Peregrinação entre dois mundos à parte

Peregrinação Vermelha
Peregrinação Vermelha – O Longo Caminho até Pequim
é o nome da terceira obra de António Caeiro, ex-correspondente da agência Lusa na capital chinesa. Trata-se de um conjunto de relatos inéditos de viagens feitas por personalidades – entre activistas políticos, jornalistas, artistas ou diplomatas – até à China entre 1949 e 1979. A história de Viriato da Cruz, um dos fundadores do MPLA, que se fixou em Pequim, onde “conheceu o auge da glória” e depois caiu em desgraça, foi o capítulo “mais dramático” e que “mais doeu escrever”.


Catarina Domingues

Francisco Martins Rodrigues, fundador do Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista), visitou a China em 1964; José Calvet de Magalhães, cônsul-geral de Portugal em Cantão, assistiu em 1949 à entrada do exército vermelho na cidade; a activista política e escritora Maria Lamas, detida pela PIDE, esteve em 1957 em Pequim, onde se terá reunido com o então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai.
Durante três décadas, entre 1949 e 1979, Portugal e a China não tiveram relações diplomáticas, mas os contactos – clandestinos ou oficiosos – nunca foram interrompidos. É isso que conta Peregrinação Vermelha – O Longo Caminho até Pequim, terceiro livro do ex-correspondente da agência Lusa na capital chinesa, António Caeiro. Esta é uma colecção de histórias – muitas delas inéditas e desconhecidas do grande público – sobre aquele período específico das relações entre Portugal e a China.
O autor, que se mudou para Pequim em 1991, recorda que a “influência e atracção pelo maoismo” no passado daquela que é hoje parte da actual elite portuguesa foi uma das motivações que o levou a avançar com a obra. “Segundo José Pacheco Pereira, historiador que se tem dedicado ao estudo desses fenómenos, Portugal foi na Europa Ocidental dos países onde o maoismo teve mais adeptos”, refere Caeiro.
“Agora que a China está tão presente em Portugal e que as relações luso-chinesas têm mais conteúdo económico e cultural, [esta obra] vem acrescentar uma dimensão que a maioria das pessoas não conhecerá”, nota ainda o autor.
O jornalista, que esteve 19 anos ao serviço da agência de notícias portuguesa em Pequim, sublinha que esta é uma obra “despretensiosa”: “não é um livro para especialistas, para sinólogos nem um ensaio de relações internacionais”, refere. São apenas “histórias de contactos” entre os dois países que “viviam um pouco num mundo à parte, num período em que a China estava muito fechada, mas Portugal também, pelo menos grande parte do tempo, até 1974”, vinca Caeiro, dizendo ainda que muitos destes contactos foram feitos por intermédio de Macau.
Num dos capítulos, o autor relembra que, em meados de 1949, durante a guerra civil que opôs as tropas comunistas às nacionalistas, Portugal enviou para Macau um corpo expedicionário de seis mil homens, temendo o avanço do exército de Mao Zedong. Caeiro refere que falou com Francisco da Costa Gomes, Chefe de Estado Maior desse corpo expedicionário português. “As impressões de Macau são interessantes, porque ele dizia que o Governo de Macau achava que seis mil homens para conter o avanço era completamente… nem que Portugal mandasse para lá as tropas todas que tinha, seria possível fazer isso. Isto dá ideia também do desfasamento que havia entre a percepção que os dirigentes em Lisboa tinham e a realidade de Macau”.
Ainda no que diz respeito a Macau, também o papel do Comendador Ho Yin, pai do antigo Chefe do Executivo Edmund Ho, como intermediário de missões a Pequim, é referido nesta mais recente obra do jornalista sobre a China.
O capítulo “mais dramático” e que “mais doeu escrever”, considera o autor, conta a história pouco conhecida de Viriato da Cruz, um dos fundadores do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), poeta e “homem fora do vulgar” que, ao entrar em ruptura com o partido que ajudou a criar, acaba por se fixar na China em 1966, ano em que tem início a Revolução Cultural.
“No dia 1 de Outubro de 1966, perante uma multidão de mais de um milhão de pessoas na Praça de Tiananmen, Viriato da Cruz foi uma das pessoas que discursou. Estava na tribuna de honra ao lado de Mao Zedong e, na altura, foi apresentado como o marxista africano”, nota Caeiro. Mas o líder angolano acabaria por “entrar em ruptura com o maoismo no pior sítio para o fazer, que era a própria China”, acabando por cair em desgraça e ficando proibido de abandonar o país. Morreu em 1973 e, apenas nos anos 1990, foi possível realizar a transladação dos restos mortais do angolano para Luanda.
Para escrever sobre um “assunto que ainda é muito tabu”, António Caeiro recorreu às cartas que Viriato da Cruz trocou desde Pequim com “a jovem maoista francesa” Monique Chajmowiez. “Nem os responsáveis angolanos nem os chineses que contactaram com ele gostam muito de falar desse assunto, porque foi uma história que acabou muito mal. Quando se começa a mexer nessa história vêm ao de cima períodos que nem uns nem outros gostam de evocar, como a Revolução Cultural. Para um revolucionário da altura, Viriato da Cruz conheceu o auge da glória, digamos assim, mas caiu em desgraça e acabou muito mal”.
Além das entrevistas que o jornalista realizou com alguns dos protagonistas, António Caeiro consultou materiais de arquivo, livros, relatórios e documentos políticos para dar vida a esta obra de 196 páginas, fruto de mais de uma década de trabalho e investigação.

Mais sobre a obra:
Título: Peregrinação Vermelha – o longo caminho até Pequim
Autor: António Caeiro
Editora: D. Quixote
Ano de publicação: 
2016
Número de páginas: 196

 

 

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