The Origins of the Tiandihui

 

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João Guedes*

As associações secretas são tema recorrente que tem dado origem a abundante bibliografia, em inglês naturalmente, já que em português sobre o assunto apenas existe um livro publicado e nada mais, o que é pena. Apesar dessa tal abundância bibliográfica em língua inglesa, as seitas continuam a ser um assunto mal estudado e essencialmente objecto de tratamento a partir de casos de polícia mais clamorosos.
A violência que se gerou nas ruas de Macau, desde 1997, quando as seitas entraram em guerra entre si para dividirem os lucros do crime de Macau gerou, por exemplo, uma profusão de títulos. São livros que se venderam bem na altura, mas que para além do aproveitamento sensacionalista nada, ou pouco esclarecem de facto.
Aliás a generalidade dessas publicações consagram a palavra “tríades”, como se todas as seitas fizessem parte de uma só associação secreta. Nada está mais longe da verdade.
De facto são inúmeras as associações secretas chinesas, tal como o dos seus filiados, ainda que a maioria se encontrem habitualmente inactivos, mas que pertencem por exemplo à “14 Quilates”, “Son I Hon”, “Gasosa”, ou “Grande Círculo”. Isto só para citar alguns dos nomes mais sonantes deste mundo elusivo que se move nas sombras de Macau.
Nenhuma dessas seitas se chama “Tríade” e porquê? Porque a “Tríade”, que era também conhecida por “Sociedade Céu e Terra”, ou ainda “Sociedade das três Harmonias” desapareceu há muito, ou melhor foi-se fragmentando diluindo e refazendo-se através da história, adaptando-se aos novos tempos e adoptando outros nomes desde que foi criada nos inícios da segunda metade do século XVIII.
Mas uma coisa é certa, com mais ou menos pormenores, os rituais, o vocabulário cabalístico, enfim o esoterismo da “tríade” manteve-se em certa medida praticamente inalterável nos seus princípios nucleares até à actualidade.
Mas afinal o que era de facto a tríade? A resposta a esta pergunta pode ser encontrada no livro que tem por título “The Origins of the Tiandihui” e como subtítulo “The Chinese Triads in Legend and History”. Trata-se de uma obra elaborada em co-autoria pelos professores Dian H. Murray e Qin Baoqi. O facto de ter sido escrita por um ocidental e por um investigador chinês contribui para afirmar não só a sua seriedade como a solidez da tese exposta.
Pode dizer-se que o livro não traz a lume nada de particularmente novo, mas o que o torna um marco no mundo académico é o facto de coligir a informação dispersa existente sobre a “ tríade”, tendo ido retirar principalmente da obscuridade alguns trabalhos chineses, interligando-os entre si e comparando-os com fontes ocidentais.
Entre outras coisas e pelas razões que apontei, este livro põe termo a uma controvérsia que há muito tem dividido os especialistas sobre o local da formação da “tríade”.
Taiwan ou Fujian eram os berços apontados para o nascimento de uma seita que, ao longo de mais de um século, dominou sobre todas as outras de tal modo que reduziria, pode dizer-se, ao anonimato os nomes de todas as outras.
Este livro acaba com a polémica sobre a sua génese, ao apontar, baseado em documentos e argumentos sólidos, a província de Fujian como o local em que se formou em finais do século XVIII.
Este livro refere também os motivos que levaram à formação da “tríade”, uma génese extremamente curiosa e igualmente ignorada mesmo por muitos interessados no tema.
Em finais da dinastia Ming o império, a fim de controlar melhor as suas costas, mandou retirar as populações cerca de 30 quilómetros para o interior. Esta deslocação em massa fez com que as costas chinesas se tornassem terra de ninguém durante anos. O resultado acabaria por ser não o desejado, ou seja o de afugentar piratas e a navegação comercial ou de guerra estrangeira que assolava as regiões litorais. Mas o que aconteceu de facto é que nessa terra de ninguém, sem lei nem autoridade presentes, se gerou o clima ideal para a formação de um verdadeiro exército de bandoleiros e piratas. Um exército tão poderoso que pilhava mesmo as grandes cidades, como Amoy, antiga capital de Fujian a que chegou a pôr cerco. Esse cerco ficou célebre fornecendo tema de primeira página aos principais periódicos ocidentais que para lá destacaram os seus principais correspondentes.
Refira-se ainda que Dian H. Murray, é uma profunda conhecedora da história moderna desta região da China tendo escrito antes um trabalho aprofundado sobre a actividade dos piratas nas províncias meridionais do país. Desse trabalho resultou o livro, “Pirates of the South China Coast 1790-1810. Tanto este como o “The Origins of the Tiandihui” de que tratamos foram dados à estampa pela Stanford University Press.

*jornalista e historiador

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Sobre a obra:
Nome: The Origins of the Tiandihui: The Chinese Triads in Legend and History
Autora: Dian H. Murray em colaboração com Qin Baoqi
Editora: Stanford University Press
Ano: 1994
Páginas: 364

 

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