Uma cidade chamada A-Má

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* Han Lili

Yan Geling tem o poder de manipular um grande tema. Fisicamente, Macau é uma cidade. Mas neste caso, o título do romance é mais uma metáfora do que uma existência substancial. Trata-se de uma imagem empregada pela escritora para albergar e reter sentimentos. Macau associa-se à Deusa A-Má, protectora da cidade.
A história acontece num casino, desencadeando-se entre a protagonista Mei Xiao’ou, intermediária de jogo, e três jogadores de casino. Mei ganha a vida a introduzir clientes VIP ao casino, mas ela própria segue uma regra: não joga e não permite que os seus entes queridos o façam. Todavia, os três homens mais importantes da sua vida são todos jogadores compulsivos. Será que o destino lhe está a pregar uma partida? Quais são as apostas? O enredo desenrola-se com uma série de perguntas, que orientam a leitura.
Nas diversas tentativas de salvar as “almas vendidas ao diabo”, Mei acaba por se endividar, não apenas em dinheiro, também nas relações. Nas complicações entre o desejo, o poder, a vida e a morte, opta por deixar o território. Olhando para atrás, sente-se aliviada, aí permanecem os sentimentos, guardados pela cidade.
Segundo a escritora, Macau vive uma existência surreal. Numa superfície limitada, as vidas de Macau tecem-se de forma multidimensional. É esta reflexão que desperta a inspiração da escritora para o romance. Para melhor se inteirar do ambiente do casino, Yan entrou diversas vezes nas salas VIP, observou o comportamento dos intermediários, as regras praticadas no sector. Confessou que perdeu muito dinheiro ao jogo, mas teve sorte, ganhou material de primeira mão.
O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes dizia que pessoas de fora tinham maior capacidade de observar Macau. Entendemos que as pessoas, que vivem dentro dos muros da cidade perdem a curiosidade, uma vez que o surrealismo aos olhos dos estrangeiros é o dia-a-dia de quem habita a cidade. Yan Geling, enquanto forasteira, observa a cidade, escreve-a, associando o destino de uma mulher a esta terra protegida pela Deusa A-Má. Recorrendo à narração omnisciente, a autora controla o fio condutor do romance, manipulando assim o tom e a cor desta história lendária.

* Subdirectora da Escola Superior de Línguas e Tradução do Instituto Politécnico de Macau

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Mais sobre o livro:

Título original: 妈阁是座城
Autora: 严歌苓 Yan Geling
Editora: 人民文学出版社 People’s Literature Publishing House
Ano de publicação: 2014
Número de páginas: 426

Outros romances da escritora:

1996 -The Lost Daughter of Happiness (tr. de Cathy Silber, título em chinês《扶桑》)
2006 – The Banquet Bug (escrito em inglês)
2010 – Little Aunt Crane (tr. de Esther Tyldesley, título em chinês 《小姨多鶴》)
2011 -The Flowers of War (tradução de Nicky Harman, título em chinês 《金陵十三钗》)

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