ROTA DAS LETRAS: A identidade de Grace Chia

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Grace Chia (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

Grace Chia nasceu entre mundos, vive entre a “chinesidade” e a “ocidentalidade” e tudo isto existe no que escreve. A autora de Singapura, que se expressa em inglês, tem oito livros publicados. Entre a prosa e a poesia, surge a raça, o género, a identidade. Falámos com a escritora em Macau, onde se encontra para participar no festival literário Rota das Letras.

Catarina Domingues

A questão da identidade é um tema presente na sua obra. O que levou a que se interessasse por este tema?
A questão da ambivalência racial é um tema sobre o qual estou sempre a escrever, desde o meu primeiro livro. Também a questão do género. Eu sou de etnia chinesa e na escola tive de aprender mandarim e inglês. As línguas em si são indicadores da cultura e, tendo eu duas línguas na minha cabeça, sendo obrigada a aprendê-las, é claro que também acabo por me questionar a que cultura pertenço eu. Sou mais chinesa ou mais inglesa? Sou mais chinesa porque pareço chinesa, porque gosto de comida chinesa ou de coisas chinesas, seja lá isso o que for, ou sou mais inglesa porque penso, sonho, falo e escrevo unicamente em inglês? Mas também há escritores que se sentem mais confortáveis a escrever numa língua que não esteja associada à sua raça, talvez porque os distancie da sua origem e herança.

É o que se passa consigo?
Não é possível fugir ao facto de ter vivido fora cerca de 13 anos e de ter aparência chinesa. Vivi entre cinco e seis anos no Reino Unido, mais quatro noutros países europeus, um ano na Austrália e entre um e dois anos na América do Norte. Portanto, a raça tornou-se algo muito óbvio para mim sempre que estou fora da Ásia. Quando aqui estou não dou conta da questão da raça, mas quando parto, sinto-o e essa herança asiática e chinesa tanto pode ser um trunfo como uma desvantagem. Digo que pode ser um trunfo porque, lá fora, os asiáticos vêm ter comigo e tratam-me como se fosse um deles, mesmo não nos conhecendo. Acabo por encontrar pessoas de Taiwan, China ou de países como a Tailândia só porque temos parecenças. E essa pode ser a única coisa que temos em comum.
Apesar de me considerar uma pessoa moderna na forma como penso, sinto, na minha filosofia e no meu comportamento que é muito ocidentalizado, eu diria que, ao crescer, senti-me por vezes em conflito. Eu fui criada por pais chineses, a meritocracia é muito importante, o sucesso no estudo, o arranjar um bom emprego. Não que seja necessariamente verdade, aprendemos isso mais tarde, mas é isso que os teus pais te ensinam: a comunidade é importante, a família é importante, a piedade filial é importante. Todos estes aspectos muito chineses estão enraizados no teu ADN. Mas por outro lado, como leio literatura em inglês, seja do Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Singapura ou de outros sítios, isso acabou por mudar a forma como me associo à cultura que adquiri. É a questão do inato versus adquirido. Portanto, sou eu um produto da natureza ou da minha educação? Ou será que sou um produto dos dois? Penso que nos podemos sentir confortáveis com os dois, portanto eu aceito a minha chinesidade e a minha ocidentalidade e encontro um terceiro caminho além desse.

Há escritores que se sentem mais confortáveis a escrever numa língua que não esteja associada à sua raça, talvez porque os distancie da sua origem e herança.

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FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau

Falava em casa com o seu pai em inglês.
O meu pai trabalhou para o funcionalismo público britânico mais de 20 anos. Só soube isso há pouco tempo, durante uma conversa que tivemos. O inglês dele é muito bom, mas claro que também fala o próprio dialecto. Se tivermos uma discussão vai ser em inglês.
O meu pai fala com a minha mãe no dialecto teochew , embora a língua materna dela seja o cantonês. Como ela casou com o meu pai, tem de falar a língua dele – isto é algo muito chinês. A minha mãe também nasceu em Singapura, mas etnicamente é hakka (grupo étnico chinês) e fala cantonês. Ouvi-a toda a minha vida falar cantonês, mas eu nunca aprendi. Ela morreu no ano passado e estar agora aqui em Macau [onde se fala cantonês] traz-me muitas memórias. Não é uma língua fácil, mas pelo menos socorro-me aqui do meu mandarim.

E como trata essa questão da identidade nas suas obras?
A maioria das coisas que escrevo aborda essa questão. O livro The Cuckoo Conundrum, bastante conhecido, conta a história de uma mulher que deixou Singapura durante muitos anos e regressa a casa, não conseguindo reconhecer o próprio país. Outra história em que toco na questão da identidade é no livro Gold Water, que fala de duas pessoas que se conhecem em Londres, onde estão a estudar. Uma é singapuriana e outra taiwanesa e a história é sobre esta amizade e viagem que fazem ao longo de um determinado período, no qual tentam ensinar uma à outra as suas próprias culturas. Nesta história, a taiwanesa, que está a fazer um doutoramento em Estudos Culturais, vive no Reino Unido e recusa-se a falar inglês, apesar de estar a fazer o doutoramento em inglês. Já a personagem de Singapura tem de fazer um esforço para falar mandarim, para que possam estabelecer qualquer tipo de amizade e comunicação. Enquanto uma acaba por partilhar ideias, filosofias ocidentais, a outra partilha aspectos da sua chinesidade. A ideia é que às vezes precisamos de mudar a forma como pensamos para nos tornarmos em alguma coisa que não sabíamos que podíamos ser. É uma questão de mudar de perspectiva sobre aquilo que devemos ser e tornarmo-nos qualquer outra coisa, permitindo que a vida tome conta de nós e nos leve por uma direcção diferente.

Não tem obras traduzidas. Tem planos para entrar no mercado chinês?
Gostava muito que os meus livros fossem traduzidos para outra língua, seja português ou chinês. Em Singapura não existe um sistema de agenciamento, temos os escritores e as editoras. Se as editoras quiserem entrar na China, têm de estar dispostas a correr o risco e a verdade é que em Singapura estão mais focadas no Ocidente, no Reino Unido e Estados Unidos devido à língua. Mas não nos podemos esquecer que também temos autores chineses e malaios, é uma sociedade multicultural.
Penso que a poesia é muito difícil de traduzir, faço muitos jogos de palavras. Num poema em que se brinque com a língua, em que se use alguma ironia, como é que se faz a tradução das entrelinhas?

Every Moving Thing That Lives Shall Be Food by Grace Chia

 

GRACE CHIA tem oito livros publicados, dos quais se destacam o romance The Wanderlusters, a colecção de contos Every Moving Thing That Lives Shall be Food e as colecções de poesia Womango e Cordelia. A autora de Singapura editou a antologia de prosa We R Family e fundou o primeiro jornal online de literatura feminina Junoesque. Chia, formada em Estudos Literários pela Universidade de Londres, trabalhou como jornalista, deu aulas na Universidade Tecnológica de Nanyang, foi mentora de escritores emergentes e júri de diversas competições de poesia em Singapura.

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