o crescimento explosivo teve os seus custos, com o planeamento urbano e o ambiente postos de lado. E com tantos trabalhadores vindos de longe para ajudar a erguer um mar de arranha-céus, estas cidades viram-se sem uma identidade.
Das aldeias de pescadores espalhadas pela vasta área que hoje é a cidade de Zhuhai não ficou qualquer vestígio. A cidade-mercado de Shenzhen com 30.000 pessoas já passou à história.

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Qingdao/ Foto: Hermione Xu

No entanto, outras cidades como Qingdao e Macau conseguiram evitar o tsunami.
Poucos dias tinham passado desde uma visita emocional ao Memorial do Massacre de Nanjing – uma escolha invulgar para um dia de aniversário –, que vincou o passado doloroso que a China ainda carrega, marcado por agressões estrangeiras. Brevemente questionei-me como foi possível os chineses não terem procurado vingança contra tão descarados símbolos da ocupação colonial como a antiga residência do governador alemão de Qingdao, lá no alto da montanha de Xinhao.
No caso de Macau, talvez a resposta seja óbvia. A transição negociada com Portugal que levou à transferência de administração em 1999 garantiu que o status quo seria mantido, pelo menos por 50 anos, incluindo a protecção, inscrita na Lei Básica, de todo o património cultural e arquitectónico. Uma decisão que começou logo a dar frutos poucos anos depois, quando a zona histórica da Região Administrativa Especial foi listada como Património da Humanidade pela UNESCO. Basta passear pelas Ruínas de São Paulo para perceber que o passado colonial da cidade não melindra os 20 milhões de visitantes da China continental que passam por lá todos os anos para tirar uma fotografia no ex-libris de Macau.
O regresso de Qingdao não foi nem de perto nem de longe tão fácil. A derrota dos alemães na Primeira Guerra Mundial suscitou a esperança de que o envio de centenas de milhares de trabalhadores chineses para os países em guerra na Europa não teria sido em vão. Foi sol de pouca dura, no entanto, com as promessas feitas pelos Aliados à China rapidamente esquecidas e o Tratado de Versalhes permitindo ao Japão ocupar a baía de Jiaozhou e toda a província de Shandong. Ainda assim, mesmo após as forças comunistas terem finalmente conquistado Qingdao em 1949, ou até durante a campanha da Revolução Cultural contra os Quatro Velhos (velhas ideias, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos), o património colonial da cidade sobreviveu.
E ainda bem. Tal como a calçada e os edifícios de traço português dão a Macau o seu sabor mediterrâneo, também a arquitectura alemã de Qingdao se tornou uma parte essencial da sua identidade.

 

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Qingdao/ FOTO: Hermione Xu

Embora muitos tentem reduzir a evolução de uma cidade a um dilema entre preservar o que é antigo ou construir algo novo, a protecção do património não representou um obstáculo ao desenvolvimento de Qingdao. Bem pelo contrário. Enquanto os bairros antigos são um destino favorito dos turistas, a parte leste da cidade tem prosperado como um centro tecnológico e não dá sinais de abrandar.
O governo chinês e a população estão cada vez mais conscientes de que proteger o ambiente pode ter um efeito multiplicador positivo, não apenas na sua qualidade de vida, mas também para a economia.
Agora uma nova vaga tem visto regiões a procurarem uma marca própria, um sinal de que mesmo os governantes locais acreditam que reforçar a identidade de uma cidade pode ajudar, tanto a reter aqueles que lá nasceram como a atrair talento de fora.
Como? Fazendo com que as pessoas sintam orgulho do carácter único da cidade em que vivem, e alegria em fazer parte de algo maior do que elas próprias.
Durante o ano em que passei a estudar Mandarim em Suzhou, frequentemente me perguntavam se eu gostava da cidade. Com os seus velhos canais e belos jardins (que inspiraram o Lou Lim Ioc aqui em Macau), era fácil ser honesto. E a minha resposta invariavelmente motivava um sorriso, de alguém que vê o orgulho que sente de Suzhou confirmado por um olhar novo.
E dos hutongs de Pequim à muralha de Xi’an, as cidades chinesas têm muito de que se orgulhar.

*  jornalista

 

 

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