Três irmãs

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Márcia Schmaltz*

Dois meses esperei para decantar o turbilhão de emoções suscitadas pela leitura de “Três Irmãs”. No livro, o inesquecível são as personagens femininas e o ritmo fluente da trama na justa medida.
A novela apresenta uma saga familiar impetuosa em três atos. Das insignificantes infidelidades numa aldeia perpassando a Revolução Cultural até à Reforma e Abertura, as mulheres da obra lutam por mudar o curso de seus destinos.
A narrativa inicia com o nascimento do oitavo rebento da família Wang. Depois do período de resguardo, Shi Guifang, a matriarca dos Wang sente-se cumpridora do seu dever de perpetuar a linha ancestral de seu esposo e joga o filho recém-nascido ao colo de Yumi, a filha mais velha e a mulher-modelo da aldeia. Esta logo assume o papel de dona do lar, abdica da sua juventude em troca de algum poder de controle na família e barganha para decidir o seu matrimônio. Quando está prestes a se casar, o seu pai, secretário-geral do partido, cai em desgraça e assim é encerrado o sonho dourado de Yumi. Agarrada em sua dignidade e em busca de uma vida respeitável, ela encontra uma saída da aldeia, num segundo sacrifício de vida. Yumi pertence ao dia e é considerada uma águia-rainha. De suas asas amplas é arremessada uma ventania que tudo domina. Já as duas outras irmãs pertencem à noite, são misteriosas e ambíguas. Yuxiu, a terceira irmã, fia-se no seu talento de sedução, mas devido à inveja e ao infortúnio do pai, fica à mercê dos outros. Yuyang, a irmã mais nova, deita a sorte apoiada na sua persistência e é a única que obtém o acesso à educação. Entretanto, a China da década de 1980, ainda não se conseguiu desvencilhar do espírito de perseguição, intolerância e intriga, vícios herdados da Revolução Cultural, e a personagem segue as regras de sobrevivência básica para desembocar na traição. Através da narrativa, o autor desvela uma sociedade de valores morais engessados que destorcem o caráter humano.
À primeira vista a trama pode parecer mais um tema lugar-comum da literatura contemporânea chinesa, ou outra obra que retrata a opressão feminina, como em “Cisnes Selvagens” de Jung Chang ou “A Peônia Vermelha” de Anchee Min, entre outras. Porém, o que nos surpreende é o talento do autor na construção convincente da narrativa psicológica feminina, o que pode levar o leitor a pensar que se trata de uma escritora. Com profundidade universal à altura de Flaubert e Eça de Queirós, Bi Feiyu revela a intimidade da mulher comum sem ser apelativo. As suas mulheres possuem uma psique complexa que subsistem na tênue fresta deixada pelo mundo dominado pelos homens. Em tal realidade, as mulheres amadurecem cedo e aprendem logo a lutar, tendo o seu corpo como arma. Elas são cruéis entre si, não possuindo nenhuma consciência coletiva de gênero e “cadela” é a manifestação mais carinhosa entre si. Yumi é a única que detém algum poder. Dentre as três irmãs, apenas Yuxiu amou, mas também é-lhe reservado o pior fim. Enquanto Yuyang é a mais secular das três e sabe como tirar proveito dos vícios da carne. Perante essas figuras femininas perspicazes e espertas, as personagens masculinas, por contraste, são rígidas, opressoras e medíocres, reduzindo-se como fracotes sedentos por sexo e impotentes.
Recomendo a leitura de “Três Irmãs” pela dedicação do escritor na descrição do mundo interior de personagens de carne e osso, na forma como as mulheres comuns pensam, amam e odeiam. É uma pequena janela que pode dar a conhecer a gente comum da China, sem maiores pretensões. Uma versão revista e ampliada da relação marital na nova China, cuja base passou de um sistema patrilinear para a equidade de direito.
Sobre o autor: Bi Feiyu nasceu em 1964, em Xinghua na província de Jiangsu, terra reconhecida pela proficuidade de intelectuais, poetas e escritores. A sua carreira iniciou na década de 1980, e a linguagem truncada do início amadureceu e atingiu o apogeu com a novela “Três Irmãs”, da qual obteve o prêmio Lu Xun de Literatura em 2004 e o Man Asian Literary Prize, em 2010. O filme “A tríade de Xangai” (título em Portugal) e “Operação Xangai” (título no Brasil), foi adaptado por ele e dirigido por Zhang Yimou em 1995.
Conheci Bi Feiyu no Rota das Letras, Festival Literário de Macau de 2013, durante a sua palestra com os alunos de Língua e Literatura Chinesas. Na altura, ao ser questionado se poderia ser considerado um autor de narrativas rurais, ele afirmou “não se considerar um escritor sentimental da terra natal, apenas se utiliza da vida no campo como um lugar para revelar o caráter humano”.

*Residente pós-doutoral da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

três irmãs_1
Título original: Yumi 玉米 [Três Irmãs]
Autor: Bi Feiyu 毕飞宇
Ano de publicação: 2002 (1ª. edição)
Taipei: Chiuko wenku, 2005
http://www.chiuko.com.tw/book.php?book=detail&bookID=1303
três irmãs_2
Three Sisters
Nova York: Houghtin Mifflin Harcourt
Ano de publicação: 2010.
Tradução: Howard Goldblatt e Sylvia Li-chun Lin
Página no Amazon:
https://www.amazon.com/Three-Sisters-Bi-Feiyu/dp/0151013640#immersive-view_1498769489272

 

 

 

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