Rota das Letras: A poesia visual de Chen Li (com vídeo)

Chen Li_sessão

Chen Li (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)


Catarina Domingues

Para Chen Li, um ser humano divide-se em vários outros seres humanos. E só assim se justifica que, além de poeta, Chen Li seja também professor, tradutor, organizador de um festival de poesia, muitas outras coisas. “Não há nada de novo debaixo do sol”, diz. “São necessárias todas estas camadas de vida para que viver faça sentido”.
Considerado pela crítica um dos “mais inovadores e emocionantes poetas de hoje a escrever em chinês”, Chen Li está em Macau para participar na 6.ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Encontramo-nos no edifício do Antigo Tribunal, onde ao fim da tarde o poeta vai participar numa sessão sobre tradução literária. São três e meia da tarde, Chen Li chega à entrevista antes da hora marcada. Diz-me que visitou Camões e A-Má, deusa dos pescadores e navegantes.

“Um poeta é uma espécie de bruxo e, muitas vezes, sinto-me possuído pela língua, pelos próprios caracteres chineses ou por qualquer outro momento de inspiração. Hoje fui visitar a gruta de Camões e o templo A-Má. O meu primeiro livro de poesia chama-se Em frente do templo, porque mesmo à frente da minha casa, na cidade de Hualian, está o templo A-Má. Além disso, estou a pensar escrever um poema sobre Camões que talvez se chame “Macau 1557″ou “Macau 1558″ – ele terá deixado Macau num desses anos. Foi um grande poeta, não é difícil encontrar a tradução das suas obras em inglês. Porque é que eu hoje voltei para o centro histórico da cidade? Porque percebi que estava possuído com a ideia de tentar fazer um poema com este título”.

poema chen li

War Symphony, Chen Li

Chen Li nasceu em Hualian, na costa Este de Taiwan, em 1954 – “hua” significa “flor” e “lian” quer dizer “lótus”, mas a cidade onde nasceu já se chamou Rio de Ouro, nome dado pelos portugueses quando ali chegaram no século XVI, refere.
O autor, com 14 volumes de poesia publicados, fala de uma “poesia concreta e visual”, da qual “War Symphony” é um dos exemplos “mais notórios”. Neste poema antiguerra, que aparece na imagem ao lado, são utilizados apenas quatro caracteres: 兵 “bīng” significa “soldado”; “乒” (pīng) e “乓” (pāng) são onomatopeias que imitam o som de tiros, mas visualmente assemelham-se a um soldado sem uma perna; qiū “丘” é uma pequena montanha, que aqui significa “túmulo”.
Chen Li, que escreve em chinês tradicional, admite ainda a dificuldade desta poesia (visual) ser entendida no Interior da China, onde se escreve chinês na versão simplificada. No final deste ano vão ser lançadas no mercado chinês cinco obras do autor.

“No poema Breakfast Tablecloth of a Solitary Entomologist junto todos os caracteres que têm o radical de insecto “虫”. Mas se usar chinês simplificado, alguns dos insectos deixam de existir. A maior parte dos poemas que vão para a China estão em escrita simplificada, mas mantenho poemas como este na versão tradicional, porque senão perde-se alguma coisa”.

A poesia visual de Chen Li tornou também um desafio a tradução das obras para outras línguas. O poeta admite, por isso, que muitas das versões em inglês são feitas em casa, num trabalho que divide com a mulher Chang Fen-ling. Licenciado em Estudos Ingleses pela Universidade Nacional Normal de Taiwan, onde ainda estudou espanhol, Chen Li tem também no currículo a tradução de obras de vários autores latino-americanos, como César Vallejo, Pablo Neruda e Octavio Paz. Neruda, nota, acabou por ganhar um lugar especial na poesia do taiwanês.
Chen Li abre o livro The Edge of the Island na página 77 e pede-me que leia a segunda linha do poema Taroko Gorge, 1989The towering mountain walls lie flat at the bottom of my heart like a grain of sand.

“Este poema é semelhante à poesia que se fazia durante a Dinastia Tang. A montanha eminente é como um grão de areia, temos aqui o macrocosmos e o microcosmos, o grande e o pequeno. Ainda numa parte do poema, procuro as raízes de Taiwan, onde vive população autóctone, onde vivem os chineses Han. Em Hualian, por exemplo, temos muita população indígena, como os Amis, os Atayal, os Bunun, e todos falam línguas diferentes. Neste poema escrevo nomes de lugares na Garganta Taroko, baptizados pelos Atayal. E essa descrição de lugares é uma inspiração que fui buscar a Neruda”.

No vídeo, Chen Li lê dois haiku, pequenos poemas de três linhas, que fazem parte do projecto Microcosmos.

Pode encontrar aqui mais informações sobre o poeta.

 

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