Rota das Letras: “No Interior da China é melhor não tocar em temas sensíveis”

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Filipe Melo, Wu Ziyuan e Philippe Graton (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

Catarina Domingues

O ilustrador de banda desenhada Wu Ziyuan nasceu em 1988 na província chinesa de Guangdong e começou por divulgar o seu trabalho no Weibo, uma plataforma de microblogues na China semelhante ao Twitter. Na sessão “Desenhando Palavras – A Arte da Banda Desenhada”, que abriu a 6.ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, discutiu-se o papal da BD como acto de resistência.

“Na realidade, no Interior da China é melhor não tocar em temas sensíveis. Existe um sistema que filtra as informações nos microblogues. Se encontram o teu blogue e vêem esse tipo de informação, podem denunciar-te às autoridades. Por isso, não toco em temas sensíveis nos meus desenhos. Gosto de manter a paz e a harmonia no meu trabalho. O que me interessa é expressar as minhas ideias aos leitores”, referiu Wu Ziyuan na ocasião.

E o papel de um artista não passa por denunciar e tocar em temas sensíveis?

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“Se queres publicar no Interior da China, o governo vai censurá-lo antes de ser publicado. (…) Há várias tentativas de trabalhar temas sensíveis, são trabalhos clandestinos e alguns são de grande qualidade”, disse.

Wu Ziyuan, que tem participado em várias exposições colectivas na Ásia, inspira-se no dia-a-dia para criar contos absurdos e com humor.

A banda desenhada é um segmento que está a ser explorado pela primeira vez no Rota das Letras, que se realiza este ano entre 4 e 19 de Março e conta com perto de 70 convidados de vários países. Ainda durante a sessão, que juntou outros quatro profissionais ligados à BD, foi discutido o facto de haver poucas mulheres envolvidas nesta área. O português Filipe Melo, músico, realizador de cinema e autor de BD, sublinhou “que não é apenas no mundo dos cartoons” que se nota a ausência da mulher. Já Wu Ziyuan referiu que na China há um número considerável de mulheres a dedicarem-se à BD. E o mesmo se passa em França.

“Principalmente nos tempos mais recentes”, notou o fotógrafo Philippe Graton, que inaugurou no edifício do Antigo Tribunal uma exposição com algumas das pranchas originais da série Michel Vaillan, iniciada pelo pai, Jean Graton, em 1957. No passado, referiu o fotógrafo, não havia nem ilustradoras nem personagens femininas.

“O meu pai tinha Michel Vaillant, que era a única personagem com uma família. Geralmente o herói era alguém que surgia do nada, mas ele tinha um pai, uma mãe, um irmão casado. As mulheres apareciam na banda desenhada e tinham um papel activo. Isso não era bem visto porque a imprensa era muito católica. O editor-chefe era um homem do clero, que era responsável por uma escola interna e dizia: `não desenhem mulheres, o que vai acontecer nos dormitórios quando lerem essas BD?´ Por isso era proibido”.

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Philippe Graton (FOTO: Eduardo Martins/Festival Literário de Macau)

A sessão “Desenhando Palavras – A Arte da Banda Desenhada” foi moderada pelo cartoonista português residente em Macau, Rodrigo de Matos, e contou ainda com a presença do francês Clément Baloup, autor de “Mémoires de Viet kieu”, que retrara os problemas da imigração asiática.

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