Cartoons de Ding Cong

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Márcia Schmaltz*

Ding Cong (1916-2009), mais conhecido como Xiao Ding, é um dos mais aclamados cartunistas chineses. Numa tradução literal para a língua portuguesa, poderíamos referir-nos a ele como “Dingzinho” ou “jovem Ding”. De acordo com o próprio, a escolha de sua alcunha ocorreu por ser o filho do “velho Ding”, Ding Song (1891-1972), renomado desenhista autodidata e fundador da Escola de Artes Plásticas de Shanghai, somado aos borrões na impressão provocados pelos muitos traços de seu nome (cong ). Assim, o uso do apelido ding , que remete à acepção de “pessoa comum”, foi a sua escolha natural e considerado pelo próprio uma boa definição de si mesmo, por apenas possuir o ensino secundário e nunca ter ocupado uma posição social de destaque.

cartoons de Ding Cong

Cartoons de Ding Cong [Comics of Ding Cong / 《讽刺画》 fengcì huà]

O amor pelo desenho surgiu dentro de casa, lugar onde abrigava a Associação de Ilustradores. Era ali que se reuniam artistas plásticos influentes como Zhang Guangyu (1900-1965) e Ye Qianyu (1907-1995), que foram os mentores de Xiao Ding. Mesmo contrariando a vontade do pai, decidiu seguir a mesma carreira. A sua primeira ilustração foi publicada quando tinha apenas 15 anos e, aos 19, foi contratado como ilustrador num jornal de Shanghai, que logo foi fechado devido à censura. A seguir, passou a atuar como projetista gráfico em publicidade de cinema e editava a revista ilustrada Liangyou. Nas horas vagas, ia à Escola de Artes Plásticas para desenhar modelos-vivos e, mais tarde, por vontade do pai e para agregar renda, atuou como professor de desenho.

O êxito inicial de sua carreira foi brutalmente interrompido quando deflagrou a invasão japonesa na China (1937-1945). As vicissitudes da guerra obrigaram-no a se refugiar em Hong Kong (1937-1939). Mesmo no exílio, mantém-se nas fileiras contra a opressão japonesa como ilustrador e editor das revistas Liangyou, China Today e Dadi. Em 1939, durante uma exposição de gravuras de resistência japonesa em Hong Kong, Song Qingling, viúva do ex-presidente Sun Yat-sen, escolhe a gravura Refugiados (ver imagem) de Xiao Ding para a campanha de arrecadação de fundos de apoio aos refugiados chineses. A foto com a ex-primeira dama é uma de suas relíquias.

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Refugiados (1939, óleo sobre tela) de Ding Cong

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Ding Cong e Song Qingling na Exposição de Gravuras de Resistência à Invasão Japonesa (FOTO: Ye Qianyu)

Dentro do cenário da ocupação japonesa, Hong Kong era um oásis da resistência. Xiao Ding sentia-se fora da realidade e compeliu-se a voltar ao Continente. De 1939-1941 morou em Chongqing, capital provisória, e Chengdu, ambas no Oeste da China. As condições econômicas e sociais precárias levam Xiao Ding a atuar como professor de desenho, cenógrafo, figurinista e flautista para manter a sobrevivência. Paralelamente, participava junto a outros artistas em exposições. Em janeiro de 1941 ocorre o rompimento da aliança entre nacionalistas e comunistas. Xiao Ding junto com outros artistas de esquerda retiram-se abruptamente do Continente. Passam por Mianmar, Vietname e retornam a Hong Kong. Em Mianmar, Xiao Ding desenhou uma série de esboços humanos, revelando rigorosa habilidade, considerada pela crítica o seu apogeu artístico. Uma de suas obras-primas no período de resistência em Hong Kong é Os dias de hoje (1943). A pintura retrata a corrupção governamental e a decadência social do final da Guerra, em dose ácida, mas sem perder o humor.

Ding Cong_Os dias de hoje

Os Dias de Hoje (1943) Fonte: Museu de Arte Spencer da Universidade de Kansas, EUA.

Passada a Segunda Guerra Mundial, Xiao Ding volta ao continente e engaja-se no movimento pró-democracia (ver imagem O homem dócil). Através de sua pena, inúmeros cartoons sarcásticos são lançadas contra a corrupção do Partido Nacionalista (Guomingdang) e a permanência dos Estados Unidos da América na China. Um dos quadros de destaque é Realidade, que desvela o desmando das forças governamentais, imperialistas e empresariais, resultando na pobreza extrema. Por conta disso, foi perseguido e obrigado a se exilar outra vez em Hong Kong.

Ding Cong_o home dócil

O homem dócil (1945). No cérebro a inscrição “Autocrítica”.

Ding Cong_realidade

Realidade (1947)

Pouco antes da proclamação da República Popular da China (1949), Xiao Ding entrou na lista dos artistas engajados com a causa revolucionária e retornou ao Continente. Logo foi designado como editor artístico da revista ilustrada Remin [O Povo]. O cartunista esperava que finalmente pudesse exercitar a sua arte com tranquilidade em Pequim. Porém, malfadada a sua sorte, poucos anos depois foi considerado como “direitista” e caiu em desgraça entre 1957 a 1979, altura em que teve de interromper a ilustração devido às campanhas de retificação que recaíram sobre ele. Mesmo com a dura rotina de trabalho nos campos de reeducação manteve-se otimista e desenhava às escondidas o cotidiano do norte árido e, quando lhe tiraram a pena, fazia recortes de embalagens plásticas da fazenda de suínos. Apenas em 1979, com o fim da Revolução Cultural, Xiao Ding foi reabilitado e pôde retomar a carreira de ilustrador. Entre os seus trabalhos destacam-se as ilustrações para Os contos de Lu Xun, Camelo Xiangzi, Quatro gerações vivas de Lao She, contos infantis chineses e uma frutífera colaboração de trinta anos à revista literária Dushu (Leitura).
A principal característica dos cartoons do ilustrador é o tom satírico e humorístico, em pinceladas precisas e certeiras. Ding Cong acreditava que o cartoon tem que desvelar “a feiura” de um período, à semelhança da comédia. Certa vez declarou que “por mais que um cartunista possa ter o domínio técnico, de nada valerá se não tiver a sensibilidade ao mundo que o rodeia”. E foi assim que se dedicou para retratar a sociedade, com coerência e ao lado do povo, doa a quem doer.

*Residente pós-doutoral da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

Outros trabalhos do autor:

Ding Cong_ao serviço do povo

Inscrição: “Ao serviço do povo”, abaixo: “devolva-me ‘o povo’”.

Ding Cong_burocracia

Burocracia. O velho pergunta: Quando conseguiremos comover Deus?

Mais sobre a obra:

Cartoons de Ding Cong [Comics of Ding Cong / 《讽刺画》 fengci hua]
Autor: Ding Cong 丁聪
Pequim: Sanlian 三联, 1999. ISBN: 9787108012807
Série em quatro volumes: vol. 1 (1978-1986), vol. 2 (1985-1992), vol. 3 (1992-1998), vol. 4 (1986-1992)
Disponível aqui

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