Uma reflexão sobre o “eu” sínico

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Cheong Kin Man*

(em colaboração com Mathilde Denison Cheong)

É enquanto pessoa egoísta que escrevo esta reflexão sobre o “eu” na língua chinesa moderna (língua que prefiro designar como a língua dos Han ou, em cantonês, dos Hon). Mas não se trata inteiramente de egoísmo ou de um ego lusófono, uma vez que, mesmo que esteja a escrever em português, uma parte do meu “eu” permanece confucionista e cantonense.
Digo isso porque caio sempre nesta ilusão de que quando falo português o meu “eu” passa a ser o da língua portuguesa. Contudo, guardo sempre uma parte do “eu” da minha língua materna. Este “eu” tem ainda – mesmo que o seu significado tenha sido muito corrompido com a globalização cultural – algumas especificidades.
Uma das primeiras palavras em cantonês que ensinei à minha mulher Mathilde, de origem belga, foi justamente este “eu”: ngo (romanização adoptada em geral) ou ngão (romanização do sinólogo e jesuíta português Padre Joaquim Guerra). A nasalidade desta palavra é partilhada pelo chinês clássico, pelo fuquienense (ou fuquinense) e pelo Hac-ka (Hakka) modernos, enquanto o sinograma 我 é também utilizado em mandarim – lê-se wo – para a mesma palavra.
Ao contrário das línguas ocidentais, não podemos recorrer à etimologia. Podemos, sim, olhar para a evolução dos caracteres desde o seu aparecimento na escrita de oráculo em ossos. Nesta escrita, o carácter 我 tem a forma de uma arma e um dos significados originais é “matar”. Na maioria dos casos, a parte direita do carácter representa uma vara de madeira, a de esquerda uma ou várias lâminas. Entre as duas, está uma presilha.
Segundo o erudito Kuo Mo-Jo (Guo Moruo no pinyin generalizado ou Kvwak Moetjaog na romanização do padre Guerra), o carácter 我 representa um machado atado a um longo cabo. Para outros estudiosos, o carácter tem a forma de uma arma, com uma lâmina de três dentes ou uma faca de um só gume disposta horizontalmente sobre o suporte vertical de um cabo de madeira.

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Ge em mandarim ou kuo em cantonês é uma faca antiga disposta sobre um suporte vertical com um cabo de madeira. Foto: Museu Nacional do Palácio de Taiwan

A teoria da faca horizontal é a que nos dias de hoje está visualmente mais ligada ao carácter. De facto, o carácter moderno 我 é composto à sua direita pelo carácter 戈 (lê-se e escreve-se ge em mandarim ou kuo em cantonês, na romanização oficial de Macau. Trata-se justamente do carácter que simboliza a faca horizontal acima referida. É, além disso, utilizado como apelido, como comprova o Padre Joaquim Guerra que o escolheu para a transcrição do seu nome de família em chinês, que romanizou como Kvao, segundo o sistema que criou.
Para quem aprende outras línguas, faz bastante sentido recuperar noutros idiomas especificidades da sua própria língua. A minha mulher ficou surpreendida, por exemplo, que a estrutura em cantonês da expressão “eu chamo-me” tivesse semelhanças com a estrutura do francês.
Expliquei-lhe que, antigamente, uma boa educação exigia que uma pessoa se apresentasse preferencialmente da seguinte maneira: “O pequeno (para exprimir humildade) apelido é X, o nome próprio é Y”. A cortesia tradicional chinesa baseava-se numa humildade necessária, sincera ou simplesmente num ritual e no respeito pelos outros.
Ao ler Alex Kerr, apercebi-me de uma coisa interessante: a hierarquia social está incorporada na gramática da língua tailandesa. Enquanto tenho estado a aprender outras línguas, como coreano ou vietnamita, que são largamente influenciadas pelo confucionismo, constatei também que são idiomas que estão intimamente ligados ao estatuto social dos interlocutores. Em contrapartida, nos dias que correm, o chinês do quotidiano, sobretudo o que se fala na China continental, emprega apenas pronomes pessoais na maioria dos casos.
Para dar alguns exemplos. Em chinês clássico – ou ainda hoje na correspondência trocada entre os eruditos e na correspondência administrativa de estilo mais clássico de Taiwan – nota-se um uso muito rigoroso e complexo de títulos honoríficos em função da relação hierárquica entre o destinatário e o remetente e do contexto da carta. Também nas telenovelas e filmes históricos de Hong Kong, por exemplo, os títulos honoríficos são frequentemente empregados. Para dizer “eu”, diz-se com mais frequência “pequeno irmão”, “discípulo” ou “servidor”. Por uma questão de humildade, qualificamos, além disso, o que fazemos, o que pensamos ou o que está relacionado connosco de “estúpido” ou “desajeitado”, independentemente da sua qualidade.
Quando eu era mais jovem, ouvia em Macau as pessoas da geração dos meus pais a tratarem os outros por “grande irmã”, “grande irmão” ou a substituírem o “eu” por “pequena irmã” ou “pequeno irmão” em cantonês. Hoje, os termos “pequena irmã” ou “pequeno irmão” ainda se ouvem, mas mais por brincadeira. Na minha geração, as pessoas já praticamente não se cumprimentam com expressões como “grande irmã” ou “grande irmão”, simplesmente porque, muitas vezes, não querem parecer mais velhos.
Mas muitos detalhes sobre a utilização do “eu” na cultura chinesa estão ainda por descobrir. Discutiremos o assunto mais profundamente num outro próximo artigo.

* Cheong Kin Man é doutorando em Antropologia Visual da Universidade Livre de Berlim e realizador de Uma Ficção Inútil. Mathilde Denison estudou Arte e Filosofia na Escola de Investigação Gráfica e Universidade Católica de Lovaina francófona na Bélgica. O casal divide a sua vida entre Berlim, Macau e Namur.

 Foto do autor: Sadaf Javdani

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