30 anos revista MACAU: A batalha de Coloane

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Luciana Leitão

Em Julho de 1910, tinha lugar a última grande campanha militar da cidade, “quando as tropas disponíveis no território foram chamadas a desalojar piratas que a infestavam”, contava João Guedes na revista MACAU.
Segundo o autor, num artigo publicado em Novembro de 1993, foram “mais de duzentos homens do exército da marinha e da polícia, apoiados por artilharia de montanha e armamento pesado de canhoneiras e de um cruzador”, que “obtiveram uma vitória cuja história ainda hoje permanece envolta na controvérsia política”.
“A campanha teve início numa manhã de terça-feira, 12 de Julho de 1910, com o desembarque de dois pelotões do exército na vila de Coloane, terminando a 25 do mesmo mês com um saldo de três mortos e um ferido entre as forças militares e policiais (um sargento, um cabo, um soldado e um guarda da PSP), várias dezenas de mortos entre piratas e civis (que alguns jornais da época dizem ter ascendido a mais de 80) e duas centenas de presos, 50 dos quais foram remetidos sob escolta para Macau a fim de serem julgados em tribunal marcial”, recorda o autor. O bombardeamento reduziu a vila quase a escombros.
Tudo terá começado com uma queixa apresentada através de um advogado local às autoridades portuguesas denunciando o rapto de 18 crianças de uma aldeia dos arredores de Macau por piratas que tinham o seu quartel-general em Coloane. Mas o autor vai mais longe, alegando que “a verdade” remonta a alguns anos antes “e tem directamente a ver com a necessidade de afirmação da soberania portuguesa sobre as ilhas dependentes de Macau, particularmente Coloane, a mais disputada do ponto de vista da China, já que a sua ocupação formal apenas se tinha consumado menos de 70 anos antes, durante o governo de João Maria Ferreira do Amaral”.
A-Po foi uma das sobreviventes desta campanha, mas o pai, avó e mãe não tiveram a mesma sorte. “Foram vocês, kwailos — diz ela —, começaram a disparar tiros de canhão de um navio sobre a vila e sobre os juncos. Uma granada caiu junto à sampana e eu fui atingida. Senti uma dor intensa [mostra a cicatriz na perna direita], mas não me lembro bem do que se passou depois. Sei apenas que minha avó, minha mãe e o meu pai morreram. Nós não éramos piratas!…” Um enfermeiro do posto de saúde de Coloane assentia: “Sabe que Coloane era mesmo um ninho de piratas? Olhe para aquela casa semi-destruída. Era uma casa de penhores… Olhe para aquela rua: é uma viela estreitinha, mas quase rivalizava com a Almeida Ribeiro do princípio do século, em comércio e movimento, e sabe porquê? Exclusivamente por causa dos piratas.”

[Este texto faz parte de uma série do Extramuros em que se recuperam alguns dos momentos que marcaram as três décadas da revista MACAU, uma das mais antigas publicações em língua portuguesa ainda em circulação]

Outros posts:

Os 100 anos do Liceu (Outubro 1993)
A lepra através dos tempos (Janeiro, 1993)
A carimbadela no umbigo (Junho, 1992)
Artistas dão cartas em Singapura (Julho, 1989)
A China em Construção (Maio, 1988)
A história da “Tia Chencha”
 (Abril 1988)
A Agência Lusa abria uma delegação em Macau 
(Fevereiro/Março 1988)

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