Diálogo com Macau

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Han Lili*

Incorporar elementos históricos na escrita é técnica muito utilizada por vários escritores. Muitas vezes, esses elementos históricos servem como setting, reforçando a sensação de veracidade dos enredos das obras literárias, particularmente no caso dos romances. Como esta técnica garante ao público um maior entendimento da mentalidade e forma de estar de uma determinada época, os escritores não poupam palavras – geralmente no início da sua escrita – na descrição do setting histórico. Assim sendo, os leitores sentem-se orientados e embalados no gozo da leitura.
Na escrita macaense, não falta este tipo de técnica literária. No romance A Trança Feiticeira de Henrique de Senna Fernandes, por exemplo, temos acesso ao contexto social de Macau no início do século XX: havia, ainda, uma divisão entre a cidade cristã e a cidade chinesa. Apercebemo-nos com mais facilidade da complicação do casamento entre os portugueses e os chineses. Na realidade, apesar de sabermos que o casamento interétnico não era tão romântico como aquele que foi descrito no romance, como leitores preferimos acreditar na versão ficcional.
Joe Tang é mestre desta técnica. Na obra Almas Transviadas, Joe manipula a técnica com habilidade, ao transformar uma parte da história de Macau, quase esquecida, num enredo literário. Neste romance, a alma de uma pessoa da nossa época faz uma viagem ao passado, testemunhando a batalha que opôs portugueses e holandeses, em 1622. A narração apresenta de forma real e cinematográfica cenas que aconteceram há quatro séculos, mas também com um carácter surreal, já que neste setting histórico uma alma viajante apresenta o passado ao leitor contemporâneo.
Uma vez perguntaram a Joe Tang quem seria a figura histórica mais interessante de encontrar e o escritor mencionou o Padre Bruno, figura fictícia da sua obra, cujo modelo é o Padre Giacomo Rho (aliás, Jacques Rho), que desempenhou um papel crucial na batalha de 1622. Diz-se que o momento-chave para a vitória contra a invasão dos holandeses foi o tiro de canhão disparado pelo padre. Devido a esta vitória, uma rua e um jardim ligados à batalha receberam um nome associado à batalha para comemorar este evento histórico.almas transviadas_pt
Para o escritor, uma das suas tarefas da escrita é explorar a história de Macau. Este processo de reconhecimento é como um diálogo com Macau, como declarou numa entrevista: “Na altura em que escrevia o romance Almas Transviadas, apaixonei-me ainda mais por Macau, porque fiquei a conhecer melhor este território. Descobri que o nosso dia-a-dia estava muito ligado à história de Macau, nem dava para acreditar. Como por exemplo, a rua [em memória] do Padre Giacomo Rho é consagrada para comemorar este herói que combateu contra os holandeses. Este processo de me inteirar sobre o passado é como ficar a conhecer a história de um ancião que viva comigo. Depois do diálogo, poderei conhecer muitos dos seus segredos desconhecidos. Daí em diante, a minha relação com ele torna-se diferente e os sentimentos também. Vejo na minha escrita um diálogo com Macau.”
Na realidade, tal como diz Joe Tang, esta relação entre os habitantes e o território de Macau – fisicamente próxima mas com poucos vínculos afectivos – é real. É muito provável que aqueles que passam todos os dias pela Estrada da Vitória não saibam a história desta rua, nem por que se chama “Vitória”. A história que os lugares carregam consigo é uma leveza do dia-a-dia.
Graças à sensibilidade literária de Joe Tang, a interpretação que faz da história de Macau proporciona uma leitura de aproximação, permitindo aos leitores entenderem uma história quase esquecida e encetarem também um diálogo com as ruas, travessas, becos e pátios do território.
O objectivo do autor é alcançado quando o diálogo entre ele e Macau passa a ser o diálogo entre os leitores e Macau. A obra começa a ter a sua própria vida e ganha peso cultural em Macau. Aliás, este diálogo está a acontecer. Com a tradução do chinês para o português, um trabalho da académica Ana Cristina Alves, Almas Transviadas começa a “dialogar” também com os leitores portugueses.

* Professora no Instituto Politécnico de Macau

Mais sobre a obra

Nome em português: Almas Transviadas
Autor: Tang Hio Kueng (Joe Tang)
Tradutora: Ana Cristina Alves
Editora: Instituto Cultural de Macau
Ano de publicação: 2015

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