Três décadas de MACAU

Em Abril de 1987 Portugal e China assinaram a declaração sino-portuguesa, que definia o processo de transição do pequeno território para a administração chinesa. Um mês depois foi lançado o primeiro número da revista MACAU. Esta é também a história de uma cidade.

taipa e coloane_feature copy

Catarina Domingues

Os trinta anos da revista MACAU são também os trinta anos da história contemporânea desta cidade que habitamos. Folhear os mais de 200 números da publicação em língua portuguesa é também conhecer a cidade que existiu, o espaço que se estudava, ambicionava e se queria erguer.
A MACAU nasceu em Maio de 1987, um mês após Lisboa e Pequim assinarem a “Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau”, que veio determinar Dezembro de 1999 como a data de transferência de administração da região para a República Popular da China. E que expectativas despertava esse momento de viragem entre as várias comunidades residentes? O futuro de Macau era discutido entre os portugueses no restaurante Solmar, era debatido nestas páginas por jornalistas, políticos, arquitectos, poetas, historiadores, juristas, cidadãos de Macau. A transição marcou a geração de mulheres e homens que aqui residiu na passagem do século.
A primeira e segunda séries da revista (1987-1999) ficaram marcadas por uma análise ao futuro político de Macau. Mas não só. A publicação mensal, que nasceu com um formato próximo de A4, apenas em língua portuguesa, acompanhou o desenvolvimento dos principais festivais de Macau; fez a cobertura dos “quatro dias triunfais” de Mário Soares numa visita à região; esteve com Amália Rodrigues, com os poetas Eugénio de Andrade e Miguel Torga; deslocou-se a Pequim, quando o desconforto estudantil se começava a fazer sentir um pouco por toda a China e pouco antes dos confrontos violentos de Tiananmen, em 1989; pensou o aeroporto internacional, que iria permitir a Macau “abrir-se ao mundo”; acompanhou de perto a concepção da nova Lei Básica; noticiou a construção do Banco da China, “a nova estrela incontestada do tecido urbano macaense”; testemunhou os primeiros e últimos dias de Chris Patten em Hong Kong e o final de uma Era para Macau, com a passagem de testemunho do último governador português Rocha Vieira a Edmund Ho, primeiro chefe do executivo da RAEM. Edmund Ho, aliás, que em 1988 ocupava o cargo de presidente da Associação de Bancos de Macau, quando assinou na revista o artigo “As oportunidades para o investimento”. Mas muitos outros nomes ligados à região contribuíram para as páginas da MACAU: Maria Ondina Braga, Wu Zhiliang, Carlos Bonina Moreno, António Conceição Júnior, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Veiga Jardim, Carlos Marreiros e Ana Paula Laborinho são apenas alguns dos exemplos.

miss macau

A Miss Macau era um dos mais importantes concursos da região. Na edição de 1987, o prémio foi atribuído a Olívia Rosário, na altura com 17 anos. Rosário foi apenas uma das macaenses que ao longo das décadas 1980 e 1990 venceu o concurso. Seguiram-se as irmãs Pedruco, Guilhermina (1989), Geraldina (1995), Guiomar (1996) e Isabela (1998).

As quatro séries que hoje podem ser consultadas na Biblioteca Central de Macau são uma espécie de enciclopédia desta cidade, que sofreu profundas alterações políticas, sociais, económicas e identitárias nas últimas décadas. Logo no primeiro número, João Miguel Roque publica um artigo sobre as ilhas da Taipa e Coloane, “os parentes pobres de Macau”, que viviam isolados de uma cidade que já se encontrava em 1987 “perto da saturação populacional e urbanística”. Ao longo dos próximos números, vão desenvolver-se temas que nunca perderam a contemporaneidade: a estratégia urbanística, a integração regional, a preservação do património, também a diversificação económica, a aposta no bilinguismo, na língua portuguesa e chinesa, e no patuá, o crioulo local.
Na história do jornalismo local em língua portuguesa, a MACAU é hoje o terceiro meio de comunicação impresso mais antigo ainda em circulação, depois do semanário “O Clarim” e do “Jornal Tribuna de Macau”.

O fim de um ciclo

Hélder Fernando tinha cerca de 40 anos quando foi convidado por Miguel Lemos, então director do Gabinete de Comunicação Social (GCS), para integrar a primeira equipa da MACAU. A nova revista oficial do Governo, sucessora da Nam Van (1984-1986) aparecia “no sentido de divulgar Macau daquele tempo, que sugeria novas transformações, dando estarem a iniciar-se conversações bilaterais entre Portugal e a RPC”, recorda hoje o jornalista, primeiro director-executivo da publicação e com carreira nas redacções da RDP-Lisboa, Rádio Clube de Moçambique e Teledifusão de Macau.
“Transição significa transformação”, podia ler-se no editorial do primeiro número, lançado no mês de Maio. À revista, dirigida “principalmente ao leitor de Macau e àqueles que integram as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo” competia “acompanhar, divulgar, ser parte viva e activa dessas transformações”.
Corria o ano de 1987. Estávamos em Maio e, no mês anterior, a 13 de Abril, Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro português, e o homólogo Zhao Ziyang, tinham assinado em Pequim o documento que definia as condições da passagem da administração de Macau, em 1999, para a República Popular da China. Este acontecimento viria a abrir o primeiro número da série inicial da revista, num dossiê intitulado “O fechar de um ciclo”: eram publicados excertos do acordo bilateral, passagens de uma comunicação do chefe de governo português ao país, fotografias dos dois líderes – numa das imagens Aníbal Cavaco Silva aparece à mesa com Zhao Ziyang a comer com pauzinhos chineses – e a entrevista exclusiva “Uma vitória da inteligência” a Zhou Nan, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da RPC.

cavaco e zhao ziyang

Aníbal Cavaco Silva e Zhao Ziyang em 1987, após a assinatura do acordo luso-chinês que definia a data da transferência de soberania de Macau para a China.

O jornalista César Manuel Camacho assinava também um artigo de opinião, questionando o futuro da Justiça e do Direito em Macau. “Que fazer dos códigos, no que diz respeito a Macau? Não se afigura previsível que a China, quando assumir a Administração do Território, possa continuar a `gerir´ a Justiça, em toda a sua latitude, tendo nos códigos portugueses a sua fonte de aplicação”, escreveu na altura.
E à semelhança deste primeiro número, também as edições seguintes continuaram a analisar de vários pontos de vista aquilo que seria o pós-99. “Todo o processo de transição, com períodos de mais ou menos intensidade, passou a ser assunto dominante e, à medida que os anos foram passando, começou mesmo a ser o assunto”, relembra agora João Miguel Roque, que integrou a equipa da revista desde o primeiro número. Roque era jovem, tinha 24 anos, dois anos de experiência profissional e um estágio concluído na Nam Van, publicação que antecedeu a MACAU. Na revista, onde trabalhou em regime de freelancer ao longo de quatro anos, acompanhou os velhos tempos do jornalismo. “[Sem internet] era preciso fazer mais telefonemas, ler mais porque dava mais trabalho procurar em documentos, bibliotecas, sobretudo nesta área cultural com alguma inclinação histórica”. João Miguel Roque, que trabalha hoje na Agência Lusa, em Lisboa, relembra que, nessa altura, a revista “era ainda montada à mão”: “Os textos eram escritos, depois iam para a Imprensa Oficial que os imprimia, vinham formatados em colunas, que depois eram cortadas a xis-acto e montadas à mão nas maquetes das páginas da revista”.

Cultura, história e investigação

Desde esses primeiros tempos, a revista, propriedade do governo de Macau, acompanhou de perto a agenda oficial: as deslocações do governador Carlos Melancia à China ou visitas dos líderes portugueses à cidade. Quando Mário Soares veio a Macau, em 1989, foram dedicadas 13 páginas aos “quatro dias triunfais” do chefe de Estado português, desde o programa oficial, passando pelo encontro com um adivinho “que leu a sina ao Presidente, vaticinando-lhe uma vida muito longa e novos sucessos na sua carreira”.
Mas desde o início da MACAU houve também interesse em abordar uma outra dimensão da cidade: a cultural. “A economia, o crescimento, a prosperidade e a estabilidade continuavam a ser as palavras de ordem e [em Macau] não era dada tanta atenção à actividade cultural”, relembra João Miguel Roque. A gastronomia portuguesa, chinesa e macaense, “os barulhos da cidade”, a língua, a poesia, o cinema, a música e o ano novo chinês, ou a vida e obra de Wenceslau de Moraes, de Camilo Pessanha e de Mio Pang Fei são alguns dos temas que encontraram eco na publicação.
É na segunda série (1992-1999), com um formato de capa mais pequeno, mais páginas e um novo grafismo, que esta dimensão cultural ganha maior visibilidade. Em Maio de 1992, a revista transita através de concurso público para a Livros do Oriente, empresa do jornalista e editor Rogério Beltrão Coelho, mantendo-se propriedade do Gabinete de Comunicação Social. Há uma clara aposta num jornalismo cultural, histórico e de investigação, com artigos mais extensos e novo espaço para a fotografia. Em 1994, por exemplo, no número 31 escrevem-se 40 páginas sobre a presença dos Jesuítas em Macau, com trabalhos assinados por António Baptista, Rodrigo Rodrigues Dias e João Guedes.
Formado em Direito e com uma longa carreira na Teledifusão de Macau, João Guedes iniciou na MACAU o percurso de historiador. “Ninguém escrevia sobre história”, refere em entrevista, relembrando que quase foi “posto no barco e enviado para Portugal porque disse que se dizia que o Bispo D. José da Costa Nunes era maçom”.
“Quando eu cá cheguei já não havia censura, foi depois do 25 de Abril, mas as pessoas continuavam com muito medo porque havia aqui dois poderes que literalmente impediam de se escrever livremente sobre determinadas coisas, um eram os governadores e outro era a Igreja Católica”, nota João Guedes, que ainda hoje se dedica ao estudo da história de Macau nos séculos XIX e XX. “Para mim, antes disso não tem interesse, sobre isso toda a gente escreveu e porquê? Porque era fácil escrever, ninguém era censurado por escrever sobre Jorge Álvares”. O jornalista, que entrevistou e privou com o escritor Austin Coates e o historiador Charles Boxer, é um dos poucos colaboradores que mantém até aos dias de hoje uma ligação profissional à revista.

“Havia aqui dois poderes que literalmente impediam de se escrever livremente sobre determinadas coisas, um eram os governadores e outro era a Igreja Católica” – João Guedes, jornalista e historiador

Mais China e PLP

Em Dezembro de 1999, Rogério Beltrão Coelho, na qualidade de editor, e Cecília Jorge, directora-executiva, publicam numa edição especial de 286 páginas o balanço dos “8 anos da II série da Macau”: 92 edições em língua portuguesa, 10.284 páginas, 461.500 exemplares e 3.000 temas trabalhados por 263 colaboradores. O número, que assinala o momento da transição, apresenta um extenso dossiê de 34 páginas de Gilberto Lopes sobre “O que vai ficar de Portugal”. A Livros do Oriente mantém-se à frente da terceira série da revista, agora propriedade do primeiro Governo da RAEM, e que no novo milénio se torna trimestral. Entretanto, já circulava desde 1997 uma versão da revista em chinês. A edição inglesa, que teve início em 2000, era produzida pela mesma equipa de Beltrão Coelho.
Em 2005, novo concurso público atribui a produção, gestão e distribuição da quarta e presente série à Delta Edições, empresa do jornalista Luís Ortet, antigo colaborador, que no primeiro editorial escreve que a revista “manterá a sua vocação de promotora e divulgadora da realidade de Macau, na singularidade do seu estatuto de Região Administrativa Especial da República Popular da China e de ponto de encontro de culturas”. Com Luís Ortet voltou a mudar o grafismo e o formato da revista, as novas tecnologias permitiram transportar o projecto para o mundo virtual e, mais recentemente, lançar uma aplicação para telemóvel.
João Miguel Roque, que deixou Macau em 2003, admite que continua a acompanhar a publicação. “Naturalmente há alterações de estilo e de orientação, mas penso que a revista continua a ter esse papel de contar Macau para além das luzes, dos casinos e dos números das receitas do jogo. Continua [a fazê-lo] depois de todas as transformações que sofreu”, considera.
Já João Guedes nota que “há substancialmente menos história” numa revista que mudou após o período de transição. “Não havia hipótese nenhuma senão a revista reflectir essa mudança”, considera.
Apesar da MACAU nunca ter esquecido as outras regiões do mapa onde se falava português, a verdade é que foi com a criação do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), em 2013, pelo Governo Central, com o objectivo de promover o intercâmbio entre o país asiático e o universo lusófono, que passou a focar-se mais em temáticas relacionadas com as ligações multilaterais. Macau e a MACAU eram agora a plataforma que ligava esses dois mundos.

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Alguns momentos da MACAU ao longo das últimas três décadas

Mais sobre a MACAU:

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Trabalho de Maria do Rosário Lopes sobre a história dos hotéis em Macau. Agosto de 1995

Série I:
(1987-1991)
Mensal
42 números

Série II:
(1992-1999)
Mensal
92 números + 5 edições especiais em inglês

Série III:
(2000-2004)
Trimestral
20 números

Série IV:
(2005-presente)
Inicialmente trimestral e actualmente bimestral
56 números

Pode ler aqui o trabalho da jornalista Luciana Leitão sobre 30 anos da MACAU para o Extramuros

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