Coração de Guimarães

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Han Lili*

Este é um excerto de um ensaio da escritora Lam Chung Ying sobre Guimarães, cidade que visitou há vários anos. O artigo, incluído na Antologia 2012 da Literatura de Macau (p.317-325), editada pela Fundação Macau, insere-se na categoria “literatura de viagem”. Através das observações que faz, a autora explora um percurso interior sob o ponto de vista de uma visitante de Macau.

Coração de Guimarães

Após a aterragem no Porto, apanhamos um autocarro para Guimarães, cidade que fica no Norte de Portugal. A viagem dura cerca de uma hora. Guimarães é uma cidade antiga. Foi aqui que o rei D. Afonso Henriques fundou Portugal e é, por isso, intitulada “berço de Portugal”. É património mundial da cultura. O mundo é grande e, até agora, nunca tinha olhado com atenção para esta cidade.

A minha afinidade com Guimarães tem de ser contada a partir do início. O Conselho dos Ministros da Cultura da União Europeia escolhe, todos os anos, duas cidades no âmbito do espaço geográfico da União Europeia para serem capitais da cultura, com o objectivo de promover o desenvolvimento equilibrado dos estados-membros a nível social e económico e para projectar a sua imagem no palco internacional. Em 2012, Guimarães e Maribor, na Eslovénia, foram coroadas com este título e tornaram-se num foco de atenção cultural na Europa. Consequentemente, passaram a ser procuradas por turistas. Ao longo dos anos anteriores, Guimarães foi desenvolvendo um intenso trabalho para acolher visitantes, acabando por organiza nesse ano mais de 600 actividades artísticas. Muitos comerciantes locais, que se tinham deslocado para outras cidades, voltaram para não perder oportunidades de negócio. De repente nasceram mais de 150 lojas.

guimarães_2Guimarães divide-se em duas partes: a cidade velha e a cidade nova. A nova tem estradas largas, onde circulam mais carros do que passageiros. É tranquila demais. A cidade velha, repleta de conventos, igrejas, palácios, praças, castelos e residências reais, situa-se na colina. Esta herança histórica apresenta-se como se fosse um túnel do tempo, sólido e vigoroso. Quando visitámos o castelo, construído no século IV, começou a chover torrencialmente. Com guarda-chuva, mas sem guarda-corpo, permanecemos nos degraus de pedra, encostados às muralhas do castelo. O som assustador do vento que embatia contra a antiga bandeira de Portugal, que tem uma cruz azul, fazia-nos recuar aos tempos de antigamente. Se fôssemos invasores, seria difícil avançarmos para o castelo, pois à nossa frente encontra-se uma ponte estreita e suspensa. Esta experiência inesperada acabou por inspirar uma reflexão histórica relativamente à arquitectura defensiva.

O nosso passeio pelas ruas antigas da cidade velha era casual e foi interrompido frequentemente pela chuva. A paisagem era tão familiar que tínhamos a sensação de estar na Rua Carlos Eugénio Correia da Silva, da ilha da Taipa; no Largo de Lilau, na Freguesia de São Lázaro; na Rua Central ou nos arredores das Ruínas de São Paulo. O ambiente era igualmente parecido ao que é apresentado nas colecções de fotografias Fotos antigas de Macau e de Paisagem a desparecer. Guimarães, Macau, duas cidades copiadas, ora real, ora surreal. Tornou-se ainda mais forte o nosso interesse em conhecer Guimarães.

Após Guimarães ser eleita capital europeia da cultura, os residentes da cidade criaram um delicado símbolo para representar esta cidade – a letra G em forma de coração. Trata-se da primeira letra da palavra Guimarães, cuja parte central se assemelha ao buraco de uma fechadura antiga. Para alguns, este sinal é considerado, antes, o símbolo do Castelo de Guimarães. De qualquer maneira, ambas as interpretações descodificam o simbolismo deste sinal – o coração de Guimarães. Todos os hotéis, pensões, restaurantes e lojas têm à venda (e está à vista de todos) este sinal G, feito de diversos materiais e padrões decorativos. A partir dos seus desenhos artísticos, nota-se um espírito competitivo, mas é óbvio que as pessoas desta cidade sentem-se orgulhosas por acolher o ano de 2012 e estão a trabalhar com dedicação para merecer este título.

Para escapar à chuva, nós – uma dezena de pessoas – entrámos numa loja turística. Pouco depois, chegou mais um grupo de pessoas. Apesar do chão estar sujo por lá andarem tantas pessoas, o jovem empregado ainda nos atendeu com um sorriso. Fomos depois tomar café a um restaurante, onde encontrámos um velhote de 92 anos que também ali estava por causa da chuva, embora sem consumir nada. O velhote queixava-se que a chuva estava a prejudicar os passeios de turistas, de turistas como nós. Na altura, um autocarro parou ao longe, um homem de meia-idade subiu devagar com a ajuda da bengala para o autocarro. O motorista ajudou-o a picar o bilhete e só depois ajustou o volante para reiniciar o motor… Fico comovida com estas cenas simpáticas: a gentileza e a simpatia devem ser cultivadas pelas tradições locais e pela ética pessoal. É também possível que esta delicadeza seja fruto da vastidão do espaço físico, da convivência entre poucas pessoas, do ritmo lento da vida. Confesso que esta reflexão alimenta mais o meu coração do que as paisagens o conseguem fazer.

(tradução de Han Lili)

***

Sem complicações de enredos nem narrações heróicas, este ensaio começa pela descrição de histórias de Guimarães, tecendo-se nesta descrição associações e representações da autora. Na ambiguidade entre sensações verídicas e fictícias – tal como descreve “Guimarães, Macau, duas cidades copiadas, ora real, ora surreal” – a autora opta, posteriormente, por desviar um pouco o ponto de vista puramente turístico. Foca-se nas “coisinhas” nos pormenores que poderão ser ignorados facilmente pelos turistas e destaca a interacção humana e o convívio entre as pessoas de Guimarães, como se fossem acontecimentos registados ao seu lado, no dia-a-dia. Este desvio do ponto de vista culmina na satisfação mental da autora, reforçando a sua sensação verídica como observadora e, ao mesmo tempo, aumentando a sua afinidade com a cidade de Guimarães, como turista. Com toques refinados, este ensaio revela reflexões na voz feminina numa cidade déjà vu.

Sobre a autora:
antologiaA escritora Lam Chung Ying, pseudónimo de Tang Mui Siu, tem-se dedicado a trabalhos editoriais. Começou por publicar, a partir da década de 1980, ensaios, crónicas e romances, dos quais se destacam as colecções: Árvore do amor (1985, editora Oásis, Hong Kong), Nuvem e lua (1987, editora Oásis, Hong Kong), Quantas vezes a nossa vida se ri às gargalhadas? (1994, editora do Jornal Diário de Macau), A house of our own (1999, Associação dos Escritores da China), Semente de saudade (1999, Jornal Diário de Macau), Cantora solo (2011, Jornal Diário de Macau) bem como Narrativas em Macau – perfil cultural e modelos de narração das novelas de Macau desde a década de 1980 (2004, Jornal Diário de Macau). As suas obras transmitem sensibilidades femininas em relação à sociedade e à vida, com especial destaque para a questão da sobrevivência das comunidades desfavorecidas e para a questão da continuidade da herança cultural local, que se encontra numa situação precária.

* Professora no Instituto Politécnico de Macau

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