30 anos revista MACAU: A habitação tradicional chinesa

Luciana Leitão

palafitas

Ah Leung é um dos moradores das casas sobre palafitas de Coloane (FOTO: Gonçalo Lobo Pinheiro/Revista MACAU)

São “poucos” os antigos exemplares da habitação tradicional chinesa que sobrevivem à passagem do tempo. Numa reportagem publicada em Agosto de 2016, na revista MACAU, Catarina Domingues dá a conhecer uma série de habitações antigas chinesas, como as casas sobre palafitas, as casas-pátio ou as casas-loja que sobrevivem no território. Em Coloane, Ah Leung, 60 anos, prepara peixe seco salgado num pátio. “A roupa estende-se pelos cantos do quintal, escadotes de madeira e baldes de plástico permanecem amontoados por aí, um cão chamado Ah B ladra na casa ao lado. Pouco terá mudado nas últimas décadas na vida destas casas sobre palafitas. Lá ao fundo sim, do outro lado da margem do rio, na ilha da Montanha. Novos blocos residenciais ocupam a base da montanha; depois há um hotel gigante que mais parece um castelo”, lê-se no artigo. Erguida pela família há 60 ou 70 anos, a casa, com dois quartos, “foi construída em várias fases — a estrutura principal era de madeira, mas com o tempo foi revestida a chapa ondulada de zinco, agora manchada a ferrugem, tinta branca.” Aqui viveram pelo menos sete pessoas. Dormiam “na sala ou no mesmo quarto”, diz Ah Leung, citado no artigo. Como a maior parte dos que “habitam as casas sobre palafitas”, a família vivia do mar. O pai, de Yangjiang, província de Guangdong, fugiu da guerra com o Japão nos anos 1930. A vizinha do 26 da Rua dos Navegantes, Ip Kam Fa, viveu até aos 15 anos num barco, acabando por vir para terra por causa dos tufões. “Nesta casa de dois quartos, várias divisões espalham-se ao ar livre”, lê-se na reportagem.
As primeiras casas sobre as palafitas em Macau datam do século XVI e foram construídas pela diáspora chinesa. “São o tipo de habitações dos pescadores do Sul da China”, nota o historiador da Universidade de Macau Vincent Ho, citado no artigo, referindo que “por não terem suposto direito de propriedade, os pescadores mantinham-se sempre à margem do terreno”. Já Nuno Soares, arquitecto e urbanista, afirma que são “uma evolução” da habitação nos barcos. “O pé direito, a largura, a técnica com que eram construídas é muito próxima da construção naval”, salienta. “Tem uma varanda virada para o rio, como os barcos têm uma varanda na parte posterior, tem dois pisos e umas escadas de barco íngremes.” Inicialmente construídas de madeira, estas casas foram sendo revestidas a outros materiais. “Ainda há poucas décadas, existiam casas sobre palafitas em várias zonas da cidade. Hoje, restam apenas duas dezenas de exemplares em Coloane – algumas abandonadas – localizadas ao longo de 300 metros entre a vila e a Ponte Cais”, lê-se no artigo.
Por outro lado, a casa-pátio corresponde a uma unidade de vizinhança: um grupo de casas viradas para um espaço aberto comum. São exemplos disso em Macau o Pátio da Claridade, o Pátio das Seis Casas e o Pátio da Eterna Felicidade. Construídas sobretudo no século XIX no antigo bazar chinês, são sobretudo visíveis no Porto Interior. Compostas por dois andares, estas casas foram construídas com técnicas tradicionais chinesas: paredes estruturais de alvenaria, telhados inclinados, pé-direito alto. “Do ponto de vista morfológico, de organização social e da vivência são muito específicas e muito diferentes daquilo que podemos chamar as residências da comunidade portuguesa ou católica de Macau”, aponta o arquitecto Nuno Soares, citado no artigo, que defende a preservação destas estruturas “ameaçadas”.
E ainda há quem opte por “viver ao ar livre”, com a porta principal aberta, apenas a grade de protecção a separar do interior. “Lam está sentada à secretária a trabalhar; uma estante de madeira clara, com revistas e livros arrumados ao monte, divide o escritório da sala de estar. Outros mil objectos estão espalhados pelo espaço. A sala, com um pé direito invulgarmente alto, está ligada a um sótão por umas escadas metálicas. Em breve, Lam vai juntar-se cá fora à conversa, mantém quase sempre um pé dentro do espaço onde vive”, lê-se. “Sofia e Lam conhecem-se desde pequenas. Os pais costumavam estar aqui fora sentados à conversa. “Ainda se mantêm velhos hábitos, já nos prédios altos, os vizinhos não se conhecem”, afirma Sofia. “Saímos à rua e temos a sensação de que o pátio é nosso”, completa Lam.
A casa-loja é outra tipologia tradicional das cidades costeiras do Sudeste Asiático. Predominantes em Macau no século XIX e primórdios do século XX, estas são estruturas híbridas, de uso misto, que combinam a actividade comercial e habitacional. São na maioria estruturas baixas, de dois ou três andares – o rés-do-chão é utilizado para o negócio e os pisos superiores como casa. “Macau foi este ponto estratégico que teve muitas influências de outros locais e essas influências muitas vezes nem são cópias, não são transformações radicais, mas adaptações. Muitas vezes pega-se num elemento do local, associa-se às condições locais que temos em Macau e surge uma pequena evolução dentro daquela tipologia maior”, explica o arquitecto Nuno Soares, no artigo da revista MACAU. No território, esta tipologia está muito presente nas antigas áreas comerciais e reflecte a influência ocidental e oriental. Apresenta frequentemente uma particularidade: um kok chai – trata-se de um piso de mezanino com tecto baixo ligado ao rés-do-chão.

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Primeiras páginas da reportagem “É uma casa chinesa, com certeza” de Catarina Domingues. Fotografias de Gonçalo Lobo Pinheiro. Revista Macau, Agosto de 2016

[Este texto fecha uma série do Extramuros em que se recuperaram alguns dos momentos que marcaram as três décadas da revista MACAU, uma das mais antigas publicações em língua portuguesa ainda em circulação]

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