Sheng Keyi, uma escritora a subir a montanha

Hélder Beja

 

 

 

 

Hélder Beja*

Conheci Sheng Keyi quando tropecei em Northern Girls, primeiro romance da autora traduzido para inglês e publicado pela Penguin, sobre jovens mulheres da China nortenha e rural que viajam para a sulista província de Cantão em busca de uma vida melhor. “Escreve o que conheces”, aconselha Mark Twain. E Sheng Keyi, que nasceu na província de Hunan, bem nas margens do rio Lanxi, fez isso mesmo. Keyi foi uma dessas northern girls, quando aos 19 anos comprou um bilhete de comboio, desapareceu de casa e se pôs a caminho de Shenzhen. Trabalhou numa empresa de segurança. Trabalhou como editora de uma revista. Começou por escrever contos e, anos depois, decidiu estudar jornalismo na Universidade de Shenyang, subindo novamente às províncias do norte.
Em 2012 convidámo-la a estar no Festival Literário de Macau e, enquanto preparava o programa, olhei várias vezes a sua fotografia como olho novamente agora, para escrever estas linhas. É uma fotografia a preto-e-branco, quase de perfil. Keyi tem a cabeça coberta com uma espécie de manto. Os cabelos desalinhados escondem pequenas fracções do seu rosto muito pálido, os olhos parecem semicerrados e fixam a câmara, e há um sorriso contido que se desenha. Tudo nela é frágil, tudo nela é forte.
Tive a mesma sensação quando finalmente a vi em Macau, caminhando sozinha, serena, limitada pelo pouco inglês que articulava mas também salva por essa falta de vocabulário – salva de ter de se dar a toda a gente.

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No belíssimo Teatro D. Pedro V, Keyi falou do seu livro, da China e da literatura na China, falou do lugar do escritor no mundo contemporâneo. Se já gostara de lê-la, impressionou-me ouvi-la. Nunca mais lhe perdi o rastro.
Mantivemos contacto ao longo dos anos, sempre através dessas malditas redes sociais. Quando lhe disse que preparava este texto, ficou contente. “Estou tão feliz com a tua mensagem. Podes perguntar-me o que que quiseres, responderei em breve.” Não quis inundá-la com perguntas mas interessava-me saber certas coisas, a começar por isto: qual o grande desafio que alguém como Keyi – mulher, chinesa, escritora – enfrenta? “Julgo que o maior desafio ainda é a ansiedade e o stresse de escrever. Porque para ser uma escritora tenho primeiro de ser uma pessoa, uma cidadã chinesa. No entanto, aquilo que uma pessoa e uma cidadã é, deve estar presente naquilo que escrevo de uma forma poderosa. Quando há montanhas diante de nós, a arte de rodopiar no ar da realidade é extremamente importante para os escritores”, diz-me Keyi por email, em chinês, depois traduzido e traduzido outra vez, para chegar aqui.
O “ar da realidade” de que fala Sheng Keyi fê-la rodopiar para a fama relativa, primeiro nos círculos literários do Sul da China e de Pequim, depois nos Estados Unidos da América, com a publicação em inglês de Northern Girls, livro que recebeu largos elogios da crítica e foi finalista do Man Asian Literary Prize. Pelo meio, escreveu de tempos a tempos uma coluna de opinião no The New York Times – uma escrita activista, socialmente comprometida, sobre o papel da mulher na sociedade chinesa, a gravidez, o aborto; sobre a contaminação pela indústria dos cursos de água do país, que vêm destruindo comunidades reais ao mesmo tempo que devastam a ideia intangível de uma infância de riachos cristalinos e verdes prados que Keyi conserva.
“Sempre quis conhecer o que estava nos lugares distantes, o que estava do outro lado. Quando era muito nova, tinha 10 anos, atravessei o rio [Lanxi] a nado para ver o que existia do outro lado”, contou numa entrevista à Griffith Review. Esse era o tempo em que a então maria-rapaz Keyi, a mais nova de quatro irmãos, de calças arregaçadas e pés enlameados, via televisão a preto-e-branco na casa dos vizinhos. Em 1989, quando os incidentes de Tiananmen chocaram o mundo e chegaram distorcidos àquelas partes da China via TV, Keyi tinha apenas 16 anos. E se é verdade que as sua experiência de vida e as mulheres que conheceu na província de Cantão a fizeram escrever Northern Girls e criar a protagonista Qian Xiaohong, uma rapariga muito sexualizada e que, entre outros atributos, tem, digamos, umas grandes mamas; as memórias de Tiananmen e a China actual guiaram-na pelas ruas de Swan Valley, no país ficcional de Dayan, casa de uma sociedade distópica que a escritora apresenta em Death Fugue, segundo romance a ser traduzido para inglês e primo afastado de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Em Death Fugue, após um incidente que faz lembrar em tudo a supressão violenta dos movimentos estudantis em Tiananmen, o poeta Yuan Mengliu desiste da poesia para se tornar médico. Yuan Mengliu acaba por chegar a um lugar estranho, uma sociedade que à primeira vista parece perfeita, mas que se revela bem mais complexa e perigosa do que poderia aparentar: é Swan Valley.
Há muito de absurdo neste romance de Sheng Keyi, como há também a habitual carga sexual que marca a escrita desta mulher. Na lavoura da narrativa, ela guarda também parcelas de terreno para temas como o polémico controlo da natalidade na China e a discriminação. O grupo editorial Penguin, que publicara o seu primeiro título, não se interessou por Death Fugue. Keyi contou ao The New York Times que nem sequer resposta recebeu da editora. Em chinês, Death Fugue saiu em Hong Kong e Taiwan. E em 2014 foi dado à estampa em inglês por uma pequena casa editorial australiana, a Giramondo. Na China Continental está, naturalmente, proibido.
A montanha parece cada vez mais inclinada mas Keyi não se rende. Diz-me que trabalha há mais de um ano num novo livro, outra vez inspirado “nesses acontecimentos loucos e ridículos da história da China”, acontecimentos não especificados e que a escritora descreve assim: “São como uma agulha venenosa a injectar no meu sangue, fazendo-me incapaz de me acalmar. Escrever este romance é uma forma de resistência e de matar o vírus.”
Em temporadas passadas na Europa e nos Estados Unidos, entre o combate com os venenos de que se fazem os grandes livros, Sheng Keyi ainda encontra tempo para pintar – já expôs várias vezes os seus trabalhos – e para ler. “O meu primeiro contacto com literatura foi através do meu avô. Ele adorava escrever poesia e caligrafia, e tinha uma caixa de madeira, um ‘tesouro’ com muitas coisas dentro. No começo, só me interessavam as guloseimas que encontrava lá dentro. Mais tarde, comecei a ler aqueles livros. Lembro-me que o primeiro foi uma novela de kungfu, chamada Sword Stained with Royal Blood”, conta Keyi. “Acredito que devemos usar o nosso tempo limitado para ler os clássicos, incluindo filosofia, história, literatura, etc. Não interessa se se é leitor ou escritor.” Thomas Paine e Vaclav Havel são alguns dos autores que refere, como aponta também os clássicos chineses Zizhi Tongjian (资治通鉴), os Analectos de Confúcio e o seu favorito, a antologia de ensaios Guwen Guanzhi (古文观止), datada do século XVII.
Para Keyi, no passado como no presente, “um romance deve ter o poder de ofender”, tal e como escreve na nota autoral que precede Death Fugue. Isto, que parece muito simples, não é. E podia muito bem ser um dos mandamentos para toda a sua obra.

* jornalista e director de programação do Festival Literário de Macau – Rota das Letras
(Foto de perfil : Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

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