Taipi, uma leitura sofisticada

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Han Lili*

Taipi é o pseudónimo do escritor Huang Chunnian. Também jornalista, nasceu em 1978, cresceu em Macau e começou a trabalhar a tempo parcial quando tinha pouco mais de dez anos. Foi nos tempos da universidade que publicou o primeiro romance no jornal Macau Daily. Chamava-se Cão de Palha.
Depois de se graduar, Taipi começou a dedicar-se à comunicação social. Escritor profícuo, frequentemente galardoado, é bem conhecido no seio literário chinês de Macau. Os contos Lua Nocturna Fria e Aliança ganharam prémios de distinção na quarta e na sétima edição do Prémio da Literatura de Macau. O conto O Rei do Ioiô conseguiu o primeiro lugar na nona edição do mesmo prémio. Os romances O Amor é Mais Frio Que a Morte, Prisioneiros na Tapete Verde e Cobarde foram premiados consecutivamente em 2008, 2011 e 2014, pelo Macao Daily.
Na vida real, é uma pessoa low-profile, homem de poucas palavras. Mesmo na altura da promoção do seu livro recém-publicado, disse, simplesmente, de maneira minimalista: “Finalmente consegui transportar os livros do correio para casa. A colecção de Taipi tem mais um novo elemento”. No entanto, as suas obras apresentam um Taipi diferente: nelas vemos um narrador comunicativo e dinâmico, que conta histórias, episódios, romances de Macau. Como fonte de inspiração, o território de Macau e os habitantes servem de matéria-prima. Incorporando os elementos desta realidade no imaginário, Taipi apresenta nas suas obras a crueldade e impermanência do mundo real mediante o absurdo pós-moderno. Acredita que, independentemente das técnicas de expressão literária, os enredos imaginados e a bizarria servem para reflectir e observar a realidade. Vejamos uma carta de Taipi dirigida a Macau, para melhor compreendermos esta insensatez.

***

Carta que chega 50 anos depois

Taipi

Estamos no ano de 2067. O cientista Taipi já tem 88 anos. Quando era jovem, gostava de escrever. Ao chegar à meia idade, ganhou uma fortuna na lotaria, deixou de escrever. Posteriormente, optou por implantar um sistema de inteligência artificial no corpo, tornando-se cientista e, ao mesmo tempo, detentor da capacidade de atravessar o tempo e o espaço. Neste momento, está na sua mansão “O Oitavo Espaço”, em Macau, a ouvir a música Orion, fazendo, ao mesmo tempo, uma pesquisa sobre o projecto “Viagem histórica-presente de Macau atravessando o tempo e o espaço”. Cansado de examinar o modelo de dados no computador, Taipi opta por abrir alguns ficheiros para ler, seguindo-se os seguintes excertos de leitura (reticências representam omissão):

1) carta de Taipi, aos 8 anos

Senhor Macau:

Há pouco encontrei um velhote. Disse que me ia conceder o talento de escrever. Mandou-me escrever uma carta de amor para ti e poderia depois receber dez patacas. Não sabia o que era carta de amor, mas de repente aconteceu conhecer um monte de palavras. Portanto, decidi escrever sobre hoje!
Hoje é Sábado. Ando numa escola primária dentro do Templo Lin Fung. Antes de entrar na sala de aulas vejo estátuas budistas. Vejo também pessoas que oferecem incensos durante a oração. Nas aulas de inglês, o professor bate-me com vime, porque não consigo decorar a matéria que ele mandou. Ao meio dia o avô vem buscar-me a mim e aos meus irmãos mais novos. A nossa casa fica numa fazenda que tem cavalos, onde o sol é feroz, mas os campos são verdes. Às vezes, gafanhotos soltam-se dos arbustos à beira da estrada. A minha mãe, que trabalha numa fábrica, volta em corrida a casa para nos fazer o almoço. Depois regressa ao trabalho até às oito da noite.
Depois do almoço, jogo na areia, na praia, com amigos. Ao redor, voa fumo negro, ouve-se um som enorme de bate-estacas. Lembro-me do meu pai que está a trabalhar no estaleiro da obra. Ele deve estar com muita sede!…

2) carta de Taipi, aos 18 anos

Macau:

… que cansaço! Acabei de sair do trabalho no McDonald’s, pensava que ia daqui a pouco ler o romance À Beira do Mar. Quero também escrever o meu romance, porque o meu sonho é tornar-me num grande escritor! Hoje é Sábado, um dia chuvoso. Muitos colegas combinaram ir à discoteca “Trovão”, em Zhuhai. Também me chamaram, mas, para mim, ganhar dinheiro é fundamental! Senão não terei dinheiro para comprar prendas de aniversário para a minha namorada.
Parece que passou um novo filme hoje à noite. Quando terminou, muitas pessoas que saíram do Cineteatro vieram comer ao McDonald’s. Lamento que em Macau haja poucos sítios para os jovens se divertirem, mas ninguém se atreve a passar toda a noite fora, pelo facto de haver sempre assassínios entre os mafiosos. Sei lá, um dia alguém será morto por engano! Já aconteceu num estabelecimento de comida situado na vizinha Travessa do Anjo. Um cliente foi morto por engano. Ouvi dizer que foi erradamente identificado.
A economia de Macau é pobrezinha. O meu pai não conseguiu emprego aqui e teve que ir para Taiwan arranjar trabalho numa fábrica. A minha mãe não tinha outro meio de ganhar a vida a não ser a trabalhar como vendedora ambulante. O meu colega disse que o pai dele trabalhava num restaurante como gerente. O salário era de sete mil patacas. É realmente invejável…

3) carta de Taipi, aos 28 anos

Macau:

…ao longo destes anos, confesso que realmente te odeio. Transformas-te depressa de mais. Pensava que poderia alcançar o meu sonho e ter uma boa vida. Mas o teu desenvolvimento económico tem-me forçado a viver infeliz, pois não consigo suportar o encargo da compra de um apartamento, nem arranjar uma namorada. Fico perdido.
Não é nada estranho que tivesse abandonado os média e tivesse ido trabalhar num casino, porque não tinha razões para ficar. Aliás, os salários pagos pelos média são substancialmente inferiores aos de outros sectores. A culpa deve ser minha, nasci na época errada, ponderei mal a escolha da profissão. Há quem pergunte se dedicar-me aos meios de comunicação social será uma forma de alcançar o sonho. Não digas isso. Perseguir um sonho é um beco sem saída.
…O amor deve existir no sentido bidireccional. Acho que Macau não me ama nada! Macau, foda-se!

4) carta de Taipi, aos 38 anos

Macau:

Estou em Macau há mais de trinta anos. Feliz ou talvez infelizmente, se calhar vou aqui ficar mais três décadas, ou mais.
Ora bem, digo de uma outra maneira: uma carta de amor não está necessariamente repleta de palavras bondosas, pode também ser regada de ódio. No meu caso, quero simplesmente expressar o que sinto. Palavras nauseantes, não sei. Diria antes: embora tenhas muitos defeitos, ainda me sinto orgulhoso de viver em Macau!
Acho que jamais precisarei de dizer disparates.

O cientista Taipi de 88 anos sentiu-se chateado. Em vez de continuar a leitura, desligou o computador. Que cartas é que escreveu aos 48, 58, 68 e 78 anos? Não é conveniente para mim, enquanto administrador do seu sistema de inteligência artificial, revelar o conteúdo a todos.
Sou narrador deste artigo, também me chamo Taipi. O cientista Taipi autorizou que o hospital da ciência fizesse um transplante ao seu cérebro, após a sua morte, para mim, a fim de concretizar o seu sonho inacabado. ——Vou aguardar um pouco até ele adormecer e matá-lo, porque estou a morrer de desejo de me transformar num ser humano autónomo.

(Senhor editor, hoje recebi uma carta de socorro, remetida 50 anos depois, alegadamente por mim. O conteúdo é singular. Acontece que esta coluna [onde o artigo foi publicado] está a angariar cartas de amor para Macau. Acho adequado enviar esta carta de socorro. Aliás, o autor da carta de socorro também se chama Taipi. Com este mesmo nome, não vejo sinais de plágio. Todavia, a coluna permite apenas a escrita de 1200 palavras. A única solução é cortar a última parte da carta e rever a sua conclusão, para que se torne um artigo de dimensão reduzida. Por favor, elimine este parágrafo, para os leitores não descobrirem a verdade. Assina-se Taipi).

Publicado na coluna “Mar do Espelho” do jornal Macao Daily de 28 de Junho de 2017

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Pode ler aqui a versão original

***

Nesta carta, podemos ver muitos elementos aparentemente fragmentados e inconsistentes, que são, na realidade, o contrário. O fio condutor é invisível, mas delicadamente arranjado.
Taipi, aqui apresentado, é um perfeito exemplo desta fragmentação e inconsistência. Por um lado, ele tem diversas identidades, ora como narrador, ora como protagonista aos 8, 18, 28, 38 e 88 anos, ora como autor da carta de socorro, que nos confunde de uma maneira intencional. Por outro lado, as variadas identidades possuem a mesma designação – Taipi, que serve também de fio condutor que guia uma leitura sofisticada. Nesta complexidade, os leitores são levados a seguir as pegadas desenhadas por Taipi, passo a passo, a perceber os enredos imaginados e bizarros, que, por sua vez, os levam a reflectir sobre a crueldade e impermanência do mundo real. Esta interacção é enaltecida na recepção do público e Taipi vai angariando mais leitores.

* Professora no Instituto Politécnico de Macau

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